Cascata em mar aberto

Com que então a Chevron derramou mesmo um monte de óleo na Costa Verde, mas o tal desastre ambiental que teria sido provocado por ele foi uma tremenda cascata? Bem, e aí? Não vai rolar um pedido de desculpas à população pelo alarmismo e à empresa, pelos prejuízos?

Não, não… Não vale dizer que só se reproduziram as informações da PF e do MP. Jornalista não é taquígrafo, que apenas transcreve o que os outros falam. Jornalista investiga e, principalmente, duvida das fontes. De qualquer uma. Por que a Polícia Federal e o Ministério Público são considerados guardiães da verdade absoluta e não têm suas afirmações e informações submetidas ao bom e velho ceticismo? Só porque eles são fontes importantes? Vamos convir que esse não é um argumento forte o bastante para transformar os servidores dessas duas instituições em sacerdotes que não têm quaisquer interesses além da verdade e nada mais que a verdade.

Parcial do king of the Kings-2011

Após uma semana de eleição, a cascata da “Livro com erros de português do MEC”, da TV Globo, lidera a disputa pelo King of the Kings de 2011, com 15% dos votos. Em seguida, um quádruplo empate, com 10%, entre “Honoris causa do Lula na França” (vários veículos), “Campanha anticorrupção” (também vários veículos), “Assassino de Realengo era terrorista” (Veja) e “Petrobras envolvida no Caso Chevron” (O Globo).

A votação segue até domingo à noite. Não deixe para última hora! Vote agora!

Caso Chevron: TCU x Petrobras, uma longa história

A história entre o TCU e a Petrobras vem de longe. Mais precisamente do momento em que o monopólio do petróleo foi quebrado, lá em 95. A lei que determinou a quebra permitiu que a petroleira tivesse um regime próprio de licitações, o que, na prática, a retirou do âmbito da Lei 8.666. Essa providência foi tomada porque até o tucanos – antiestatistas até a raiz da medula vermelha do sangue – admitiram que a lei das licitações impediria a Petrobras de concorrer em igualdade de condições com as empresas privadas. Afinal, devido à burocracia imposta pela 8.666, a compra de parafusos, que numa companhia privada leva duas semanas, numa estatal demora dois meses – se não houver ida à Justiça.

Tudo bem, exceto para o TCU. Irritado contra o que considerava uma afronta à lei – e ao seu poder, já que a 8.666 é a base legal para as auditorias do órgão -, o tribunal entrou na Justiça para derrubar a parte da regulamentação da Lei, ocorrida em 97, que permite o tal regime próprio de licitações. A Petrobras respondeu obtendo liminar atrás de liminar no STF, mantendo o regime até hoje.

Assim, essa tentativa do TCU de arrastar a Petrobras para o meio do óleo derramado pela Chevron cheira mais a picuinha do que a preocupação com o bom uso dos dinheiros públicos.

Mais três concorrentes e o KofK bate recorde

A semana começa com três novas cascatas concorrendo ao King of the Kings-2011:

1. Caso Chevron – O descaso inicial, por parte do Globo, em relação ao derramamento de óleo em Campos foi muito estranho, ainda mais no momento em que o jornal vinha em campanha acerba em defesa dos royalties do petróleo para o Rio e o vazamento, fosse de que tamanho fosse, seria um forte argumento em favor da causa.

2. Campanha anticorrupção – As melancólicas manifestações de 15 de novembro jogaram uma betoneira de cal em cima desse movimento, que estava, desde o início, fadado ao fracasso, por não ter base econômica e política, e só foi levado a sério nas páginas da internet e nas redes sociais. Aliás, essa história de mobilização política via rede social é outro tremendo boitatá. Política se faz na rua e não na internet. Primeiro, sua-se ao sol e molha-se na chuva (melhor ainda se puder apanhar da polícia) e aí compartilha-se isso nas redes sociais, para angariar adeptos. Fazer o contrário dá no que deu a tal campanha anticorrupção.

3. Vídeos dos globais contra Belo Monte – Por falar em rede social, essa cascata vem diretamente de lá. Totalmente calcado em informações falsas e/ou falaciosas, o vídeo, depois de uma bombada no primeiro dia, acabou provocando efeito rebote – a desconfiança com esse súbito engajamento de habitantes do “mundo manoel carlos”, um monte de gente foi conferir as informações e aí ficou clara a cascata. Internet tem isso de vantagem: escreveu, não leu, o pau comeu imediatamente.

Com essas três, chegamos a 18concorrentes ao KofK deste ano, um recorde desde a criação do prêmio, há seis anos. Não sei se é caso de comemorar.

Caso Chevron – A escolha do Globo

Depois de muito hesitar em escolher entre a sua aliança explícita com o governo Sérgio Cabral – disfarçada em decisão editorial de valorizar os assuntos fluminenses em detrimento dos nacionais e exemplificada na questão dos royalties do petróleo – e aquela, mais antiga, com os interesses norte-americanos, O Globo finalmente decidiu entrar de cabeça no caso do desastre ecológico provocado pela Chevron.

Mas como cultiva o hábito atávico de tentar enganar seus leitores, o jornal, claro, deu  uma desculpa esfarrapada para não ter feito uma cobertura decente antes – a de que estava chovendo na região nos dias em que houve o derramamento de óleo e, por isso, não pôde sobrevoar a área. Só que, nos primeiros dois dias do evento (9 e 10), o tempo estava limpo em todo o estado (no Rio, rolou até um calorzinho). O próprio cientista norte-americano ouvido, ontem, pelo jornal sobre o desastre diz que só 48 horas após o início do derramamento do óleo os satélites não puderam mais fazer fotos devido a problemas meteorológicos. É como dizia minha avó Sinhá: “a mentira tem pernas curtas”.

Pior que essa só o esforço canhestro, também na edição de ontem, de puxar a Petrobras para o meio do problema, lembrando que a companhia tem 30% na sociedade que explora o campo. Se isso não é assédio moral jornalístico, não sei mais o que é.

Três rapidinhas

Três rápidas para o feriado com tempo feio:

1. O George Vidor já tinha cantado a pedra em sua coluna de ontem – a inflação parece estar seguindo as previsões do Banco Central, ao contrário do que vaticinaram os analistas de sempre, ouvidos pelos coleguinhas de sempre, há alguns meses. Vidor não acredita que os analistas vão pedir desculpas ao presidente do BC, Alexandre Tombini. E nem, acrescento eu, serão cobrados para fazê-lo pelos coleguinhas.

2. Depois de cinco dias, e após a mancha de óleo se espalhar por mais de 160 km², finalmente os jornais, ainda que timidamente, começam a dar espaço ao acidente com a plataforma da Chevron, na Bacia de Campos. Agora, imagina se fosse a Petrobras? No primeiro dia, tinha até helicóptero filmando de cima e rios de tinta gastos em lembrar os outros problemas que a estatal já causou ao meio ambiente. Mas como é empresa privada e, ainda por cima, norte-americana…

3. Por falar nesse acidente, é  ensurdecedor o silêncio do Ministério Público, das ONGs e dos “artistas engajados”, sempre tão prontos a atacar os danos ambientais causados por hidrelétricas, por exemplo.