Vamos à 3ª seletiva do King of the Kings-2017!

Redações em plena atividade

 

Você vai ficar um tanto decepcionado/a, mas não há tantas cascatas assim para disputar a terceira seletiva do King of the Kings-2017. Há dois motivos básicos para o fato, creio. O primeiro é que, como já mencionei mais de uma vez, meus critérios cascatológicos, desenvolvidos em mais de duas décadas, são extremamente rígidos. Para entrar na lista de concorrentes ao KofK, a cascata precisa ser de muito baixo nível. O segundo motivo é decorrente do primeiro – o jorro de cascatas de baixo nível caiu muito desde que o Golpe de 2016 desandou e os antigos aliados começaram a ser atacados pelos veículos de comunicação, os quais também, vendo que já não detêm um controle absoluto sobre o golpe que comandaram, começaram a passar um paninho, posando, novamente, de “isentos, imparciais e objetivos”. Quem não os conhece que os compre.

Por estes motivos, são apenas dez as cascatas que estarão na disputa por uma vaga para a final de janeiro de 2018. Antes de nomeá-las, vamos às regras:

1. Você pode votar em até cinco concorrentes.
2. As cinco não classificadas voltam para a última seletiva.
3. O pleito segue até dia 19 de novembro, dando, portanto, duas semanas para você ler e votar com calma.

 

Então, vamos às concorrentes!

1. SporTV chama assassinato de torcedor de “fatalidade”.
2. Veja já tem pronta matéria sobre condenações de Lula.
3. IstoÉ usa investigação para acusar senadora que defende governo da Venezuela.
4. IstoÉ afirma que PT tem célula dentro da PGR e domina Lava-Jato.
5. Superinteressante fala da ameaça da Coréia do Norte aos EUA, mas esquece de falar das razões do ódio dos norte-coreanos.
6. O Globo dá foto sobre Malas do Geddel, mas com manchete sobre Lula e Dilma.
7. Folha demite repórter com medo de seguidores de Danilo Gentilli.
8. Míriam Leitão acusa “forças do atraso” que ajudou a pôr no poder pela tentativa de liberação do trabalho escravo.
9. History Channel mente a historiadores para produzir programa que deturpa a História do Brasil.
10. Estadão afirma que Temer não compra Congresso para fugir das acusações de corrupção.

O Extra e sua muralha

No primeiro momento, quando o Extra começou sua campanha contra o goleiro Muralha, do Flamengo, em 1º de setembro passado, colocando um “comunicado” na primeira página (abaixo), achei babaca e desrespeitoso, mas não cheguei a prestar muita atenção, pois ações deste tipo nunca foram raras em redações e, atualmente, são decididamente comuns.

Mesmo na semana passada, quando o jornal voltou a jogar nas mãos do atleta a culpa por mais uma derrota do rubro-negro nos pênaltis – algo comum para todos os clubes –, e a consequente perda do título da Copa do Brasil para o Cruzeiro, apenas achei que algum responsável pela primeira do Extra tinha algo de pessoal contra o jogador, já que no caderno de esportes, a culpa foi atirada sobre Diego (como se houvesse culpa em perder uma cobrança numa decisão e não algo perfeitamente esperado na vida de um jogador como Diego, principal atleta do time e cobrador oficial). A contradição pode ser vista abaixo.

No dia seguinte, porém, soube da situação pré-falimentar do Grupo Abril e os ataques do Extra contra Muralha ganharam algum sentido – não tenho como afirmar, já que não possuo mais acesso aos números do Instituto Verificador de Circulação (IVC), mas passei a suspeitar que as capas contra Muralha indicam que o Extra está sofrendo uma séria queda em sua circulação.

Como se sabe – e pode-se ver claramente nas ruas de qualquer grande cidade brasileira – a crise econômica abalou seriamente as classes C, D e E, o público ao qual o jornal se dirige. O fato de ser feito pensando nessas classes de consumo faz com que o Extra seja um “jornal de banca”, ou seja, ele praticamente não possui as assinaturas que mantêm os chamados quality papers voltados para as classes A e B (que também sofrem com a queda de circulação causada pela fuga dos assinantes, mas esse é outro capítulo da história). Dessa forma, o Extra necessita de chamadas fortes, “quentes”, para capturar a atenção de seus potenciais leitores e levá-los a coçar o bolso.

