Organizando as coisas

Como o Facebook não lançou ainda o Paper no Brasil – e o Flipboard, vamos encarar os fatos, ninguém leva muito a sério, infelizmente -, vou tentar dar uma organizada na bagunça que se tornaram as encarnações da Coleguinhas aqui no WP e as duas no FB (incluindo meu perfil), de modo que quem me dá a honra de acompanhar as bobagens que escrevo tenha uma visão consolidada dos assuntos que mais têm sido abordados aqui e lá:

1. Série sobre Regulação da mídia

‘Regulamentar mídia pode ser bom para liberdade de expressão’, diz enviado da ONU 

Como funciona a regulação de mídia em outros países?

Como a mídia é regulada na Suécia

2. Série “O melhor do jornalismo brasileiro é feito na Europa”

Entrevista com Jose “Pepe” Mujica

‘Maior desafio é combater preconceito contra o pobre’, diz ministra do Bolsa Família

Por que o ‘New York Times’ quer fim do embargo a Cuba?

“É incrível o que Cuba pode fazer”, diz OMS sobre ajuda contra ebola

Fortuna de super-ricos é ‘incontrolável’, diz pesquisador

Série da BBC sobre o Brasil é reconhecida em premiação internacional

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/11/141106_soccer_cities_aib_rp

‘Brasil precisa taxar ricos para investir no ensino público’, diz Piketty

3. Série “Matérias que você não vê nos veículos de comunicação brasileiros”

Número de negros em universidades brasileiras cresceu 230% na última década; veja outros dados

Brasil aumenta em 29% o número de pessoas tratadas pelo SUS com medicamentos para aids

Brasil e mais 12 países são reconhecidos pela FAO por combate à fome

“Porque eu sou negro”

4. Série do Diário do Centro do Mundo sobre a sonegação da Rede Globo (crowdfunding de que participo):

Como o processo de sonegação da Globo sumiu da Receita e sobreviveu no submundo do crime

EXCLUSIVO: a história da funcionária da Receita que sumiu com o processo de sonegação da Globo

5. Série sobre Jornalismo e Telecomunicações

Radiodifusores x Governo: a hora da volta

Telecomunicações e o jornalismo que bate à porta

 “Ó meu Deus, mais telecomunicações?!”

6. Série “De volta a 64”

Nova direita surgiu após junho, diz filósofo

Brasil vive ressaca eleitoral e não polarização política, avaliam especialistas

7. Série “A vida cruel das redações”

Folha demite Eliane Cantanhêde

Carta enviada por jornalistas do UOL à direção do portal UOL

 

A votação de Bolsonaro e a democracia

Amigos estão se mostrando macambúzios com o fato de Jair Bolsonaro ter sido o deputado federal mais votado no Rio. Acham que é um fato a ser lamentado vestindo-se de saco e jogando cinzas sobre a cabeça. Peço vênia para discordar, e muito. Creio que a votação do capitão é um alento para a democracia por dois motivos:

1. Com a votação expressiva de um de seus membros mais antigos (o cara está no jogo parlamentar há uns 20 anos, no mínimo) e radicais, a direita pode começar a achar que dá para ganhar eleições, uma percepção aumentada com os 33% dos votos dados a Aécio para a presidência. Há, assim, a possibilidade de que uma boa parte dos direitistas passe a admitir que não se precisa, necessariamente, apelar para golpes contra a democracia para transformar a sociedade brasileira de forma a fazê-la mais próxima de seus ideais;

2.A esquerda tende a achar que suas bandeiras são evidentemente a melhores e que isso é tão claro que não dá nem para discutir. Os eleitores de Bolsonaro, Russomano e Feliciano (sobre o qual já falei aqui e aqui) avisam que não é bem assim. Há muita, mas muita, gente no Brasil que acha mesmo que lugar de mulher é na cozinha e na cama, que bandido bom é bandido morto, que criança, para ser bem educada, tem que entrar na porrada, que gay é doente, que preto tem que saber o seu lugar e mobilidade urbana é legal desde que não leve “gente diferenciada”, usuária de metrô e bicicleta, a passear por Leblon, Gávea, Barra ou Jardins. É bom a esquerda entender que o placar não está 4 a 0, com o juiz já tendo sinalizado três minutos de acréscimo. Está 2 a 1, os caras marcaram no fim do primeiro tempo e ainda há o segundo todo pela frente. O jogo está longe de ser ganho.

