Coleguinhas, 21 anos e um comunicado

Antes de começar a destrinchar a distribuição de verbas de publicidade da Administração Direta do governo federal (a da indireta teve mais um capítulo semana passada, com a CGU me avisando que só terá uma resposta lá para julho ou agosto), gostaria de fazer um comunicado: a Coleguinhas vai mudar. Um pouco, mas vai.

O motivo é que a página completará 21 anos de existência em 27 de maio, dois dias depois deste escriba ter completado 57, 35 deles dedicados ao jornalismo. São períodos bem razoáveis de tempo, você há de admitir. Confesso que ando um tanto cansado. Nunca tive obrigação de publicar uma coluna dominical, mas, como jornalista, só sei trabalhar direito com prazos definidos, o que acaba enchendo o saco, em algum momento.

Assim, a partir de agora, não é garantido que haja coluna nova todo o domingo. A ideia é que escreva quando realmente tiver algo que considere importante comunicar, mais ou menos como faço no Medium, se bem que mais frequente, já que lá é bissexto mesmo. Nas próximas semanas, é bem capaz de não haver diferença, pois há essa numeralha da publicidade oficial, mas, depois, haverá uma diferença maior entre as publicações.

E já que estamos no assunto, abri uma aba lá em cima para contar como a Coleguinhas surgiu, algo que, por algum motivo, numa cheguei a escrever, embora tivesse contado a história um sem-número de vezes.

A Coleguinhas, agora, é “di maior”

Daqui a dois dias será oficial: em 27 de maio, terei passado um terço de minha vida mantendo a Coleguinhas na Rede. Serão 18 dos 54 anos que completo hoje, provavelmente um recorde merecedor de Guiness: o cara que passou mais tempo enchendo o saco dizendo coisas desimportantes sobre um mesmo assunto para o maior número de pessoas, ao mesmo tempo. Não que seja tanta gente assim – contando tudo (assinaturas por email, pelo WordPress, pelo Feedburner e visitas) dá 100 por dia, mas a persistência deve contar, né?

Tudo começou para impressionar uma namorada e pode parecer sem sentido hoje, mas naquele tempo era uma boa ideia: a internet comercial tinha sido lançada em setembro de 95 por aqui e como não era todo mundo que sabia mexer com o HTML, isso marcava pontos com algumas moças, pode ter certeza. Na verdade, a ideia era manter uma página sobre pintura (uma paixão ainda hoje, embora nada entenda do assunto), mas vi que ia ser complicado arranjar as figuras – não havia museus online e muito menos o wikiart, além dos escâneres serem raros e caros. Assim, resolvi montar uma página (era uma mesmo) sobre algo em que estava envolvido e não me custaria muito manter.

A página fez sucesso – desconfio seriamente que não por alguma qualidade que tivesse, mas pelo fato de ser a única a tratar do assunto na Rede naquele tempo – e acabou se transformando, durante uns anos, num portal de jornalismo, com contatos de colegas que se aventuravam na Rede (tão raros que o amigo luso-brasileiro Luiz Carlos Mansur me disse que eu fora o único dentre os coleguinhas que deixara por aqui que conseguira achar quando procurou, isso em 1999) e até o “Garrafas ao mar”, uma espécie de classificados.

Curiosidade histórica: veja abaixo a home da Coleguinhas em 2001 (de pouco antes do ataque às Torres Gêmeas), quando ainda era hospedada em http://www.geocities.com/CapitolHill/4096 (acabei de pedir do projeto Reocities para tentar recuperar algo mais,quem sabe eles conseguem?). O site teve mais ou menos essa cara até se transformar num blog, por volta de 2003. Desse tempo, todos os textos se perderam, graças à minha desorganização.

