Ninja 1 x 0 Folha e o fim do jornalismo. Ou não.

Vou dar uma paradinha nas análises dos dados do IVC sobre a circulação de jornais e revistas (falta só a IstoÉ) para falar rapidamente de dois eventos que, a meu ver estão relacionados: o enésimo passaralho na Folha e o engajamento da página da Mídia Ninja no facebook superando o do jornal dos Frias, do Estado, do Globo e da Veja somados. Como em geral ocorre nos pós-passaralhos, houve choro, ranger de dentes e vaticínios mais ou menos apocalípticos sobre o fim do jornalismo. Discordo. O jornalismo não vai acabar. O que está indo para o espaço não é ele, mas o modelo de negócios em que as empresas jornalísticas se baseavam.

Abaixo vai uma lista de links para os textos (e imagens) que baseiam a minha afirmação (desculpe, mas você vai ter um trabalhinho também…):

“Como o Facebook engoliu o jornalismo” – É parte da palestra ministrada pela fantástica Emily Bell, diretora do Tow Centre for Digital Journalism da Columbia Graduate School of Journalism, no Centre for Research in the Arts, Social Sciences and Humanities da Universidade de Cambridge, onde é professora convidada no período 2015-2016. O texto foi escrito antes de Mark ter mudado de ideia e meio que colocado de lado o projeto de ser o canal de distribuição dos veículos, muito provavelmente por ter visto que não precisa mais deles.

“O jornalismo nunca foi um produto comercial” – E por que Mark pode acreditar que não precisa mais dos veículos? A resposta está nesta entrevista de Robert G. Picard, do Reuters Institute, da Universidade de Oxford, que, como eu, crê que o jornalismo pode sobreviver às empresas que editam jornais, desde que os jornalistas façam o seu trabalho direito (o que, no Brasil, vamos convir, não acontece há anos).

“Todos querem seus dados! O WhatsApp não me deixa mentir” – Neste link vem o aprofundamento do que Picard menciona acima – que os anunciantes podem chegar melhor ao público sem precisar pagar às editoras por isso – e fará com que o valor do trabalho do jornalista caia cada vez mais se os profissionais insistirem em viver num mundo que entrou em colapso (aliás, o veículo em que esta matéria foi publicada é um exemplo de um caminho pelo qual o jornalismo e os jornalistas podem enveredar para sobreviver).

“Quem escolhe o que você lê?” – O mundo novo, porém, traz perigos ainda maiores do que o antigo, conforme explica este vídeo, parte de uma série sobre os riscos que corre a internet (em um veículo que aponta outra vertente para o futuro do par jornalismo/jornalistas).

“Dear Mark. I am writing this to inform you that I shall not comply with your requirement to remove this picture” – Quer um exemplo do perigo mencionado no vídeo? Pois tome este, recentíssimo, da semana passada, que aconteceu na Noruega e não acabou por aí – seguiu com uma recomendação de que, para evitar este tipo de problemas, o Facebook…contratasse jornalistas! Só que Mark não acha uma boa ideia – aliás, pensa exatamente o oposto.

 

Banda de patos

Não sou um grande especialista em telecomunicações como os coleguinhas Samuel Possebon, Miriam Aquino, Lia Ribeiro Dias, Luís Osvaldo Grossmann, Fernando Lauterjung ou Lúcia Berbert, mas acompanho a área, com mais ou menos afinco dependendo da época, desde fins dos anos 90 quando vi que o mestre Nilson Lage estava certo (para variar) e a comunicação (jornalismo dentro) ia ser muito influenciada – em alguns casos, guiada – pela área técnica. Por isso, depois de ler os craques acima citados e pesquisar em outras fontes, vou dar pitaco nesta questão do limite de banda internet fixa para tentar esclarecer outros pobres mortais que, como eu, não entendem tanto assim da questão.

