As explicações suspeitas de sempre

Vamos agora a mais uma tradição, na linha jabuticaba, da política brasileira: a explicação dos institutos de pesquisa de como e do porquê erraram tanto nas suas pesquisas. E também conviria os veículos de comunicação explicarem porque gastam tanto dinheiro e dão tanto destaque a pesquisas que, invariavelmente, eleição após eleição, erram as previsões de maneira grosseira.

Mais uma vez, recomendo o livro “os números (não) mentem”, do matemático e coleguinha Charles Seife. Quem quiser comprar, aqui estão os preços apurados pelo Buscapé; já quem preferir baixar um pdf gratuito, clique aqui, mas saiba desde já que, apesar de completo, está estranho – mas, como dona Sinhá já dizia, “de cavalo dado, não se olham os dentes”.

A Folha e os “tarja preta”

A corrida presidencial está fazendo muito mal à Folha, aumentando o nível da esquizofrenia que sempre assolou o veículo. Na semana que passou semana, a doença empresarial atingiu novos patamares. Se já não viu por aí, veja abaixo o que saiu publicado na abertura da coluna de horóscopo da Ilustrada, na quarta-feira (28):

 campanha astrológica

 

Ainda não consegui decidir o que foi isso: a astróloga Bárbara Abramo exagerou na dose de manipulação diária exigida dos coleguinhas ou, ao contrário , foi uma denúncia das condições em que eles trabalham nesta campanha?

Só que não foi a única maluquice do jornal dos Frias na semana que terminou. Na sexta, a Folha requentou uma inacreditável “matéria” da Veja, velha de dois meses atrás, que denunciava o uso de computadores de estatais para fazer campanha contra Aécio. Na época da cascata original, não houve a menor repercussão porque o texto não tinha nem pé, nem cabeça (nem a Folha prestou atenção). O que explica mais essa maluquice? Tenho duas suspeitas, uma tática e outra estratégica:

1.Tática: No dia 23, o jornal dos Frias desmentiu, em manchete, a cascata de que o governo gastou mais com a Copa do que com educação (primeira concorrente número ao KofK de 2014). E, ainda por cima, lembrou que não daria jamais para comparar os dois números, já que gastos com Educação são a fundo perdido e o dinheiro usado na Copa é fruto de empréstimos que, como tal, serão pagos. A manchete deve ter gerados esporros gerais internos e externos (outros barões e tucanos ligando para reclamar por ter o jornal detonado uma demagogia que fazv tanto sucesso) e isso deve ter contribuído para a reação pirada lá de cima.

2.Estratégica: O pano de fundo da pirada, porém, é ainda mais grave e não só para a Folha. Não sei se você notou, mas o Nove-Dedos tem dividido a agenda, basicamente, em duas partes: usa 90% para articular as bases para reeleição de Dilmão e 10% para defender a regulação da mídia (as vezes une as duas ações numa só). Bem, agora imagine Dilmão reeleita – o que N-D faria com os 90% do tempo que teria ocioso? Creio que usaria uns 50% dele para empurrar a discussão sobre a regulação da mídia. E teria até algo concreto para levar aos auditórios: o Projeto de Lei de Iniciativa Popular das Comunicações . Com sua inegável liderança, alguém duvida que ele consiga as 1,3 milhão de assinaturas necessárias para iniciar a discussão do projeto no Congresso? Pois é. Se o projeto será aprovado ou não é outra história, mas só tê-lo amplamente discutido é apavorante para os “barões da mídia” (e muitos coleguinhas mais bem postos nas redações), já que boa parte do poder deles vem do fato de esse assunto ser interditado na agenda política.

É com a conjunção dessas ameaças que o pessoal da redação a Folha não está conseguindo lidar por ela expor a contradição básica do jornal: se ele só tem o “rabo preso com o leitor”, se é um “jornal da serviço do Brasil”, se é um “jornal plural” como pode evitar (ou manipular) a discussão de uma questão política tão relevante para o leitor a fim de preservar privilégios do qual é uma dos principais beneficiários?
Os remédios tarja preta vão ter ampla saída nas farmácias perto da Barão de Limeira e das sucursais da Folha país a fora.

P.S.: Seja como for, tanto a “campanha zodiacal” quanto a louca matéria requentada vão concorrer ao King of the Kings (no último caso, em dupla com a Veja).

Nove-Dedos sacode o coreto via rede

A entrevista do Nove-Dedos para blogueiros de esquerda causou uma certa comoção semana passada, mas não pelo motivo que foi apontado pelos coleguinhas. Um bom exemplo dessa confusão foi a coluna de Cláudia Safatle, na edição de sexta-feira do Valor. Ela disse que a entrevista fora um retrocesso por falar da regulação da mídia e que a defesa dessa bandeira pelo N-D havia deixado de boca aberta alguns empresários graúdos da Fiesp, que acreditavam ser ela desfraldada por um ou dois assessores de Dilmão. “Mas ela é do Lula!”, teriam exclamado os poderosos senhores, espantados.