Há ainda um outro ponto a ser observado com a votação de Bolsonaro – e também as dos paulistas Celso Russomano ( mais votado do estado) e Marco Feliciano (o terceiro): a desmistificação das chamadas Jornadas de Junho. Elas sempre foram consideradas como expressão das demandas da esquerda – maior liberdade, mais direitos para os mais vulneráveis, mais bicicletas nas ruas… Não parece haver dúvidas de que havia preponderância de esquerdistas (e a votação de Luciana Genro e Eduardo Jorge para a presidência mostra isso), mas havia também uma significativa parcela que era (e é) contra tudo isso, e a votação desses parlamentares demonstra esse fato.

Burrice direita

A coisa que mais odeio é burrice. Tanto que mesmo quando ela ajuda aquilo no que acredito, me irrita. É o caso da reação da direita brasileira aos rolezinhos. Em todo lugar onde há uma direita moderna, decente e democrática (para os padrões da direita, bem entendido), os jovens da periferia de São Paulo estariam sendo saudados com banda de música, tapete vermelho e salva de palmas ao entrarem nos shoppings. Aqui no Bananão, porém, levam é gás lacrimogêneo e cacetada da polícia.

Há uma lenda, espalhada pelos direitistas mais espertos pouquinha coisa, de que não existe mais direita e esquerda no mundo. Tremenda malandragem. Direita e esquerda são frutos da sociedade burguesa capitalista, que leva à luta de classes, e só sumiriam se (quando) esse tipo de sociedade for superada historicamente. O que há hoje é que tanto a direita moderna, quanto a esquerda idem parecem ter entendido isso e, nos países com maior experiência democrática, a diferença se tornou mais sutil. Os dois lados concordam que o ideal é harmonizar o individualismo com o coletivismo, que, em outras épocas,  nos levou a sobreviver em tempos não tão amenos do planeta Terra.

A separação se faz pelas respostas que cada um dos lados dá ao inevitável e frequente confronto entre o coletivo e o individual. A direita acredita que, nesses choques, o individual deve prevalecer, pois, lá na frente, a intervenção de um ser “ex-machina” (Deus, mão invisível do mercado etc) se encarrega de restaurar a harmonia. A esquerda acredita que o coletivo deve ser privilegiado e que essa harmonização deve ser realizada pelo Estado, pois não acredita em Deus (ou acha que Ele tem mais coisas a fazer no Universo do que cuidar de nós) e já viu vezes demais que a tal “mão invisível” puxa a sardinha para um lado só.

Assim, em países em que a direita não tem como seus principais ideólogos rodrigos azevedos e constantinos, os jovens da periferia paulista seriam muito bem recebidos nos shoppings. Estes espaços são verdadeiras catedrais em honra ao deus consumo, cujas hóstias são retangulares, de plástico colorido e medem, em geral, 8,5cm x 5,5cm. A cada vez que um jovem desses saísse satisfeito de uma loja, mais um tijolo seria colocado na construção de sua consciência individualista, levando mais água para o moinho da direita.

Mas o que faz a direita do Bananão? Impede os garotos e garotas de entrar na “igreja do consumo satisfeito” e se eles tentarem vencer a barreira, a ordem é baixar o cassetete com vontade. A reação é óbvia: eles e elas se unem em movimentos coletivos como forma de fazer valer aquilo que consideram ser o melhor para eles, o que acham de seu direito (e é mesmo). Ou seja, procuram uma solução coletiva, típica da esquerda. No início, movimentos desse tipo não costumam apresentar a chamada “consciência social”, mas, como descobriram ao longo do tempo os direitistas dos países civilizados, é só deixar um grupo de pobres junto tempo suficiente, pensando e trocando ideias sobre a realidade em que vivem, para que comece a brotar a tal consciência social e, logo em cima, a de classe. Para evitar isso é que a ordem é fazê-los consumir mais e mais rápido, a fim de que o “eu-tenho-você-não-tem” impeça a aproximação natural de seres humanos que passam pelas mesmas vicissitudes.