Como se sabe, as empresas de telecomunicações que dominam 95% do mercado decidiram estabelecer a limitação de uso da banda larga nas linhas fixas – a Vivo foi a última, no dia 10, enquanto a Oi e a NET já previam esta limitação em contrato há tempos, mas juram que jamais a puseram em prática. Houve uma revolta geral, todo mundo se meteu – até a um tanto desmoralizada OAB – especialmente depois que o presidente da Anatel, João Rezende, disse que a época da internet ilimitada acabou .

A questão que está por trás desse movimento é a explosão do consumo de vídeo por meio da internet. Segundo estudo da Cisco divulgado ano passado,  80% do tráfego da internet em 2019 será de vídeo. Desse total, 66% do consumo será endereçado a dispositivos móveis (cuja banda já é limitada desde os primórdios). Este crescimento exponencial do vídeo vem dos “millenials”, que praticamente abandonaram a TV e passaram a divertir-se e informar-se por meio do You Tube  e de OTTs como Netflix, Hulu e HBO GO (sem contar que ouvem música também em streaming com Sportify, Deezer, Rdio etc, e trocam mensagens e mandam mensagens de texto, voz e vídeo por zapzap, Messenger, Telegram…).

Este é um movimento mundial, mas aqui no Brasil apresenta duas particularidades, que, juntas, deixam o consumidor brasileiro em palpos de aranha (antiga essa, hein?). A primeira, já apontei acima: há um oligopólio no fornecimento de banda larga fixa. A Anatel, como agência reguladora, em teoria, deveria ter impedido isso – SQN, pelo motivo óbvio de que os seus dirigentes foram ou serão empregados quando deixarem a autarquia, no mínimo como consultores, pelas empresas que devem controlar. Dessa forma, o que Oi, NET e Vivo disserem que é em termos de banda larga fixa é o que provavelmente vai ser.

A segunda é que os três grupos que dominam a infraestrutura de banda larga fixa são também dominantes na prestação de serviço de TV por assinatura, com 68,4% do mercado , no total. Assim, elas são concorrentes de You Tube e Netflix (e também serão da HBO GO, que está para chegar aqui) e, obviamente, têm todo o interesse em prejudicar seus concorrentes, que usam banda, ganham uma fortuna e, segundo as operadoras, não têm as mesmas obrigações tributárias que elas  – incluindo o Condecine, que a Ancine (a agência que regula a área audiovisual) está demorando éons para regular em relação às OTTs de vídeo (leia-se Netflix).

Diante desse quadro, as operadoras resolveram partir para a ignorância em cima de nós, a fim de pressionar o governo a tributar as OTTs (as que podem fazer chamadas de voz, tipo zapzap, estão dentro disso) e pressionar estas a pagar um pedágio maior do que nós, seres humanos, a fim trafegar seus pacotes de dados em seus cabos sob o argumento de que usam mais “espaço” (banda) do que nós.

E, no caso do governo, deu certo parcialmente. O governo diz que vai defender o distinto público ao exigir um “compromisso público” das teles de manterem a banda larga fixa ilimitada. Bacana, né? SQN de novo. Se você não entendeu o que Luís Osvaldo Grossmann explica, vou tentar esclarecer.

Digamos que hoje você paga R$ 200 por seu plano. Com a ideia do governo, as teles podem criar planos inferiores, com franquia, custando menos. Aí, vai acontecer uma dessas três coisas:

1. Aos poucos, que nem sapo sendo cozido em água aquecida devagarzinho, você, ao longo do tempo, pagará mais e mais para manter o seu padrão de consumo de internet e ficar vendo conteúdos pelos serviços de streaming (Netflix, HBO GO, You Tube) e mandando mensagens por zapzap, Messenger etc. Resultado: as teles ganham e você perde.

2. Você deixa de assistir conteúdos de vídeo via streaming e volta para TV por assinatura (a queda de consumidores destas é fato notório e constante há meses). Resultado: as teles ganham e você perde.

3. Serão oferecidos planos com “uso gratuito” de aplicativos, como já se faz na telefonia móvel, pois as OTT integrantes do plano pagarão por você. Resultado: a teles ganham e você perde por ter suas poder de escolha limitado.