“Ma como?”, diria aquele arquetípico italiano do Bixiga. Afinal, em 2004 – ou seja, no início de sua escalada rumo ao olimpo dos mitos nacionais -, N-D tentara emplacar o Conselho Nacional de Jornalismo, a nossa versão dos conselhos que existem em todas as categorias profissionais que se dão ao respeito. A ideia foi destruída por um fogo de barragem dos barões de mídia, que, a partir daí, lhe votaram ódio imorredouro (a resposta foi o tal do mensalão, que começou em 2005 e se estende até hoje). Mais para o fim do governo, Franklin Martins, o capa-preta da Comunicação do Planalto, deixou pronta e divulgada uma proposta para a regulação, baseada nas que existem em países profundamente autoritários como sabemos que são a Inglaterra, os Estados Unidos e a França (posteriormente o trabalho foi engavetado por Dilmão, em mais um deu seus inúmeros erros políticos) – alguém aí acredita que Franklin teria montado e dado a conhecer a proposta sem o bênção de N-D?

Assim, o problema com a entrevista não foi o seu conteúdo, até porque o que ele disse – basicamente, que a mídia tradicional manipula informações para atacar petistas e proteger o PSDB e, agora, Dudu Campos – não é novidade para ninguém de tão óbvio. A questão foi, mcluhanianamente, o meio usado para divulgá-lo. Ao falar para blogueiros, Nove-Dedos indicou que a internet será o campo de batalha preferencial do PT na guerra eleitoral total que se avizinha, de modo a contornar os ataques da mídia tradicional e desmoralizá-la ainda mais (se bem que, nesse caso, será difícil fazer um trabalho melhor do que o já efetuado pelos coleguinhas que trabalham nela). Isso é o que incomodou os barões e, claro, seus coleguinhas amestrados.

Outro problema é que, ao dar a entrevista e escolher o campo em que pretende mandar a partida eleitoral, Nove-Dedos deve atrair os outros candidatos para a mesma arena. Afinal, o cara é o maior líder politico do país dos últimos 50 anos e Aécio e Dudu Campos não podem simplesmente ignorar a presença dele num espaço tão importante. Assim, mesmo entre aqueles que lhe são caros, os veículos de comunicação tendem a perder força política – e eles não estão em condições de ceder mais nenhum centigrama de seu peso político, tão mirrados já estão.

A reação dos barões não se fez esperar. Já existem pesquisas, feitas por grandes agências de comunicação e RP, que têm por objetivo claro opor a credibilidade dos meios tradicionais versus a falta dela na internet. Essa abordagem tem dois problemas. O primeiro é que usada há anos e, até o momento, não surtiu grande efeito pelo simples fato de que qualquer internauta de 10 anos sabe que não se deve acreditar em tudo o que se lê na Rede (teve até campanha sobre isso no desenho Phineas&Ferb há uns anos).

O segundo é que não ataca o centro da questão – a crescente falta de credibilidade dos meios de comunicação tradicionais. Com a prática de separar o joio do trigo informacional na internet, as pessoas passaram a usar o que aprenderam também na sua relação com os MCTs e começaram a ver que eles não são assim tão diferentes da Rede – mais sutis e habilidosos, até por contarem com profissionais muitas vezes experientes e talentosos, mas, no fundo, iguais na manipulação da informação.

Pesquisa rima com eleição, redação e especulação

Por falar em especulação, economia e coleguinhas, está ficando cada vez maior e mais esquisita essa ligação entre a cobertura política – mais especificamente a da campanha eleitoral – e a de economia. Claro que isso não é novidade, mas, ao que tudo indica, está a atingir um novo patamar esse ano.

Na semana que passou, houve claro vazamento de parte da pesquisa da Datafolha, divulgada hoje, que apontava uma queda da aprovação do governo de Dilmão (já apontada pela CNI/Ibope há duas semanas) e também a de intenção de voto na corrida presidencial. A consequência foi uma grande valorização das ações das estatais, que serão privatizadas caso Aécio ou Dudu Campos sejam eleitos.

Esse vazamento já seria ruim o suficiente, só que, ainda por cima, ele foi seletivo – falou da queda de Dilma, mas não se disse que os seus dois adversários se mantêm estacionados e a atual presidente continua a vencê-los em primeiro turno, com facilidade. A única hipótese de segundo turno, no momento, só com Marina na cabeça de chapa, algo que, a princípio, não parece estar nas cogitações de Dudu e do PSB (nas de Marina e seu pessoal não tenho tanta certeza).

