O presidente Trump, o jornalismo e nós

Vou continuar devendo o restante da análise dos dados da pesquisa da FSB sobre o consumo de mídia dos deputados federais. Não resisto a dar meu pitaco sobre o cataclismo que foi a eleição de Donald Trump para o cargo de homem mais poderoso do mundo, fato amplamente considerado como o fim do mundo conforme o conhecemos. No caso, meu palpite se junta a um dos subtemas mais amplamente debatidos nestes dias – como a mídia fracassou ridiculamente ao prever a vitória de Hillary Clinton, num novo caso “Dewey derrota Truman”.

 

De novo...

De novo…

Sobrou pra todo mundo e pra todo lado. Margaret Sullivan, ex-“editora pública” (algo com mais peso do que um simples ombudsman) do NYT e hoje colunista do Washington Post, afirmou que os coleguinhas norte-americanos botaram na cabeça que o sujeito não podia ganhar e simplesmente decidiram olhar para o outro lado quando viam uma multidão ululante de seguidores de Trump na sua frente. Segundo ela, os bem-educados, urbanos e liberais (lá isso quer dizer de centro-esquerda), moradores de Nova York, Washington D.C. ou da Costa Leste, não quiseram ouvir o que lhes gritavam os habitantes pobres – e, na maioria, brancos – dos estados do Cinturão de Ferrugem (Rust Belt), aquele grupo de estados que acabou dando a vitória ao bilionário, apesar de ele ter tido menos votos do que a concorrente (vá entender por que eles mantêm um sistema eleitoral do Século XVIII…)

Jim Rutemberg, o analista de mídia (é, tem isso lá) do concorrente New York Times, vai pelo mesmo caminho e chega mais longe ao escrever que “se a mídia falhou em apresentar um cenário político baseado na realidade, então ela falhou na sua missão fundamental”. E aí Rutemberg toca no ponto em que eu queria tratar aqui (supernariz de cera, hein?) ao dizer que “política não são apenas números”. Esse é o problema básico. Nada que envolva seres humanos é.

Para entender meu ponto é realmente necessário que você siga este link, que leva a uma matéria do Nexo, uma jovem publicação da qual gosto tanto que sou assinante. Eu espero você ir lá, rolar a tela, dar uma boa olhada e voltar. Vai que é realmente importante.

“Mas que porra é essa?!”, foi o que perguntei ao meu zíper quando vi essa página pela primeira vez. Pois é. Eu, um cara que gosta de dados, fiquei chocado com uma série de oito chiquérrimos gráficos dos mais diversos tipos completamente desacompanhados de quaisquer tabelas ou explicações, a não ser as legendas que os apresentam. Se você não for um analista de dados do IBGE duvido muito que consiga ler este monte de gráficos e decodificá-los em algo inteligível em tempo menor do que os 10 minutos que levei para entender o que estava ali e notar que: a) se você ler os gráficos na ordem da tela, tem uma grande chance de chegar à conclusão oposta ao que eles realmente mostram – que a PEC do Teto atinge o lugar errado se a ideia é mesmo acabar com o déficit público; e b ) que ainda faltam dois grupos de dados (e respectivos gráficos) fundamentais para uma avaliação precisa da atual Emenda Constitucional 55 (ex-241) – o gasto do governo com o pagamento de juros e a relação desse dispêndio com o total de despesas.

E olha que estou falando do Nexo, uma publicação nova e que se baseia em dados, como Aos Fatos, Lupa, Gênero & Número etc. Não é da mídia corporativa, que essa não apenas ignora a população, como fez a americana na eleição de Trump, como, quando presta atenção nela, é para atacá-la, como tem acontecido, por exemplo, com as ocupações de escolas e universidade públicas pelos estudantes.

Partindo do pressuposto que esses veículos não querem fazer o mesmo da mídia corporativa – ou seja, viver mamando nas tetas do Estado por meio de publicidade e jogando no cassino do mercado financeiro, usando o jornalismo como fachada -, talvez o que tenha movido o editor do Nexo que simplesmente tacou um conjunto de dados na página para o leitor virar-se como pudesse tenha a ver com que Sullivan diagnosticou: os profissionais que trabalham nestes veículos têm quase nada a ver com o resto da população brasileira, pois há pouca diversidade social entre eles. Assim, por mais bem-intencionados que sejam, o jornalismo que produzem tem quase tão pouco a ver com a realidade como o praticado pela mídia corporativa e não vai ajudar a muda-la e/ou esclarecer o cidadão (se é isso que eles desejam, claro). Este é ponto bem exposto por Danah Boyd, da New York University.