Assim, a reação hidrófoba da direita brasileira tão bem expressa pelo senador tucano paulista Aloysio Nunes – em frase registrada pela Folha, chamou os jovens de abusados e cavalões – acaba sendo contraproducente para ela mesma. Também não vai funcionar, embora seja uma abordagem melhor, a variante de só olhar o lado consumista dos rolezinhos, sem levar em consideração o “apartheid” social de que são resultado, e nem aquela outra vertente, mais liberal ainda, de cobrar dos garotos a “consciência social” de pedir educação e saúde melhores do Estado – uma ideia boa, mas que expõe a contradição de exigir uma consciência de classe que os próprios liberais negam que os rolezeiros possuam.

Enfim, a direita brasileira está prestes a novamente bomba (no caso, metaforicamente) em mais um teste de civilidade que a História lhe propõe. Para o próximo, aconselha-se que estudem em livros-textos melhores do que a Veja, O Globo, o Estadão e outros que-tais.

Como continuar pedalando?

As passagens baixaram. Beleza. Uma parte cumprida. E agora, liderança? Fazemos o quê?

As opções que vejo:

1. Retirada organizada: Não vou esconder que acho a melhor. Pode-se sair cantando vitória – até porque foi vitória mesmo -, mas tem o desafio de não acabar com a mobilização. Para isso tenho uma proposta:
“Ô, _____ (preencher com o nome do prefeito), vamos discutir mobilidade urbana a sério. Uma comissão – três nossos, três seus e o MPF do _____ (preencher com o nome da unidade da Federação) para mediar e dar voto de Minerva. A comissão terá 60 dias, no máximo, para abrir todas as planilhas e propor uma solução para o financiamento do transporte coletivo público. Você envia o resultado para a Câmara dos Vereadores e nós nos comprometemos a ir para porta pressionar para os vereadores aprovarem.

Mas não acabou não. Vencida essa fase, a comissão prossegue reunida. Em um ano, no máximo, depois de ouvir especialistas de empresas e da Academia, propõe um Plano Estratégico de Mobilidade Pública para ser implementado nos próximos 20 anos, começando ano que vem mesmo. O Plano também será enviado por você para Câmara dos Vereadores e a gente se compromete a ir lá de novo pressionar pela aprovação.
Basicamente é isso. Ah! As reuniões serão abertas à imprensa e terão 100 senhas distribuídas por ordem de chegada, a cidadãos interessados em acompanhá-las. Nós nos comprometemos a operar isso, e também a gravar tudo e botar na internet.”

2. Ficar na rua: Essa opção tem alguns obstáculos sérios. O primeiro é aquele que já abordei – a falta de um objetivo político estratégico. Hoje, só vejo dois: derrubar a Dilma ou instaurar o socialismo (ou anarquismo, dependendo da correlação de forças) no Brasil. O primeiro, no meu modo de ver, é meio fraco. Afinal, se é para mudar governo, é só esperar o ano que vem, como disse o Clemente, dos Inocentes, e botar Aécio, Dudu Campos ou Marina no Planalto – pressupondo-se, claro, que encontremos os buracos em que os três se enfiaram desde o momento em que tudo isso começou. O segundo é bem melhor, mas a sua implementação é um tanto ou quanto complexa, né?

De qualquer maneira, uma vez definido qual o objetivo político estratégico, há dois problemas urgentes a tratar – como deter os vândalos e provocadores e chamar o povo pobre para a rua. O primeiro problema não é de somenos. Os atos de vandalismo e provocação têm aumentado de manifestação para manifestação e essa escalada não vai parar, sabemos disso, principalmente quando os atos forem convocados para áreas comerciais. Afinal, já que a polícia não pode reagir – se o fizer, será chamada de truculenta, repressora, antidemocrática etc – os bandidos vão se sentir tentados a ficar por perto e, a fim de faturar algum, apoiarão provocadores como esse aqui.

(Aqui um parêntese. Há um pessoal “radical” facilmente encontrado em bares de Ipanema e Gávea, no Rio, e Vila Madalena (Sampa), e em cátedras universitárias de todo o país, especialmente na área de Humanas. Tenho um rancor particular e profundo contra essa gente, que, no momento, pelo que deu pra ver por aí, defende, por exemplo, que os vândalos presos (incluindo o pessoal do item acima) são “presos políticos” e por isso devem ser “anistiados”. O pessoal do parágrafo de cima, na hora do vamos ver, pelo menos, estará nas ruas batendo na gente, ao lado dos meganhas. Já essa galerinha “radical chique” o máximo de proximidade que terá da polícia será tomar um capuccino naquele simpático e típico café que fica em frente à Chefatura de Paris.)

