“É a reforma política, estúpido!”

Pronto, começou. Lá vem o tema corrupção. Ele é o maior esterilizador do debate político no país nos últimos 60 anos, desde que Carlos Lacerda o usou para tentar derrubar Getúlio Vargas, nos anos 50, tendo atingido seu grande momento com o Golpe de 64. É ele aparecer e tudo o mais é jogado para escanteio.

Atenção, ponto importante. Vai ter até um parágrafo só pra ele, no qual vou tentar ser claro. Preparado? Aí vai:

Eu também sou contra corrupção e acho que ela deve ser combatida por todos, a todo o momento, em qualquer circunstância, em todos os lugares – dos Três Poderes até a fila do cinema e seus furadores.

Fui bem claro, né? Então vamos em frente.

Todo mundo quer combater a corrupção. Só que não é endurecendo a legislação que se vencerá esse combate – embora não haja problema algum em se ter penas duras contra corrupto -, mas por meio da construção de canais políticos que permitam a fiscalização próxima e constante dos órgãos de representação política – Presidência, Governadorias, Prefeituras, Congresso, assembleias, câmaras dos vereadores – e das agências governamentais (ministérios, secretarias,agências reguladoras, empresas estatais).

Assim, o fundamental, de uma importância cósmica, é a reforma política. Mas como chegar a ela? Dilmão propôs um plebiscito para permitir a instalação de uma Constituição exclusiva para tratar do tema. O bom da proposta é que ela permitiria um debate político amplo, aumentando a amplitude da consciência política da população, que , como se viu nas atuais manifestações, é baixa, mas com excelentes perspectivas de crescimento, se for bem cevada. É essa possibilidade de politização em massa  que tanto apavora conservadores e reacionários como Miguel Reale Jr. Marco Aurélio Mello, Merval Pereira e políticos da oposição, que saíram a campo para bombardear a proposta presidencial.

O problema da Constituinte restrita é que ela pode ser ampliada, ser a brecha há tanto tempo esperada por estes mesmos conservadores para derrubar conquistas da sociedade brasileira, como, só para ficar num exemplo da moda, a independência do Ministério Público. É bom lembrar que essas conquistas foram obtidas com extrema dificuldade durante os embates de 87 e 88 com o Centrão, cujas lideranças continuam firmes e fortes no Congresso (é só lembrar do então líder da União Democrática Ruralista e hoje dirigente do DEM, Ronaldo Caiado).

Para contornar esse perigo – e ainda acelerar o processo, que seria um tanto lento via plebiscito – por que Dilmão não baixa uma MP fazendo a reforma com base no projeto de iniciativa popular lançado pela OAB e pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCEE)? ( Leia aqui a íntegra do projeto). Claro que teria que conversar com esses dois atores, mas, creio, eles não se furtarão a dar essa contribuição à democracia brasileira (aliás, podiam até oferecê-lo à presidente). Outro ponto em favor dessa opção é que os conservadores e reacionários não poderão reclamar – afinal, as MPs existem para dar celeridade a decisões sobre temas urgentes e relevantes e não há nada mais urgente e relevante, hoje, do que a reforma política, correto?

De qualquer maneira, seja de que forma for, o essencial é que a reforma política que permita uma participação popular na definição dos destinos do país aconteça agora. Por que se os conservadores e reacionários a impedirem, dificilmente teremos um dia Saúde, Educação e Transporte Público decentes – fora o resto que faz uma nação civilizada.

Megapizza com novos temperos

Essa pizza que está sendo preparada no Congresso tem condimentos diferentes das anteriores. Dessa vez, há mancheias de oposição e boas pitadas de imprensa. Essa ainda vai dar uma ou outra estocada, como disfarce, mas não vai se arriscar muito. Afinal, há 200 gravações entre Carlinhos Cachoeira e Policarpo Jr. suspensas sobre a cabeça do Eixo Abril-Globo, qual espada de Dâmocles, para lembrar os coleguinhas de seus limites. Esses vão tentar, por todas as formas, desviar o assunto para o julgamento do mensalão e têm boas chances de conseguir.

Tergiversação global

O Globo, quem está discutindo que qualquer fonte é válida na busca de informações que levem à verdade? Isso é líquido e certo. O que está em pauta é o que o jornalista faz com as informações que tem em mãos.

Exemplificando, tomando por base a Itália, o país do tal especialista em liberdade de expressão citado na matéria de hoje, o que se está questionando é se é legítimo – vamos dizer – a revista La Stampa usar as informações passadas por um chefão da Camorra para ajudar a essa facção mafiosa a obter mais poder dentro do estado italiano. Pois foi isso que a Veja fez.

Aliás, em vez daquela hashtag #vejagolpista, creio que o mais correto seria #vejamafiosa. Explicaria melhor os objetivos da principal revista da Abril.

Veja, Cachoeira e a geleia geral

Excelente análise do tudojuntomisturado que virou a relação Veja e Carlinhos Cachoeira. Aqui.

A primeira concorrente ao KofK-2012

Em 27 de dezembro, encontrei  o coleguinha de redação num evento e ele mandou de prima:

– E aí? Quando começa a eleição do KofK? Quero votar!

– Calma, bicho! T em que esperar o fim do ano. Vocês estão tão danados esse ano que tenho que esperar até dia 31. Vai que vocês arrumam uma última cascata ao apagar as luzes! – respondi.

Não era realmente a sério.  Já estava com tudo na minha cabeça, até a decisão de pôr a cascata sobre Fernando Pimentel como a última cascata do ano que findava.