De todas as formas, de uma maneira ou de outra, o Marco Civil da Internet, um dos melhores marcos legais de internet do mundo e que levou anos para ser construído por toda a sociedade, iria para as cucuias, especialmente seus artigos 2 (incisos III e V) e 7 .

Abre parênteses. Há uma quarta possibilidade, que pode vir em paralelo às de acima: as OTTs passam a recolher os mesmos tributos das TVs por assinatura e são obrigadas a pagar um pedágio maior para trafegar nos cabos. As OTTs precisarão repassar esse custo, claro. Resultado…Ah, você sabe. Fecha parênteses.

Agora, diante do exposto, você já viu quem vai “pagar o pato”, como diz aquela federação patronal golpista, dessa situação toda, certo?

#aGlobodeveserdestruida

Em breve, numa telinha (bem) perto de você

“O futuro não é mais o que era antigamente”. O verso de Renato Russo em “Índios” me veio à cabeça enquanto lia o relatório “TV and Media 2015” do ConsumerLab, o braço de pesquisa da Ericsson, existente há 20 anos e que, nos últimos seis, tem divulgado o estudo, no qual analisa as tendências de curto e médio prazos para a televisão. O estudo é uma sequência de notícias ruins sobre o porvir da chamada “linear TV”, ou seja, essa que gente com minha idade – e até uns 10 mais jovem – cresceu assistindo, e também a TV por assinatura.

Para não assustar muito, vou começar com as notícias boas. De acordo com o relatório do ConsumerLab, a TV linear continua sendo fundamental em boa parte dos lares dos 40 países e 15 megacidades abrangidos pelo estudo. Esse fato ocorre pela capacidade do meio de prover acesso barato a conteúdos “premium” e ao vivo, especialmente esportes, e pelo valor social, por unir as pessoas numa experiência comum (tipo comentar a novela, discutir se houve ou não roubo no gol com a mão validado por aquele ladrão etc).

Hããã…Bem, as notícias boas acabaram. Agora, vamos às más, que, de tantas, vou dividir em tópicos (e serão resumidas porque tenho mais coisas a tratar no tema – há um link para quem quiser aprofundar-se no estudo lá embaixo):

• TV linear é coisa de idoso. Oitenta e dois por cento de quem tem acima de 60 anos vê seus programas diariamente, contra 60% dos chamados “millennials”, como o estudo chama quem nasceu de 1981 até 2000 (ou seja, tem entre 16 e 34 anos).

• Dessa galera, a maioria (53%) prefere ver vídeos em telas de aparelhos móveis (notebooks, tablets e smartphones).

• Mas não só eles – de 2012 para cá, houve um incremento de 71% naqueles que veem vídeos em smartphones, quando se engloba todas as idades. Por isso, a média de horas que dispendidas assistindo vídeos em aparelhos móveis (não apenas smarts) subiu 3 horas de três anos para cá.

• Mais de 50% dos entrevistados (cerca de 100 mil, representando 1,1 bilhão de pessoas) afirmaram que assistem video on-demand pelo menos uma vez ao dia, contra 30% em 2010.

• O motivo básico (e essa é um chute no saco, desculpe o termo, na TV) é que 50% dos que assistem TV linear não encontram nada que lhes agrade para ver pelo menos uma vez ao dia – percentual que sobre 62% entre aqueles com idade entre 25 e 34 anos.

•Assim, as pessoas estimam que gastam cerca de 6 horas por semana vendo séries, filmes e programas sob demanda, contra 2,9 horas em 2011.

•Um hábito que vem crescendo incrementa essa tendência – é o “binge view”, ou seja, assistir vários capítulos de um conteúdo (quando não ele todo) direto. É um hábito dominante entre quem assina serviços de vídeo sob demanda (S-VOD), tipo Netflix (87% o fazem ao menos uma vez por semana), mas também tremendamente significativo entre quem não assina, tipo quem acessa vídeos via You Tube, Vimeo ou pirateia mesmo (74%).