E os coleguinhas com isso? É que foram eles os veículos da disseminação do vazamento, sempre apresentando o salvo-conduto de que era o “mercado” que estava falando sobre a pesquisa, levando à especulação. Mas – quer saber? – depois de tantas eleições já estou começando a duvidar da honestidade das intenções dos coleguinhas. Começo a ter sérias suspeitas de que há gente nas redações lucrando com esse sobe-e-desce de ações na Bolsa provocadas pelas pesquisas eleitorais. Claro que os coleguinhas da Folha ficam mais ainda sob suspeita – afinal, os Frias são também donos do Datafolha e, nesse caso específico, a fonte dos dados usados para a manipulação -, no entanto, é bom nós, leitores, abrirmos bem o olho, pois desconfio que a especulação (financeira) está comendo solta em muitas outras redações.

A pesquisa que não era

O escândalo da semana nos veículos foi a história da pesquisa do Ibope que mostraria uma queda de Dilmão e a subida dos candidatos de oposição. O boato foi espalhado pelo tal mercado, levado avante pelos coleguinhas (já como “informação”) e embasou a subida das ações das principais empresas estatais em cerca de 10% (aqui e aqui, dois exemplos entre dezenas), que, obviamente, serão ou privatizadas na bacia das almas ou reduzidas à irrelevância caso Aécio ou Dudu Campos vençam em 2014.

O problema é que a tal pesquisa – divulgada dois dias após o primeiro prazo dado pelo mercado – dizia exatamente o que outras vêm apontando há uns dois anos, ou seja, que, caso a eleição fosse hoje, atual presidente venceria em primeiro turno, em qualquer cenário, contra qualquer adversário. As ações das estatais caíram imediatamente para os patamares anteriores à divulgação do boato.

Imagino o quanto os tais analistas do mercado ganharam com a brincadeira e fico a me perguntar: será que houve coleguinhas levaram algum nessa? Por conta da desfaçatez dessa manipulação, ela se torna a quarta concorrente ao King of the Kings de 2014.

A paralisia do Aécio

Pouco antes de sair de férias, li a seguinte frase do Aécio Neves, escolhida como uma das melhores da semana pelo Globo (ó surpresa!):

“As políticas sociais já não terão mais o peso que tiveram em eleições passadas. Elas já foram precificadas pelos eleitores” .

Essas palavras mostram claramente o motivo pelo qual a cada pesquisa Dilmão amplia sua vantagem sobre os candidatos da oposição: esta não tem a menor ideia do que acontece no país. Sem ter noção do que vai pelas ruas, como é que se pode montar uma plataforma que embase uma candidatura minimamente competitiva?

O dilema básico de Aécio, expresso pela frase, é que ele não pode admitir que os brasileiros deram uma salto em seu padrão de vida nos últimos 10 anos que não encontra paralelo nos 50 anos anteriores. Por mais óbvio que isso seja, admiti-lo claramente levaria a perguntas incômodas como:

1. Então por que vocês não tomaram essas medidas quando estiveram no poder? Não foi por falta de tempo.

2. Por que lutaram contra a implementação dessas medidas quando elas foram propostas?

3. O que farão para aprofundá-las?

Haveria outras perguntas chatas como essas, mas a número 3 é a demolidora. Por que o que se viu nas manifestações de junho não foi um protesto contra o realizado nos últimos 10 anos, mas o que deixou de ser feito – ações pela melhoria da saúde, da mobilidade urbana, da educação. Os protestos exigiam mais pressa, maior velocidade no caminhar e não mudança da estrada que vem sendo seguida.

E o que os tucanos têm a oferecer nesse campo? A resposta é nada. Na verdade, têm a propor exatamente o contrário – uma mudança na rota, um cavalo-de-pau na agenda social, que, muito provavelmente, jogaria os brasileiros de volta aos anos 90.

E não há como Aécio propor algo diferente, pois é o que ele e sua base de poder – especialmente os grandes empresários e a parte da classe média mais reacionária – acreditam. Se disser que vai manter o que está aí, desagrada a maioria quem quer mais; se disser que vai botar o pé no acelerador, essa maioria, muito provavelmente, não vai acreditar nele (devido às perguntas 1 e 2) e ainda vai desagradar ao seu pessoal.

Sair desse impasse paralisante – e rápido – é o desafio dos tucanos. Francamente, dado o passado de todos e às suas companhias de viagem, acho bem difícil.

Cheiro de carona no ar

Sei não, mas o Aécio e o Dudu Campos devem pôr suas respectivas bochechas escanhoadas de molho. Depois das pesquisas Vox Populi e Ibope detectarem que para derrotar Dilma, os reacionários terão que apostar em Serra no PSDB e Marina no PSB, já há sinais que de que o comando deles, que como se sabe está nas sedes das empresas de comunicação, vão caronear os atuais dois candidatos. Matérias sobre o mensalão tucano, cujo julgamento dorme no STF há anos, completamente esquecido da imprensa, de repente, foi lembrado pelo Globo, por exemplo, ao mesmo tempo em que as trombadas de Marina nos aliados de Dudu também aparecem em colunas e em algumas matérias.