Mas não é que a galera ainda arrumou mesmo tempo para uma última em 2011?

O problema é que só a descobri já na primeira semana deste ano, ao ler alguns emails atrasados da caixa em que centralizo o recebimento de listas. No caso, a do Comunique-se (hoje mais conhecido como C-se, apelido que dei ao portal quando era colunista de lá, no seu início, por pura preguiça de escrever-lhe o nome todo). Lá descobri essas duas matérias (aqui  e aqui) e fiquei com um problema: a cascata era de 2011, o assunto também, mas só a descobri este ano. E aí? Era a última de 2011 ou a primeira de 2012?

Minha decisão soberana, como sumo-sacerdote e presidente do júri do King of the Kings, é que o silêncio dos veículos sobre o livro “Privataria Tucana” será a primeira concorrente de 2012. Os motivos são três:

1.Já estava correndo a eleição para o Kofk-2011, com as concorrente definidas. A entrada de uma última acabaria por prejudicar eleitores que quisessem votar nela.

2. Essa cascata levaria vantagem sobre as outras por ser um assunto muito quente e estar ainda em cima do fato.

3.A cascata continua, pois os veículos sem mantêm renitentes em falar do fenômeno editorial que é o livro de Amaury Ribeiro Jr (quatro reimpressões em dois meses e dificuldade enorme de se conseguir um exemplar – eu tive que camelar por quatro livrarias antes de conseguir um dos últimos da Travessa da Rio Branco, que recebera um carga de 20 livros apenas dois antes).

Ah! Antes que me esqueça, aqui está a versão de “A Queda – Os últimos dias de Hitler” para o assunto  –  como você  deve saber, o filme de Oliver Hirschbiegel virou veículo para gozações sobre os mais diversos temas  na Rede nos últimos anos e a tentativa da mídia brasileira de esconder “A privataria tucana” do público era um alvo por demais tentador para escapar incólume.

Parcial do king of the Kings-2011

Após uma semana de eleição, a cascata da “Livro com erros de português do MEC”, da TV Globo, lidera a disputa pelo King of the Kings de 2011, com 15% dos votos. Em seguida, um quádruplo empate, com 10%, entre “Honoris causa do Lula na França” (vários veículos), “Campanha anticorrupção” (também vários veículos), “Assassino de Realengo era terrorista” (Veja) e “Petrobras envolvida no Caso Chevron” (O Globo).

A votação segue até domingo à noite. Não deixe para última hora! Vote agora!

Depois, não vale chorar

Dentre os grandes desserviços prestados pelos veículos de comunicação à democracia e ao processo político brasileiros, um dos maiores é o desossamento da oposição. Com a ânsia de detonar o governo via destruição de ministros, os veículos acabam é por ajudá-lo a seguir, lampeiro, em frente.

Você tem visto esse sistema funcionar nos últimos meses. Primeiro, no fim de semana, uma revista ou um jornal denuncia – com ou sem provas, isso não importa – um ministro. No dia seguinte, um prócer da oposição exige que o ministro dê explicações no Congresso. O ministro, então, diz que não tem nada a esconder e que ficará no cargo. Segue-se algumas semanas de bombardeio – com matérias com ou sem fundamento, não importa – e o ministro cai. Entra outro e a imprensa segue para o próximo.

Bom e durante o processo o que aconteceu com o governo? Nada. Seguiu sua vida normalmente, assim como o resto do país. Os juros subiram ou desceram; a Dilma viajou ou não viajou; as obras do PAC continuaram ou pararam por conta de alguma greve…Tudo normal, como se nada estivesse acontecendo de importante. Vai ver é que porque nada de importante está mesmo acontecendo.

Na boa, a oposição nada diz sobre assuntos relevantes para o país. E oportunidades não faltaram:

1. A PM invadiu a USP atrás da rapaziada do vapor e um reitor de universidade federal foi pego com os dois braços enfiados até os cotovelos na cumbuca. Boas oportunidade para a oposição dizer quais os caminhos que o ensino público superior do país deveria seguir. Ouviu-se algo a respeito? Eu não.

2. Artistas da TV Globo atacam a opção do país pela geração hidrelétrica, defendendo as fontes alternativas, e são desmoralizados por grupos de jovens universitários. A oposição tem a dizer o quê sobre a matriz energética brasileira, hoje e no futuro?

3. O país vai crescer menos de 4% este ano. Ok, a mundo não está ajudando, especialmente os europeus, fazendo um monte de lambanças. Mas o que a oposição teria feito para o país crescer mais? Mais austeridade? Cortes? Onde? Os economistas da oposição ainda se reuniram no Rio, há umas três semanas, mas até agora nenhuma linha foi divulgada sobre as conclusões e, menos ainda, algo foi dito sobre o assunto pelos políticos, que, afinal, é que irão defender as teses dos doutores diante da plebe ignara.

Por aí vai…

Agora, os veículos de comunicação levantaram essas questões de fundo, obrigando os oposicionistas a oferecer sua contribuição ao país? Não. Preferiram ficar no bem-bom de manchetes sobre corrupção, que não levam a nada pelo simples fato de que, todo mundo sabe, não foi esse governo, nem o anterior, que trouxeram esse mal para o Brasil. Aí o governo vai lá, vence mais uma eleição em 2012, emboca a de 2014, e fica todo mundo reclamando que brasileiro não sabe votar, que é conivente com a corrupção e outros chororôs, que fariam corar de vergonha até o botafoguense mais empedernido.