 

coleguinhas_09-2001

Retomando…O sucesso, claro, era relativo, já que o assunto único e direcionado a um nicho muito específico não facilitava uma maior difusão, que, de resto, nunca foi o objetivo aqui. Um marco nessa difusão foi a maluquice do Ali Kamel de bater boca comigo, publicamente, aí por volta do ano 2000, por conta de um post que escrevi sobre a demissão de uma colega do Globo por ela ter, inadvertidamente, limado uma indicação no “tijolinho” da programação de teatro de uma amiga do Merval. Este também não gostou, mas foi mais discreto – mandou apenas um emissário para sondar se eu não estava a fim de dar um tempo no site em troca de um possível retorno ao jornal num futuro não definido (educadamente, eu disse não e ficou tudo por isso mesmo). Ali, porém, resolveu escrever uma carta, que obviamente publiquei, com uma resposta, dando uma repercussão desmedida ao assunto. Pior é que ele não aprendeu – anos depois, quando tentou reescrever a história da cobertura da Globo sobre as Direta-Já e eu rebati no Comunique-se, ele voltou a me dar uma força, pedindo uma retratação (nunca feita, já que o que eu disse – que as Organizações Globo tentaram abafar o movimento até quando puderam – era verdade histórica facilmente comprovável) não só no site, como na Coleguinhas.

O C-se (contração que inventei por preguiça de escrever o nome todo e hoje é oficial) também foi importante, mas aí a via foi de mão dupla – a coluna Coleguinhas que assinei lá na época da criação, e por uns dois ou três anos, ajudou a alavancar audiência para o novel site. Mas mais do que divulgação, a passagem no C-se destruiu uma certeza que mantinha até então: a de que os coleguinhas de redação faziam um trabalho ruim por culpa dos patrões, que, vilanescamente, os obrigavam, sob pena de demissão.

No C-se, porém, observei que, apesar de essa pressão realmente existir, ser considerável e importante para o entendimento geral da situação do jornalismo no Brasil, não era incontornável. Já naquela época – fim de 2003, início de 2004, quando a Coleguinhas já abandonara a forma de site e se tornaram um simples blog – estava claro de que havia caminhos fora das redações para os jornalistas que não quisessem trocar sua integridade moral e profissional por um salário melhor e/ou cargo.

Foi um choque descobrir que muitos coleguinhas  estavam dispostos a negociar sua integridade, algo que para mim simplesmente não faz sentido. A descoberta me abalou tanto que encerrei a coleguinhas em março de 2004, com a intenção de não voltar mais (a coluna de despedida foi essa ) . A decisão durou apenas seis meses: em setembro, estava de volta por não aguentar o jorro de  de manipulações – e simples mentiras mesmo – que passou a ser expelido pela redações quase diariamente. Ficar assistindo sem fazer nada me fazia mais mal do que escrever sobre elas. Para lidar com a situação, porém, pago um preço: tornei-me mais cínico (ah, ok, tem uma maneira melhor de ver isso: fiquei mais compreensivo com as fraquezas humanas).

Daquele tempo até outubro do ano passado, não aconteceu nada de excepcional para a Coleguinhas. Foi quando a colaboração de um Alto Conselheiro ensejou o post sobre os efeitos das manifestações ocorridas a partir de junho na redação de O Globo, evidenciando a divisão geracional que existe por lá hoje em dia (aqui). Uma hecatombe – em apenas um dia registraram-se 46.077 visualizações, chegando a 90.942 no mês, a partir de 17 de outubro. Claro que a 99% desse tráfego evaporou-se, mas restou o dobro de acessos (aqueles 100 diários do primeiro parágrafo).

Enfim, é isso. A Coleguinhas atinge a maioridade, mas não parece que vá mudar muito por causa disso. Como se dizia antigamente quando alguém chegava aos 18, a única mudança significativa é, agora, que ela poderá ser colocada na caçapa da patamo.

Coleguinhas, 500 mil

Em algum momento lá pelo fim de outubro do ano passado, a Coleguinhas atingiu o número 500 mil visualizações, mas só notei agora.  Como?

