Dividida dura

Já falei aqui da compra da Esporte Interativo pela Turner e da briga envolvendo as duas e a Abert, representante do oligopólio que domina a TV do país há décadas, já começou a causar. Durante o descanso momescco, porém, me toquei que não tinha explicado a questão direito, deixando-a no ar. Vou tentar fazê-lo aqui e começo lá de trás.

Além do apoio financeiro (ilegal, aqui), os americanos trouxeram para a Globo, em seu início, há 50 anos, o conceito de “prime time”. Basicamente, é o bloco de programação que se estende das 19h às 23h, no qual os valores dos anúncios são os mais altos, já que as ví… quer dizer…os telespectadores estão lá, quietinhos e relaxados, na mesa do jantar, prontos para comprarem qualquer coisa, de sabão em pó a carros, passando por notícias com enfoque enviesado.

No Brasil , o chamado “horário nobre” é aquele, mas com muita concentração na primeira parte do período, ou seja, das 19h às 21h (se quiser ver como é em outros lugares, a wikipedia dá uma mão). A Globo montou essa grade colocando o esquema novela-telejornal-novela, que começou efetivamente no dia 1º de setembro de 1969, data da primeira exibição do Jornal Nacional (sim, eu vi e adorei a música de abertura, uma parte de Summer ’68, do Pink Floyd – mas essa que aparece no youtube já é a segunda abertura, depois que o Banco Nacional passou a ser o patrocinador exclusivo).

Funcionou que foi uma beleza e permanece desde então – com uma ou outra mudança, tipo “estica-e-puxa” do horário -, apesar de já não ter o mesmo sucesso, pois, a queda de audiência das novelas (primeiro) e do telejornalismo global (de uns 10 anos para cá) é público e notório, levando junto a audiência geral da emissora (aqui).

Com essa queda, a cobertura do futebol passou a ser estratégica para a Rede Globo, pois, apesar de também ter sido atingido pela queda geral de audiência, o produto futebol tem demonstrando uma resiliência maior à débâcle. O “esporte das multidões” entrou como terceiro pilar da audiência da Globo nos anos 90, depois que, em 1987, a emissora, junto com dirigentes dos maiores clubes do país, criar o Clube dos 13, visando forçar a CBF a mudar a organização do Brasileirão e fazer com que este ficasse nas mãos dos Marinho.

Já entendeu qual o problema, certo? Entendeu o geral, pois tem um pouco mais – e importante. Em 2011, o Cade, após mais de 10 anos de deliberações, decidiu que o contrato de exclusividade entre a Globo e o Clube dos 13 era ilegal por ferir a concorrência, e determinou que houvesse uma licitação aberta a todas as emissoras interessadas (depois você ainda se pergunta porque os Marinho odeiam os últimos governos do país…).

A Record entrou na disputa e corria o risco de ganhar, por ter obtido o apoio de alguns clubes. Daí, a Globo, com a inestimável ajuda de Ricardo Teixeira e sua CBF, pressionou os clubes, especialmente o Corinthians e o Inomi…quer dizer, o Flamengo, a assinarem por fora. Com eles, muito a contragosto, foram os outros ( exemplos aqui) e o Clube dos 13 implodiu porque Corinthians e Flamengo ficaram com uma parte muito maior parte do bolo.

Como você deve ter lido nos dois últimos links, os contratos terminam este ano, só que não –eles foram renovados para o período 2016-2019 (aqui, com os valores novos e antigos). Os novos acordos alargaram ainda mais a distância entre Corinthians e Flamengo e os outros (aumentando o temor da “espanholização” do futebol brasileiro, mas isso é outra discussão).

A questão é que é três anos passam rápido e agora há um garoto grande, forte e com cara de mau na vizinhança, de nome Turner. Ele comprou um brinquedo novo chamado Esporte Interativo, que possui contrato de aluguel de uma geradora (TV Eldorado, do grupo Estado de São Paulo), a qual transmite para 22 cidades incluindo São Paulo capital e algumas cidades importantes do estado (como Campinas e Santos), onde não só está o maior mercado publicitário do país, como é a sede de um daqueles dois clubes que mais recebem da TV Globo (a lista completa de cidades que recebe o sinal do EI está aqui – note o número de capitais e o fato de atingir o país todo via parabólica, sem contar que a presença na grade da Netflix não está na lista).

Assim, pode apostar que, já no ano que vem, os outros clubes – e, talvez, até Flamengo e Corinthians – comecem a reclamar do que andam recebendo (aliás, já começou…). A Globo está pagando R$ 1,6 bilhão (cerca de US$ 550 milhões ou 500 milhões de euros) para todo mundo – é uma boa grana, mas, como se pode ver aqui, fica apenas na sexta colocação entre as grandes ligas de futebol do mundo (podendo ser a sétima, já que a liga turca renovou este ano). O Turner está acostumado a brincar com um pessoal mais taludo, que disputa direitos pela NBA, NFL, MLB e Superbowl – assim oferecer R$ 2,5 bilhões que seja por três anos (pouco menos de US$ 900 milhões ou cerca de US$ 300 milhões por ano) não é algo capaz de assustá-lo.

Há ainda o fato de que, pela beiradas, o EI já vinha comendo o mingau –  obteve a valiosa Liga dos Campeões para TV fechada e internet (aqui) e alguns estaduais de estados pobres (aqui uma lista de quem tem direitos sobre que campeonatos, antes da compra da Liga dos Campeões pela EI), e até promovendo campeonatos interestaduais com sucesso (Copa Nordeste e Copa Verde). Nesse caso, o Turner poderia, se ficasse realmente irritado, unir a Copa do Nordeste à Copa Verde (que reúne clubes do Centro-Oeste e do Norte) e partir para ampliá-la para todo o país, pegando os clubes que estão ganhando muito menos que a dupla gambá-urubu, formando uma liga nacional estilo Premier League inglesa, La Liga espanhola ou Liga Sagres, de Portugal.

Por isso, a Abert, que tradicionalmente é pau-mandado da Globo, deverá partir para um briga encarniçada para barrar a entrada da Turner na TV aberta, via EI e TV Eldorado. No fim, a decisão vai ficar com o Ministério das Comunicações (leia-se Ricardo Berzoini), e, muito provavelmente, com o STF.

Vai ser realmente divertido de ver…