O jornal sempre atuou desse jeito, claro, com manchetes inteligentes e divertidas, mas, diante de uma queda acentuada como a que o jornal tem sofrido, inteligência não tem tanto efeito quanto o bom e velho sensacionalismo. Assim, a publicação partiu para este caminho com esta capa agressiva e politicamente perigosa (publicada duas semanas antes da primeira contra o jogador).

Compreensivelmente, ela provocou uma chuva de críticas, que, embora certamente não provenientes de seu público alvo, devem ter repercutido na redação. Ademais, declarar o Rio em guerra funciona bem para vender jornal, mas também provoca medo e esse sentimento não pode ser usado sempre, já que tende a provocar um “stress” social talvez incontrolável pelo Grupo Globo como um todo. É necessário dar uma aliviada, mas sem perder o foco na provocação de polêmicas sensacionalistas. Assim, a direção de redação do Extra parece ter resolvido apelar para uma velha técnica para cativar o público menos crítico: criou um vilão.

O vilão é o oposto do herói, obviamente, mas é essencial para que este exista e a luta entre ambos é o que faz uma história funcionar. Essa técnica literária é conhecida de qualquer roteirista de novela ou história em quadrinhos. E foi isso que o Extra fez com Muralha –transformou-o num vilão, mesmo sem um herói definido para enfrentá-lo. Funcionou muito bem por fatores intrínsecos à própria pessoa: o goleiro é realmente fraco tecnicamente (mas sempre o foi e o Extra não criticou sua convocação para a seleção brasileira há precisamente um ano), tem um apelido que é bom marketing para os bons momentos, mas péssimo para os maus, e apresenta uma figura fora do modelo idealizado pela sociedade brasileira – é mulato, corta o cabelo à moicano, é barbudo, um perfeito oposto de Diego, aquele que realmente decretou a derrota no Mineirão, mas foi escondido na parte interna do jornal (e ainda apresentado com um elogio enviesado a sua beleza).

Em suma, da maneira como vejo a coisa, Muralha ser esculachado pelo Extra tem pouco a ver com sua capacidade técnica ou mesmo a importância de suas supostas falhas nas derrotas do Flamengo. Estas apenas forneceram a oportunidade para a direção de redação do jornal alavancar as vendas às custas de ridicularizar publicamente um ser humano. A má notícia agora: o viés do Extra não vai mudar porque a muralha econômica que enfrenta é intransponível enquanto a situação econômica não mudar.

O investimento em publicidade da Petrobras de 2011 a 2016 – V (Rádio)

Vamos então ao quinto post sobre a distribuição da publicitária da Petrobras entre 2011 e 2016, enfocando o meio rádio. Desta vez a questão metodológica precisa de uma explicação um pouco mais circunstanciada, dada a natureza do meio. Peço, então, que você tenha um pouco de paciência e leia para entender o que está lá embaixo.

O meio rádio apresenta um nível de concentração parecido com os jornais, mas é pulverizado como as revistas – mais até. Esses fatos me obrigaram a organizar os dados de modo a que ambos aparecessem e isso mudou a maneira como montei a tabela e o gráfico. Depois de separar o meio dos outros, criei um primeiro grupo de 10, baseado no maior recebimento da verba de publicidade da Petrobras. Fiz isso para ter uma ideia mais clara em meio à maçaroca de dados (para você ter uma ideia, em 2013, havia 1.565 registros nos dados brutos; em 2014, 1.902). Depois dessa primeira garimpagem, realizei uma segunda separação, com os 5 grupos empresariais mais beneficiados com as verbas e só aí organizei os dados na tabela e no gráfico.

Além desse processo, há ainda, claro aquelas notas que têm guiado a divulgação até aqui:

1. Há uma cisão temporal. Até 2013 (inclusive), os dados se referem a valores autorizados – empenhados, em burocratês -, não necessariamente realizados. De 2014 para cá, porém, são os valores efetivamente executados.

2. À primeira vista, manter os dois tipos de dados juntos não seria correto. No entanto, a junção não muda a tendência, já que o fato de os valores terem sido previstos demonstra a orientação estratégica da Petrobras, a intenção de investir em determinadas empresas e publicações daquele meio.

3. Como não pedi a relação previsto/realizado no período, não há como se ter uma ideia do percentual médio de execução orçamentária. Ano que vem, solicitarei essa relação.

4. As conclusões não têm o objetivo de esgotar o assunto. Ao contrário, gostaria muito de que outros se debruçassem sobre os dados a fim de extrair deles outras visões. Creio que os que trabalham na Academia poderiam fazer este trabalho com grande proveito para todos.