É que há anos não presto atenção nos e-mails que o SiteMeter (aqui) envia com os dados que compila desde quando o blog era um site cuja página principal chamava-se Picadinho Diário (quem acompanha desde essa época?). Semana passada, vi que, em sua versão WordPress, a Coleguinhas aproxima-se das 200 mil visualizações (hoje está em 196.307) e deu curiosidade de checar os números do SiteMeter – e lá estava, nessa semana, o número de 321.265. Assim, a soma ficou em 517.572 visualizações e, olhando as tabelas do WP referentes às estatísticas mensais, cheguei à conclusão da primeira frase (na verdade, o número é algo maior, já que o SiteMeter chegou depois da Coleguinhas ter saído da Geocities, seu primeiro paradeiro, mas isso se perde na noite dos tempos da Internet no Brasil).

Infelizmente, o WP não informa o número agregado de visitantes únicos (talvez o faça na versão paga, não sei), mas como a média de visualizações por visitantes é de cerca de 1,80, calculo que, no WP, esse número já tenha ultrapassado os 110 mil. Como, no SieteMeter, ele é de 265.263, tenho por certo que a Coleguinhas já foi vista por mais de 375 mil visitantes únicos.

Mas é preciso relativizar sempre, certo? Daí, você tem que ver que essas estatísticas foram construídas ao longo de quase 18 anos de existência (a completarem-se em 27 de maio próximo). Assim, não chegam a ser tão impressionantes quando parecem à primeira vista.

Para quem chegou agora

Houve um mundo de gente chegando nos últimos dias e, em atenção a esse pessoal”, repus os arquivos do blog aí do lado direito. Eles remontam apenas a 2003, quando a Coleguinhas se transformou num blog, ainda no Blogger – os sete anos anteriores estão quase perdidos, só tenho alguma coisa em CDs. Creio que será legal os que chegaram agora lerem alguns posts antigos para evitar (ou acelerar, se for o caso) decepções.

Cascudaço virtual

Um novel Conselheiro, recém-chegado à Coleguinhas, mandou um baita cascudo virtual devido a esse post aqui:

(…)

Outro ponto que quero conversar com você, de longa data, é sobre a questão do centro da Meta que você abordou em um dos seus brilhantes textos. A questão é quando o Bacen fixa uma meta de inflação, 4,5%, por exemplo, sempre admite-se uma variação para mais e para menos, 2;0% hipoteticamente falando. Portanto, aquele primeiro número é o centro da meta de inflação a ser perseguida e, em seu entorno, admite-se uma variação para mais ou para menos. Por isso que aquele primeiro número é denominado centro, porque é em torno desse número que tudo é planejado e executado em termos de política monetária, não porque represente aritmeticamente a média das bandas de inflação.

Saudações tricolores

É…Não se pode dar mole…Tem que ter sempre atenção. Aos leitores da Coleguinhas, e não só ao Conselheiro, meu sincero pedido de desculpas

Vai-se um grande sujeito

Riomar Trindade morreu esta madrugada, em seu apartamento em Copa. Especializado em jornalismo econômico. foi meu chefe na sucursal da Folha, em meados dos anos 80 e me ensinou mais coisas sobre jornalismo do que sou capaz de lembrar. Um grande jornalista e uma pessoa ainda maior. o velório começa amanhã, às 10h, na Capela 7 do São João Batista. O enterro será às 16h.

Vai na paz, gaúcho!

Pausa para a saudade

João Areosa me deu muita força no meu início de carreira, lá nos idos dos anos 80 do século passado, no Globo. O Armando Calvano gostava de implicar comigo, mas o Areosa, com aquele jeito de ursão, mantinha o outro grandão na linha, protegia o garoto e o punha sempre bem na foto para o Renato Maurício Prado. Fiquei muito, muito triste com a morte desse amigo com quem, infelizmente, não mantive mais contato. Vai na paz, mestre.