• Por falar no You Tube, ele é o principal incentivador de outra linha de ataque à TV linear. Quarenta e um por cento dos consumidores de vídeo veem UGCs por meio dele ao menos uma vez ao dia, 75% ao menos uma vez por semana (27% e 59%, respectivamente, em 2011). O que é UGC? É “User Generated Content” (Conteúdo Gerado por Usuário). Ainda não ligou o nome à pessoa? São aqueles vídeos que ensinam de um tudo (de dar nó em gravata a consertar motos) e também conteúdos como este ou este outro (cuja autora é uma ex-estagiária hipertímida que, há mais ou menos um ano, tive que chamar às falas para ela cumprir a obrigação de ser repórter em pelo menos dois vídeos para a TV interna da empresa).

• E um consumidor em cada três (crescimento de 9% em um ano) acha que é importante ter acesso aos UGCs direto naquela tela grande que está na sala.

• Aliás, essa tela está cada vez mais conectada à internet – sejam smart TVs puras ou TVs comuns ligadas por meio de aparelhos como Apple TV ou Chromecast . Segundo o relatório do ConsumeLab , 64% dos que não assinam S-VODs (ou seja, na prática vê apenas You Tube, Dailymotion, Vimeo e outros) já tem uma em casa; entre os assinantes, o percentual chega a 86%.

Chega, né? Não, não chega. Tem mais nesse mês de setembro de notícias miseráveis para a TV linear. Vou dividir de novo:

1. Mentions: O Facebook liberou para jornalistas, experts e outros influencers o seu app Mentions, que permite a emissão de vídeo em tempo real (“streaming”) para dentro da plataforma. O app já estava ao alcance de algumas celebridades selecionadas, assim como serão selecionados (não se sabe sob quais critérios) os novos usuários. Essa seleção vip não deve durar muito tempo até porque, no mesmo dia (se você acredita que foi coincidência, você acredita em tudo), o Twitter lançou mais uma versão do seu Periscope, que faz exatamente mesma coisa, só que por lá e é aberto para todo mundo.

Assim, agora os coleguinhas poderão carregar sua própria emissora no bolso – ok, não é “broadcast”, mas já vai dar para alcançar uma audiência global de 1,5 bilhão – cerca de 70 milhões no Brasil (Facebook) – ou 300 milhões (twitter mundo, no Brasil, a rede não diz quantos usuários tem). Vamos combinar que não é nada mau.

2. Apple TV: Como tudo que é ruim sempre pode piorar, como dizia Vó Sinhá, piorou para a TV linear. No evento anual da empresa de Cupertino, como sempre todas as atenções estavam voltadas para as novidades dos iphones e, dessa forma, as mudanças na Apple TV não foram muito comentadas. Uma delas, no entanto, pode detonar de vez a TV linear se for seguida: a “appização” da nossa relação com o conteúdo de vídeo (é a terceira da lista) – e, na boa, por que esse modelo não se tornaria dominante? Como lembra o texto, está funcionando com a música (há dois meses, me disseram que seria legal pagar R$ 15,00/mês para ter acesso à versão premium de um app de “streaming” de música. Achei absurdo – porque eu iria querer um negócio desses se já tinha 5 mil (mesmo) músicas ao alcance das mãos? Pois este texto está sendo escrito ao som de música provida pelo Spotify ).

“E os caras da TV linear estão olhando tudo isso parados, sem reação, que nem jacaré na frente da lanterna?”, perguntará você. Bem, mais ou menos. Lá fora, o debate sobre o fim dos intermediários na relação consumidor-produtor de conteúdo (é disso de que estamos falando agora) começou (e aqui, um comentário sobre o ponto 2 acima). Já aqui, no Bananão, não tenho certeza. Pela experiência que temos com a mídia impressa, é muito provável que não. Mas essa dúvida, nós vamos tirar em breve, muito breve.