Há ainda um outro ponto que joga contra o jornalismo que luta para emergir no Brasil e tem a ver com a mesma bolha em que vivem os jornalistas dos novos veículos: eles são pautados pelos que têm o poder. A falta daqueles dois dados (e gráficos) que citei acima mostra bem este fato – como o governo só fala de despesas primárias, parece não ter ocorrido ao pessoal do Nexo que juros também fazem parte das despesas. Outra demonstração é que os jornalistas que gostam de trabalhar com dados ficam procurando pegar os políticos na mentira. Como a eleição de Trump demonstrou, isso não tem quase nenhuma importância – ele mentia em mais de 90% dos casos e elevou a mentira a uma forma distorcida de arte.

Como resolver esses problemas? Não creio que haja uma resposta única e mágica, mas conversando com uma coleguinha, especialista em trabalhar com jornalistas que usam dados em suas matérias, chegamos a uma conclusão óbvia – os jornalistas precisam não apenas trabalhar com dados, mas fazer com que eles façam sentido com a realidade em volta – e uma outra não tão óbvia, a de que os setores mais organizados da sociedade civil devem eles mesmos aprender a lidar com dados a fim de produzir conteúdos que falem de suas realidades e/ou pautar os veículos da Nova Mídia.

Creio que sem essas duas vertentes trabalhando para convergir, dificilmente o jornalismo sobreviverá, aqui e alhures, como uma atividade relevante num mundo no qual ele já perdeu grande parte do poder de influenciar que possuía há apenas duas décadas para redes sociais as quais, vamos ser francos, não estão nem aí para saber se algo que é publicado em suas plataformas é verdade ou não.

Época vence segunda seletiva do King of the Kings-2016. Estadão dispara no Troféu Boimate.

A insinuação de um colunista de que o New York Times recebe dinheiro do PT para afirmar que o golpe no Brasil foi golpe levou a Época à vitória na segunda seletiva do Troféu King of the Kings, edição 2016. O KofK é o único prêmio aos indômitos coleguinhas que trabalham com determinação visando a total esculhambação do jornalismo no Brasil. O Troféu Boimate, que premia o veículo com o maior número de cascatas escolhidas para disputar o KofK, está sendo liderada com folga pela redação do Estado de São Paulo, com seis escolhas, bem à frente das segundas colocadas, a própria Época e a Rede Globo (é sempre bom lembrar que, nesta disputa, a Veja é “hours concours”).

Conheçam as cascatas classificadas para a final, que será disputada em janeiro de 2017 (as concorrentes não classificadas voltarão na terceira seletiva).

  1.  Colunista da Época insinua que New York Times recebe dinheiro do PT  (32 votos, 15%).
  2.  Estado de São Paulo acusa jornalistas estrangeiros de serem petistas (25/12%).
  3.  Veja glorifica primeira-dama golpista como “bela, recatada e do lar” (22/11%).
  4.  Estado de São Paulo denuncia banquete de Lula no restaurante da Tia Zélia (21/10%).
  5.  Estado de São Paulo faz denúncia contra Lula, mas o inocenta (18/9%).
  6.  Rede Globo e Agência Lupa acusam erro de dados sobre microcefalia do Ministério da Saúde e são desmentidas por ministro e blogueiro cientista (17/8%).
  7.  Época denuncia professor francês muçulmano como terrorista mesmo ele tendo sido inocentado na França (12/6%).

Total de votos: 207

Já a colocação no Troféu Boimate ficou assim:

  1. Estado de São Paulo – 6
  2. Rede Globo e Época – 2
  3. Istoé, Zero Hora e Agência Lupa – 1

 

Vamos à segunda seletiva do King of the Kings-2016!

Pensou que tinha acabado? Ainda não. Chegamos à segunda seletiva do King of the Kings, que incluirá mais sete concorrentes a maior cascata de 2016. O KofK é o único prêmio a reconhecer os esforços dos coleguinhas que labutam diariamente para esculhambar o jornalismo brasileiro e manter seus leitores, ouvintes e telespectadores desinformados.

Vamos às regras:

1. Você pode votar em até sete (7) concorrentes entre as 14 da lista.

2. Você ainda terá uma nova chance de votar nas sete não classificadas, pois voltarão para as outras seletivas.

3. A votação terminará na domingo, dia 10 de julho.

 

Agora, as concorrentes.

1. Época denuncia professor francês muçulmano como terrorista mesmo ele tendo sido inocentado na França.

2. Folha diz que Lula mandou nomear diretor da Petrobras, mas esquece que dizer que esquema na petroleira movimentara R$ 100 milhões durante governo FHC.