5. As conclusões políticas – de existirem – ficam por sua conta e risco, certo?

Afinal, agora vamos lá:

 

1. Apesar de sempre precisarmos levar em consideração a questão da mudança de metodologia, o ano de 2013 mostrou-se o mais pródigo do período, com cerca de R$ 10,7 milhões destinado pela Petrobras para as rádios e ainda mais para o G-5, que teve, neste ano, a maior participação na liberação das verbas, com quase 76% do total – R$ 8,1 milhões.

2. No entanto, parece estar havendo, desde 2014, um processo de desconcentração das verbas publicitárias da Petrobras destinadas ao meio, ao contrário do que ocorre nos meios enfocados até aqui (TV, jornal e revista). Em 2015, a concentração baixou para menos de 50%, voltando a ficar acima em 2016, mas não muito. É preciso verificar se a tendência se mantém.

3. O ano de 2013 também foi aquele em que o Grupo O Dia teria faturado mais em publicidade da Petrobras, com cerca de R$ 3.5 milhões, incluindo as emissoras O Dia e MPB-FM. O condicional é devido à metodologia empregada nos dados – como está no item 1 das notas metodológicas, o previsto pode não ter sido efetivado.

4. As emissoras do Grupo O Dia, aliás, apresentaram uma queda de participação na distribuição de verba publicitária da Petrobras, em 2015 e 2016, ficando em 4º lugar em 2015 e 3º, no ano seguinte, quando fora 1º, em 2014 e 2013, e 2º, em 2012 (sempre lembrando a ressalva do item 1 das NM).

5. Ainda assim, a preponderância do Grupo O Dia se manteve no triênio 2014-2016, conforme se vê na tabela. Essa vantagem é notável porque o grupo não tem um forte setor de esporte (futebol para ser mais exato) como suas concorrentes:

6. Apresentar equipes de esporte fortes é, por sua vez, o trunfo dos grupos Globo e Tupi, respectivamente segundo e terceiros colocados no período 2014-2016 e que também foram destaques no subperíodo anterior. Band e Jovem Pan, porém, também possuem equipes fortes, mas não são tão bem aquinhoadas, o que talvez possa ser explicado pelo fato de as emissoras terem sede em São Paulo, diferentemente dos grupos Globo e O Dia. Em 2016, porém, pois a Band foi a emissora que mais recebeu verbas publicitárias da Petrobras.

“O argentino que ganhou a Copa”

Pedro Henrique Dias é o nome de batismo, mas ele se assina Díaz porque é fanático pela Argentina, em particular pelo futebol portenho. A paixão levou o carioca da Barra a correr atrás da seleção albiceleste durante a Copa de 2014 por boa parte do país com uma ideia fixa: tocar a taça quando Messi e seus companheiros estivessem dando a volta olímpica no Maracanã. Este fato pode ter acontecido em algum outro universo, não neste. Aqui, o título foi da Alemanha. Só que, ainda assim, Pedro conquistou o título e fez, sozinho, um documentário para prová-lo – incluindo como ludibriou, usando muita malandragem carioca misturada com milonga argentina, o tal “esquema de segurança padrão Fifa”. Abaixo, você pode assistir como Pedro Díaz ganhou sua Copa do Mundo.

Em breve, numa telinha (bem) perto de você

“O futuro não é mais o que era antigamente”. O verso de Renato Russo em “Índios” me veio à cabeça enquanto lia o relatório “TV and Media 2015” do ConsumerLab, o braço de pesquisa da Ericsson, existente há 20 anos e que, nos últimos seis, tem divulgado o estudo, no qual analisa as tendências de curto e médio prazos para a televisão. O estudo é uma sequência de notícias ruins sobre o porvir da chamada “linear TV”, ou seja, essa que gente com minha idade – e até uns 10 mais jovem – cresceu assistindo, e também a TV por assinatura.

Para não assustar muito, vou começar com as notícias boas. De acordo com o relatório do ConsumerLab, a TV linear continua sendo fundamental em boa parte dos lares dos 40 países e 15 megacidades abrangidos pelo estudo. Esse fato ocorre pela capacidade do meio de prover acesso barato a conteúdos “premium” e ao vivo, especialmente esportes, e pelo valor social, por unir as pessoas numa experiência comum (tipo comentar a novela, discutir se houve ou não roubo no gol com a mão validado por aquele ladrão etc).