Ah, sim! O link para a apresentação do estudo do ConsumerLab que prometi.

Dividida dura

Já falei aqui da compra da Esporte Interativo pela Turner e da briga envolvendo as duas e a Abert, representante do oligopólio que domina a TV do país há décadas, já começou a causar. Durante o descanso momescco, porém, me toquei que não tinha explicado a questão direito, deixando-a no ar. Vou tentar fazê-lo aqui e começo lá de trás.

Além do apoio financeiro (ilegal, aqui), os americanos trouxeram para a Globo, em seu início, há 50 anos, o conceito de “prime time”. Basicamente, é o bloco de programação que se estende das 19h às 23h, no qual os valores dos anúncios são os mais altos, já que as ví… quer dizer…os telespectadores estão lá, quietinhos e relaxados, na mesa do jantar, prontos para comprarem qualquer coisa, de sabão em pó a carros, passando por notícias com enfoque enviesado.

No Brasil , o chamado “horário nobre” é aquele, mas com muita concentração na primeira parte do período, ou seja, das 19h às 21h (se quiser ver como é em outros lugares, a wikipedia dá uma mão). A Globo montou essa grade colocando o esquema novela-telejornal-novela, que começou efetivamente no dia 1º de setembro de 1969, data da primeira exibição do Jornal Nacional (sim, eu vi e adorei a música de abertura, uma parte de Summer ’68, do Pink Floyd – mas essa que aparece no youtube já é a segunda abertura, depois que o Banco Nacional passou a ser o patrocinador exclusivo).

Funcionou que foi uma beleza e permanece desde então – com uma ou outra mudança, tipo “estica-e-puxa” do horário -, apesar de já não ter o mesmo sucesso, pois, a queda de audiência das novelas (primeiro) e do telejornalismo global (de uns 10 anos para cá) é público e notório, levando junto a audiência geral da emissora (aqui).

Com essa queda, a cobertura do futebol passou a ser estratégica para a Rede Globo, pois, apesar de também ter sido atingido pela queda geral de audiência, o produto futebol tem demonstrando uma resiliência maior à débâcle. O “esporte das multidões” entrou como terceiro pilar da audiência da Globo nos anos 90, depois que, em 1987, a emissora, junto com dirigentes dos maiores clubes do país, criar o Clube dos 13, visando forçar a CBF a mudar a organização do Brasileirão e fazer com que este ficasse nas mãos dos Marinho.

Já entendeu qual o problema, certo? Entendeu o geral, pois tem um pouco mais – e importante. Em 2011, o Cade, após mais de 10 anos de deliberações, decidiu que o contrato de exclusividade entre a Globo e o Clube dos 13 era ilegal por ferir a concorrência, e determinou que houvesse uma licitação aberta a todas as emissoras interessadas (depois você ainda se pergunta porque os Marinho odeiam os últimos governos do país…).

A Record entrou na disputa e corria o risco de ganhar, por ter obtido o apoio de alguns clubes. Daí, a Globo, com a inestimável ajuda de Ricardo Teixeira e sua CBF, pressionou os clubes, especialmente o Corinthians e o Inomi…quer dizer, o Flamengo, a assinarem por fora. Com eles, muito a contragosto, foram os outros ( exemplos aqui) e o Clube dos 13 implodiu porque Corinthians e Flamengo ficaram com uma parte muito maior parte do bolo.

Como você deve ter lido nos dois últimos links, os contratos terminam este ano, só que não –eles foram renovados para o período 2016-2019 (aqui, com os valores novos e antigos). Os novos acordos alargaram ainda mais a distância entre Corinthians e Flamengo e os outros (aumentando o temor da “espanholização” do futebol brasileiro, mas isso é outra discussão).