Voltando…

Resolver a questão acima é fundamental para levar os pobres para a rua. No momento, vamos combinar, tirando aqueles mais organizados, apenas um ou outro desgarrado apareceu nas manifestações. E não se pode culpá-los. Historicamente, sempre que os brancos brigam, acaba sobrando pra eles, nem que seja de forma indireta – tipo a polícia, que não pode bater em manifestante, vai à forra neles, sem medo de editorial. E como os vândalos quebram e saqueiam comércio e bancos, adivinha quem o garçom, a copeira e a balconista vão culpar quando o restaurante e a loja tiverem que fechar devido aos prejuízos?

Outro ponto é que, vamos admitir, nos últimos 10 anos, a vida dos caras melhorou. No momento, já não é tão boa, devido à inflação, mas ainda é melhor do que antes e, também por experiência própria, a galera sabe que, quando a inflação ameaça voltar, confusões apenas pioram o quadro. Assim, para tirar esse pessoal da posição de observador temeroso, é preciso explicar bem quais direitos estão em jogo, como se pretende fazer para conquistá-los, quanto tempo, mais ou menos, vai se levar para chegar lá, e, principalmente, quanto essa galera vai ganhar com isso. Assim mesmo – de maneira bem clara e pragmática.

Por fim, qualquer que seja a decisão a seguir, ela também tem que ser tomada rapidamente. Se demorar muito, o gás escapa e aí fica difícil encher o balão de novo.

Barbosão candidatão

É bom Aécio Neves e Eduardo Campos arrumarem um jeito de eleger-se ano que vem, pois se não conseguirem, em 2018, terão que enfrentar um adversário muito duro por ser egresso de suas próprias fileiras. As últimas atitudes do presidente do STF, Joaquim Barbosa, não deixam dúvidas – ele é candidatíssimo para 2018, com estratégia traçada e tudo.

Eleição de inimigo único (Zé Dirceu, cara ótimo para encarnar papel de vilão), desacato a colegas juízes (demonstração de independência), ataque a jornalista (pareceu escorregada, mas não foi – testou a subserviência dos veículos e dos coleguinhas ao seu projeto e obteve resposta positiva), aparição em lugares públicos para receber aplausos (devidamente registrados e passados às colunas pela assessoria), vazamento de dossiê contra colega do STF para prevenir-se de ataques após sua saída da presidência da Corte…Todos foram jogadas táticas de candidato a candidato.

Esses movimentos se enquadram na construção de uma estratégia já testada e aprovada em outros lugares – a aliança entre o conservadorismo e o lumpesinato (vários autores chamam de ralé essa parte da sociedade desprovida de qualquer consciência política, mas eu não acho legal o termo por saber a preconceito aristocrático). Essa aliança já deu suporte a movimentos políticos como o nazismo (o mais bem sucedido ); o fascismo italiano; aquele levou à condenação de Dreyfuss no fim do século XIX, na França; o imperialismo inglês de Cecil Rhodes e companhia, e até a Revolução Cultural, na China, dura demonstração de que falta de consciência política não é característica dos extratos mais baixos da sociedade burguesa.

Como você pode ter notado pelos exemplos, não é uma aliança de grande duração histórica, mas com uma poderosa capacidade de destruição política e de encaminhamento de desastres. Homem culto, Barbosão deve ter tido oportunidade de ler sobre todos os movimentos citados acima e visto que o Brasil, neste momento, ostenta um bom quadro para o lançamento de um projeto político do tipo consulado bonapartista, mas encabeçado por um magistrado. Depois de (talvez) 16 anos de poder, a esquerda sofrerá de grande – e muito possivelmente irreversível – fadiga de material e o conservadorismo não terá conseguido, nesse tempo todo, adaptar sua agenda ao país do Século XXI, permanecendo, como até agora, preso à mentalidade dos anos 1950/1960.

A bola estará quicando para um homem com as credenciais de Joaquim Barbosa: nascido negro e pobre, chegou aos píncaros de uma carreira de branco (algo como Lula), é intransigente (como Dilma), culto (como FHC) e perseguidor de políticos. Como uma nova derrota para o PT, provavelmente, vai deixar o PSDB ainda mais sem pai, nem mãe do que já está, pelo menos uma legenda forte certamente acorreria para oferecer-se como barriga de aluguel para o projeto barbosista. Uma candidatura assim, com suporte dos estratos superior e inferior da sociedade, não teria dificuldade de engolfar a classe média – que, de resto, já adora o presidente do STF, como demonstra o Facebook – e, portanto, seria favorita em 2018.