Hããã…Bem, as notícias boas acabaram. Agora, vamos às más, que, de tantas, vou dividir em tópicos (e serão resumidas porque tenho mais coisas a tratar no tema – há um link para quem quiser aprofundar-se no estudo lá embaixo):

• TV linear é coisa de idoso. Oitenta e dois por cento de quem tem acima de 60 anos vê seus programas diariamente, contra 60% dos chamados “millennials”, como o estudo chama quem nasceu de 1981 até 2000 (ou seja, tem entre 16 e 34 anos).

• Dessa galera, a maioria (53%) prefere ver vídeos em telas de aparelhos móveis (notebooks, tablets e smartphones).

• Mas não só eles – de 2012 para cá, houve um incremento de 71% naqueles que veem vídeos em smartphones, quando se engloba todas as idades. Por isso, a média de horas que dispendidas assistindo vídeos em aparelhos móveis (não apenas smarts) subiu 3 horas de três anos para cá.

• Mais de 50% dos entrevistados (cerca de 100 mil, representando 1,1 bilhão de pessoas) afirmaram que assistem video on-demand pelo menos uma vez ao dia, contra 30% em 2010.

• O motivo básico (e essa é um chute no saco, desculpe o termo, na TV) é que 50% dos que assistem TV linear não encontram nada que lhes agrade para ver pelo menos uma vez ao dia – percentual que sobre 62% entre aqueles com idade entre 25 e 34 anos.

•Assim, as pessoas estimam que gastam cerca de 6 horas por semana vendo séries, filmes e programas sob demanda, contra 2,9 horas em 2011.

•Um hábito que vem crescendo incrementa essa tendência – é o “binge view”, ou seja, assistir vários capítulos de um conteúdo (quando não ele todo) direto. É um hábito dominante entre quem assina serviços de vídeo sob demanda (S-VOD), tipo Netflix (87% o fazem ao menos uma vez por semana), mas também tremendamente significativo entre quem não assina, tipo quem acessa vídeos via You Tube, Vimeo ou pirateia mesmo (74%).

• Por falar no You Tube, ele é o principal incentivador de outra linha de ataque à TV linear. Quarenta e um por cento dos consumidores de vídeo veem UGCs por meio dele ao menos uma vez ao dia, 75% ao menos uma vez por semana (27% e 59%, respectivamente, em 2011). O que é UGC? É “User Generated Content” (Conteúdo Gerado por Usuário). Ainda não ligou o nome à pessoa? São aqueles vídeos que ensinam de um tudo (de dar nó em gravata a consertar motos) e também conteúdos como este ou este outro (cuja autora é uma ex-estagiária hipertímida que, há mais ou menos um ano, tive que chamar às falas para ela cumprir a obrigação de ser repórter em pelo menos dois vídeos para a TV interna da empresa).

• E um consumidor em cada três (crescimento de 9% em um ano) acha que é importante ter acesso aos UGCs direto naquela tela grande que está na sala.

• Aliás, essa tela está cada vez mais conectada à internet – sejam smart TVs puras ou TVs comuns ligadas por meio de aparelhos como Apple TV ou Chromecast . Segundo o relatório do ConsumeLab , 64% dos que não assinam S-VODs (ou seja, na prática vê apenas You Tube, Dailymotion, Vimeo e outros) já tem uma em casa; entre os assinantes, o percentual chega a 86%.

Chega, né? Não, não chega. Tem mais nesse mês de setembro de notícias miseráveis para a TV linear. Vou dividir de novo:

1. Mentions: O Facebook liberou para jornalistas, experts e outros influencers o seu app Mentions, que permite a emissão de vídeo em tempo real (“streaming”) para dentro da plataforma. O app já estava ao alcance de algumas celebridades selecionadas, assim como serão selecionados (não se sabe sob quais critérios) os novos usuários. Essa seleção vip não deve durar muito tempo até porque, no mesmo dia (se você acredita que foi coincidência, você acredita em tudo), o Twitter lançou mais uma versão do seu Periscope, que faz exatamente mesma coisa, só que por lá e é aberto para todo mundo.

Assim, agora os coleguinhas poderão carregar sua própria emissora no bolso – ok, não é “broadcast”, mas já vai dar para alcançar uma audiência global de 1,5 bilhão – cerca de 70 milhões no Brasil (Facebook) – ou 300 milhões (twitter mundo, no Brasil, a rede não diz quantos usuários tem). Vamos combinar que não é nada mau.