A questão é que é três anos passam rápido e agora há um garoto grande, forte e com cara de mau na vizinhança, de nome Turner. Ele comprou um brinquedo novo chamado Esporte Interativo, que possui contrato de aluguel de uma geradora (TV Eldorado, do grupo Estado de São Paulo), a qual transmite para 22 cidades incluindo São Paulo capital e algumas cidades importantes do estado (como Campinas e Santos), onde não só está o maior mercado publicitário do país, como é a sede de um daqueles dois clubes que mais recebem da TV Globo (a lista completa de cidades que recebe o sinal do EI está aqui – note o número de capitais e o fato de atingir o país todo via parabólica, sem contar que a presença na grade da Netflix não está na lista).

Assim, pode apostar que, já no ano que vem, os outros clubes – e, talvez, até Flamengo e Corinthians – comecem a reclamar do que andam recebendo (aliás, já começou…). A Globo está pagando R$ 1,6 bilhão (cerca de US$ 550 milhões ou 500 milhões de euros) para todo mundo – é uma boa grana, mas, como se pode ver aqui, fica apenas na sexta colocação entre as grandes ligas de futebol do mundo (podendo ser a sétima, já que a liga turca renovou este ano). O Turner está acostumado a brincar com um pessoal mais taludo, que disputa direitos pela NBA, NFL, MLB e Superbowl – assim oferecer R$ 2,5 bilhões que seja por três anos (pouco menos de US$ 900 milhões ou cerca de US$ 300 milhões por ano) não é algo capaz de assustá-lo.

Há ainda o fato de que, pela beiradas, o EI já vinha comendo o mingau –  obteve a valiosa Liga dos Campeões para TV fechada e internet (aqui) e alguns estaduais de estados pobres (aqui uma lista de quem tem direitos sobre que campeonatos, antes da compra da Liga dos Campeões pela EI), e até promovendo campeonatos interestaduais com sucesso (Copa Nordeste e Copa Verde). Nesse caso, o Turner poderia, se ficasse realmente irritado, unir a Copa do Nordeste à Copa Verde (que reúne clubes do Centro-Oeste e do Norte) e partir para ampliá-la para todo o país, pegando os clubes que estão ganhando muito menos que a dupla gambá-urubu, formando uma liga nacional estilo Premier League inglesa, La Liga espanhola ou Liga Sagres, de Portugal.

Por isso, a Abert, que tradicionalmente é pau-mandado da Globo, deverá partir para um briga encarniçada para barrar a entrada da Turner na TV aberta, via EI e TV Eldorado. No fim, a decisão vai ficar com o Ministério das Comunicações (leia-se Ricardo Berzoini), e, muito provavelmente, com o STF.

Vai ser realmente divertido de ver…

Organizando as coisas

Como o Facebook não lançou ainda o Paper no Brasil – e o Flipboard, vamos encarar os fatos, ninguém leva muito a sério, infelizmente -, vou tentar dar uma organizada na bagunça que se tornaram as encarnações da Coleguinhas aqui no WP e as duas no FB (incluindo meu perfil), de modo que quem me dá a honra de acompanhar as bobagens que escrevo tenha uma visão consolidada dos assuntos que mais têm sido abordados aqui e lá:

1. Série sobre Regulação da mídia

‘Regulamentar mídia pode ser bom para liberdade de expressão’, diz enviado da ONU 

Como funciona a regulação de mídia em outros países?

Como a mídia é regulada na Suécia

2. Série “O melhor do jornalismo brasileiro é feito na Europa”

Entrevista com Jose “Pepe” Mujica

‘Maior desafio é combater preconceito contra o pobre’, diz ministra do Bolsa Família

Por que o ‘New York Times’ quer fim do embargo a Cuba?