Assim, vamos acompanhar atentamente os movimentos de Joaquim Barbosa nos próximos anos e o resultado deles. Afinal, o esquema traçado é muito bom e forte, mas a política, por ser tão humana, é muito imprevisível. Para o bem e para o mal.

Faltou a Folha

Na matéria de hoje do Globo sobre o financiamento à tortura praticada durante ditadura militar por parte do empresariado paulista, senti falta, entre as companhia citadas, da Folha de São Paulo. Afinal, se até empresa que forneceu quentinha apareceu na lista, o jornal que cedeu veículos identificados para campanas e desovas deveria estar nela também.

Hannah e o pastor

O Marco Feliciano, pastor e a agora presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, é um canalha. Creio que não há dúvida razoável quanto a isso. No entanto, se não há questionamento sério quanto à capacidade ética do nobre deputado, a meu ver, há quanto ao fato de o discurso dele ser representativo ou não na sociedade brasileira.

Veja…Feliciano é deputado federal eleito, ou seja foi pra rua, pediu voto e levou. E não foram poucos não – nada menos que 211.855 (12º mais votado entre 70 eleitos por São Paulo), sendo 47.685 na capital (ele tem força também na região central do estado: Araraquara, Araçatuba, Bragança Paulista, Piracicaba…). Para se ter uma ideia, Feliciano seria o terceiro mais votado do PSDB , só perdendo para Bruna Furlan (270.661) e Emanuel Fernandes (218.789), e quarto no PT, atrás apenas de João Paulo Cunha – é, o do mensalão -, com 255.497, Jilmar Tatto (250.467) e Carlos Zarattini (216.403). Assim, pelo menos no estado de São Paulo, o cara tem muito voto.

Surpresa? Só se você não anda pelo menos uma vez de táxi em São Paulo a cada seis meses e não tem o hábito de ouvir os motoristas, como eu. Se faz isso, certamente, durante o papo em meio a uma corrida de 20 minutos, teria uma boa chance de saber como pensa quem vota em Feliciano. Mas nem precisa ir à Paulicéia ou pagar uma corrida de táxi lá para ter contato com a matriz desse tipo de pensamento – não é necessário nem sair daí, da frente da tela do computador. É só dar uma passeada nos sites dos jornais e revistas e ler os comentários sobre matérias envolvendo direitos humanos (recomendo especialmente os sites do Globo e da Veja). No Facebook é menos provável de encontrar, pois, se você está escandalizado/a, seus amigos provavelmente também estão, já que, para serem seus amigos, quase certamente pensam parecido com você (há exceções, claro, mas logo você corta de sua lista, certo?).

“Mas o cara precisava ser presidente da CDH?”, perguntará você É, não precisava, mas esse não é o meu ponto. O problema, a meu ver, é que a cobertura que se vem fazendo do caso despolitiza a questão, centrando-se apenas nas ideias manipuladas pelo malandro, esquecendo que elas não surgiram do nada. Têm raízes sólidas e profundas na sociedade brasileira e isso precisa ser observado e dado à luz. É  preciso ter cuidado parecido –  guardadas as devidas proporções e com todos os pedidos de vênias necessários – com aquele a ser dispensado aos ovos de serpente que dão em coisas como nazismo e totalitarismos afins, segundo Hannah Arendt:

“(…) Além disso, não apenas a história do antissemitismo tem sido elaborada por não-judeus mentecaptos e por judeus apologéticos, sendo em geral evitada por historiadores de reputação: mutatis mutandis, com quase todos os elementos que se cristalizariam no fenômeno totalitário ocorreu o mesmo. Ambos os fenômenos — o antissemitismo e o totalitarismo — mal haviam sido notados pelos homens cultos, porque pertenciam à corrente subterrânea da história europeia, onde, longe da luz do público e da atenção dos homens esclarecidos, puderam adquirir virulência inteiramente inesperada.”

P.S.: Quem quiser baixar “Origens do totalitarismo” pode fazê-lo aqui. Recomendo muito a leitura.