3. Veja acusa falsamente mulher de estar envolvida na Lava-Jato.

4. Colunista do Globo ataca Lula em twitter publicado pela manhã e só se retrata de madrugada.

5. Rede Globo e Agência Lupa acusam erro de dados sobre microcefalia do Ministério da Saúde e são desmentidas por ministro e blogueiro cientista.

6. Estado de São Paulo divulga dados falsos sobre bloqueio de dinheiro por autoridades suíças, é desmentido pelo Advogado Geral do país e manipula o desmentido.

7 . Colunista do Valor Econômico depõe a presidenta.

8 . Veja glorifica primeira-dama golpista por ser bela, recatada e do lar”

9. Estado de São Paulo informa que Lava-Jato vai denunciar Lula por causa do sítio de Atibaia.

10. Estado de São Paulo denuncia “banquete” de Lula em restaurante popular de Brasília.

11. Veja manipula dados sobre salários na EBC.

12. Estado de São Paulo acusa jornalistas estrangeiros de serem petistas.

13. Colunista da Época insinua que New York Times recebe dinheiro do PT.

14. Estado de São Paulo faz denúncia contra Lula, mas o inocenta

 

Começa a nona edição do King of the Kings!

Há semanas estou para realizar a primeira seletiva do King of the Kings-2016, mas fiquei sempre esperando a próxima cascata e… bem, elas estão vindo em tal profusão que não consigo acompanhar. Solicitei ajuda a dois amigos, mas eles também estão na batalha contra o golpe (na qual dou minha colaboração na linha TL particular do FB) e não puderam vir em meu auxílio. Assim, vou pôr em votação o que eu mesmo consegui coletar. Se você quiser me dar uma mão, envie sua colaboração para coleguinhas@protonmail.com, um e-mail de alta segurança (www.protonmail.com), encriptado usuário-a-usuário (end-to-end), que só será lido por mim (de fato, eu recomendo fortemente que você assine o protonmail, que é grátis).

O King ogf the Kings existe para reconhecer os esforços dos coleguinhas que trabalham duro para esculhambar o jornalismo brasileiro. Desde o ano passado, ele é acompanhado pelo Troféu Boimate, que premia a publicação que mais trabalhou para desmoralizar o próprio negócio. Para quem quiser sabe a origem do King of the Kings, clique aqui. Já a história do “boimate” é muito conhecida, mas se você a desconhece, clique aqui .

Ainda antes da lista, vamos às regras:

1. Você pode votar em até sete (7) concorrentes entre as 14 da lista.

2. Você ainda terá uma nova chance de votar nas sete não classificadas, pois elas voltarão para as outras seletivas (esta é uma mudança importante em relação ao ano passado, quando as não classificadas voltavam apenas na seletiva seguinte. No entanto, como a quantidade de cascatas é imensa e todas da alto/baixo nível, achei melhor estarem todas visíveis para uma melhor comparação dos eleitores).

3. A votação terminará na terça-feira, dia 12, pois estarei em viagem de férias a partir desta terça e não terei como anunciar o resultado domingo, como de praxe.

Agora sim, vamos as concorrentes:

1. Época denuncia professor francês muçulmano como terrorista mesmo ele tendo sido inocentado na França.

2.  Folha diz que Lula mandou nomear diretor da Petrobras, mas esquece que dizer que esquema na petroleira movimentara R$ 100 milhões durante governo FHC.

3. Zero Hora troca FHC por Lula em charge sobre os R$ 100 milhões em propinas.

4. Veja acusa falsamente mulher de estar envolvida na Lava-Jato.

5. Estado de São Paulo acusa Lula mencionando relatório da PF que não fala do ex-presidente.

6. Colunista do Globo ataca Lula em twitter publicado pela manhã e só se retrata de madrugada.

7. Rede Globo e Agência Lupa acusam erro de dados sobre microcefalia do Ministério da Saúde e são desmentidas por ministro e blogueiro cientista.

8. Estado de São Paulo publica como afirmação de Lula o que era uma corrente no What´s up.

9. Valor Econômico depõe a presidenta.

10. Rede Globo divulga grampo realizado ilegalmente a mando de Sérgio Moro envolvendo a presidente da República.

11. Estado de São Paulo divulga lista de apoio a Sérgio Moro com nome de 500 juízes federais, mas assinaturas eram apenas 200, nem todas de juízes federais e algumas nem eram juízes.

12. Estado de São Paulo divulga dados falsos sobre bloqueio de dinheiro por autoridades suíças, é desmentido pelo Advogado Geral do país e manipula o desmentido.

13. Veja anuncia que Lula vai pedir asilo na Itália e é desmentida pela embaixada do país.

14. Istoé afirma que presidenta está a um passo da loucura.