“É incrível o que Cuba pode fazer”, diz OMS sobre ajuda contra ebola

Fortuna de super-ricos é ‘incontrolável’, diz pesquisador

Série da BBC sobre o Brasil é reconhecida em premiação internacional

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/11/141106_soccer_cities_aib_rp

‘Brasil precisa taxar ricos para investir no ensino público’, diz Piketty

3. Série “Matérias que você não vê nos veículos de comunicação brasileiros”

Número de negros em universidades brasileiras cresceu 230% na última década; veja outros dados

Brasil aumenta em 29% o número de pessoas tratadas pelo SUS com medicamentos para aids

Brasil e mais 12 países são reconhecidos pela FAO por combate à fome

“Porque eu sou negro”

4. Série do Diário do Centro do Mundo sobre a sonegação da Rede Globo (crowdfunding de que participo):

Como o processo de sonegação da Globo sumiu da Receita e sobreviveu no submundo do crime

EXCLUSIVO: a história da funcionária da Receita que sumiu com o processo de sonegação da Globo

5. Série sobre Jornalismo e Telecomunicações

Radiodifusores x Governo: a hora da volta

Telecomunicações e o jornalismo que bate à porta

 “Ó meu Deus, mais telecomunicações?!”

6. Série “De volta a 64”

Nova direita surgiu após junho, diz filósofo

Brasil vive ressaca eleitoral e não polarização política, avaliam especialistas

7. Série “A vida cruel das redações”

Folha demite Eliane Cantanhêde

Carta enviada por jornalistas do UOL à direção do portal UOL

 

“Ó meu Deus, mais telecomunicações?!”

É, mais uma coluna falando desse assunto chato, mas fundamental. Recomeço de onde parei na semana passada (se não lembra, abaixe a tela ou clique aí do lado).

O governo está a fim de acelerar o processo de avanço das telecomunicações no país, o que, como vimos semana passada, tem o potencial de mudar o tipo de jornalismo que é (mal) praticado aqui no Bananão. O veículo para atingir esse objetivo é o Plano Nacional de Banda Larga 2.0, mais conhecido, desde a campanha presidencial, como Banda Larga Para Todos.

O nome é muito marqueteiro, mesmo para os padrões do governo. Diferentemente da energia elétrica, a qual realmente pode atingir 99% da população (100% se forem usados meios alternativos como energia solar), a Banda Larga baseada em fibra ótica (FFTx no jargão, para saber mais clique aqui e é bom que você o faça) não vai chegar a todo mundo. Para um país enorme como o nosso, se chegar a 80% é para ser premiado pela ONU. O próprio ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, já disse (depois da campanha, et pour cause) que a meta para os quatro anos de governo dilmal é chegar a 45% dos domicílios no país.

O custo? Uma cacetada. Pelos cálculos do Minicom, a conta para atingir esses 45% na chamada “última milha” é de R$ 40 bilhões. Obviamente, o governo não terá bala para tanto. Daí, a presença da iniciativa privada é fundamental. A ideia do governo é licitar o projeto por meio de leilões reversos – neles, ganha quem botar mais dinheiro no negócio, necessitando, pois, menos do dinheiro público. Muito bom, claro, mas vai ter que combinar bem com os “russos”, pois as empresas de telecom são meio cabreiras com o Executivo federal, que, para elas, sempre acaba cedendo muito para os radiodifusores nos arranca-rabos entre as duas indústria (sem contar a mania de mudar regra com o jogo começado).

A grana é monstra, sem dúvida, mas poderia ser maior. É que a fibra ótica não precisa chegar até a residência (FTTH) ou prédio (FTTB) (eu disse que era você para ter clicado no link do terceiro parágrafo… ) Ela pode chegar apenas na Estação Rádio-Base (ERB, a antena que a gente vê por aí) de 4G e esta distribuiria o sinal com velocidade de banda larga (em teoria, a 4G pode chegar de 100 Mbps no dowstream – para efeito de comparação, a 3G chega a meros 384 kbps). Segundo o previsto pelas normas das concessões de 4G, as telecoms devem levar essa tecnologia a todos os municípios com mais de 30 mil habitantes até o fim do ano que vem (usando a faixa de 2,5GHz), o que viabilizaria boa parte do objetivo governamental

Para que esse sistema de alta velocidade tenha suporte, haverá necessidade de, paralelamente, ser construída as estruturas de backhaul , que hoje só chegam a 47% dos municípios, percentual que, o Minicom acredita, pode chegar a 90% em quatro anos. A melhor imagem para entender o que é backhaul é o dos nervos que saem da espinha dorsal (backbone) levando e trazendo os impulsos ao resto do corpo. Assim, quando você liga o seu celular (os dedos na imagem do corpo), o sinal é captado pela ERB (os nervos periféricos), que o levam para backhaul (os nervos principais) e este para o backbone, que, por sua vez, encaminha o sinal para o outro ponto, onde o processo é invertido. Assim, quanto mais capilarizado (e capacitado em termos de velocidade) for o backhaul, melhor (ou seja, mais veloz e estável) será a comunicação. O custo para atingir 90% dos municípios, calcula do Minicom, é de R$ 10 bilhões, o que elevaria o custo de todo esse projeto a algo em torno de R$ 50 bi.

Bem, se esses planos do governo Dilma forem concretizados, além de abrirem oportunidades de ouro para a melhoria de educação (via EAD) e saúde (telemedicina), têm tudo para mudar a maneira como se faz comunicação no país, incluindo aí o jornalismo. Mas isso já expliquei semana passada.

Telecomunicações e o jornalismo que bate à porta

A Ericsson publica, a cada quatro meses, um relatório sobre o estado em que se encontram as telecomunicações móveis em todo o mundo. Acho-o muito legal, mas admito que a maioria das pessoas não concorde comigo, pois, da maior parte dos ângulos que se olha, é um tanto chato com aquele monte de números, tabelas e gráficos (coloridos, mas ainda assim…). Por isso, não pediria para ninguém ler se não achasse importante (pelo menos para quem se preocupa com coisas de somenos como o futuro do jornalismo).

O motivo de achar importante que você dê uma olhada no relatório da empresa sueca é a análise do bravo Alan D. Mutter. No artigo, o “newsosaur” avisa que, nos EUA, cerca de metade dos acessos às notícias já acontece por meio de aparelhos móveis (smartphones e tablets) e que o jornalismo feito para este tipo de dispositivo é, necessariamente, diferente do que é realizado hoje até mesmo para sites.

O primeiro argumento do pessoal mais antigo quando se depara com dados e análises desse tipo é que essa situação levará muito tempo para chegar aqui, no Bananão e, portanto, não há motivos para preocupações por enquanto. É aqui que entra o relatório da Ericsson. Ele mostra que a América Latina terá cerca de 600 milhões de smartphones em 2020, ou 65% do total – um crescimento de 30 pontos percentuais (hoje, os “telefones espertos” são 35% do total), sendo que Brasil e México responderão por 50% desses aparelhos. Em termos de assinaturas, a tecnologia dominante será a WCDMA/HSPA+ (em linguagem de gente e de marketing, 3G e 3G+), com 65% (40% hoje) ficando a LTE (4G) com 30%. Já a cobertura chegará a 90% para 3G e 65% para 4G.

Por que isso é importante? Porque a maior parte do tráfego será composta por imagens, principalmente vídeo, como mostra o relatório da Ericsson. E isso influencia o modo de fazer jornalismo, como diz Alan, porque os usuários de dispositivos móveis não têm disposição para ler longos textos escritos, exigindo gráficos, fixos e com movimento, e vídeos para facilitar o entendimento do contexto, de maneira, ao mesmo tempo, mais profunda e rápida. O “newsosaur” acredita que jornais e revistas estão reagindo lentamente a essa nova ecologia informacional – e se ele acha isso lá, imagine a opinião dele se conhecesse o panorama daqui.
No momento, paro por aqui, mas quando voltar ao assunto, falarei sobre as iniciativas do governo para acelerar esse processo. Por enquanto, fica a lista de leitura:
1. Relatório da Ericsson (e um sumário da parte referente à América Latina dos coleguinhas das publicações especializadas da editora Glasberg).
2. Artigo de Alan D. Mutter.