2. Apple TV: Como tudo que é ruim sempre pode piorar, como dizia Vó Sinhá, piorou para a TV linear. No evento anual da empresa de Cupertino, como sempre todas as atenções estavam voltadas para as novidades dos iphones e, dessa forma, as mudanças na Apple TV não foram muito comentadas. Uma delas, no entanto, pode detonar de vez a TV linear se for seguida: a “appização” da nossa relação com o conteúdo de vídeo (é a terceira da lista) – e, na boa, por que esse modelo não se tornaria dominante? Como lembra o texto, está funcionando com a música (há dois meses, me disseram que seria legal pagar R$ 15,00/mês para ter acesso à versão premium de um app de “streaming” de música. Achei absurdo – porque eu iria querer um negócio desses se já tinha 5 mil (mesmo) músicas ao alcance das mãos? Pois este texto está sendo escrito ao som de música provida pelo Spotify ).

“E os caras da TV linear estão olhando tudo isso parados, sem reação, que nem jacaré na frente da lanterna?”, perguntará você. Bem, mais ou menos. Lá fora, o debate sobre o fim dos intermediários na relação consumidor-produtor de conteúdo (é disso de que estamos falando agora) começou (e aqui, um comentário sobre o ponto 2 acima). Já aqui, no Bananão, não tenho certeza. Pela experiência que temos com a mídia impressa, é muito provável que não. Mas essa dúvida, nós vamos tirar em breve, muito breve.

Ah, sim! O link para a apresentação do estudo do ConsumerLab que prometi.

Como montar (e desmontar) uma cascata

A coluna abaixo estava pronta para ser publicada semana passada, mas os dados da pesquisa do Reuters Institute fez com que eu adiasse a publicação. Ela marca o começo de uma série de seletivas de cascatas concorrentes ao King of the King-2015. com início semana que vem. Já tenho duas listas montadas, mas, nas quatro semanas que levará o processo de eleição, certamente outras aparecerão já que os coleguinhas entraram num novo ritmo na sua luta para desmoralizar a própria profissão – as cascatas agora são diárias, distribuídas por todos os meios e se estendem a todas as editorias, embora política e economia ainda predominem (ou nelas estejam as que repercutam mais). A coluna abaixo dá conta d esse espraiamento do cascatal.
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Está na hora de mais uma seletiva do King of the Kings-2015, pois já tenho cascatas mais do que suficientes para iniciar a quarta da série e mesmo a quinta. Só que aí pensei: falo de cascatas o tempo todo, mas há muitos leitores que não são jornalistas (especialmente no Facebook) e eles podem não saber bem o que é uma e, principalmente, como elas são construídas pelos coleguinhas.

Assim, para edificação das gentes, decidi mostrar como se cria o tipo de cascata mais comum (há outros estilos, mais sofisticados, que ficam para outro dia) e como desmontá-la. Para ser didático, pegarei uma bem pão-pão-queijo-queijo, a respeito de um assunto “neutro” (entre aspas porque isso, a rigor, não existe isso): futebol. A cascata é a que diz que o Messi jogou 57 das 60 partidas do Barcelona na temporada 2014-2015 e a ouvi, pela primeira vez, após a vitória do time catalão sobre a Juventus, de Turim, na final da Copa dos Campeões – basicamente, a ideia dos coleguinhas que a impingiram é mostrar que os jogadores brasileiros que se queixam do exagero de jogos que disputam durante o ano são uns moloides que deviam entrar em campo e não reclamar por serem bem pagos (embora nada como o Messi).

Bom, esses são os pontos fundamentais para uma boa cascata básica:

a) Precisa comprovar uma tese: Ela pode ser explícita, como no caso acima, ou não, mas uma cascata que não quer provar algo não tem razão de existir e, por isso, se torna fraca e evidente.

b) Deve estar baseada num dado real: Uma simples mentira é facilmente desmascarada, como, por exemplo, aquela do Globo sobre  Taylor Swift. Uma meia-verdade – como a da cascata em foco – é muito mais complicada de ser desmentida.

c) Não pode ficar patente de primeira: Um especialista, ou ao menos um bom conhecedor do assunto, pode ver a cascata de cara, mas um cidadão/cidadã com conhecimento médio não pode ter acesso fácil às informações que a desmascarem. Cascata precisa parecer ter lógica para o leigo no assunto, pois, assim, este pode disseminá-la com convicção.

d) Um “especialista” é o melhor porta-voz: É um reforço para o item acima. Se um “especialista” disse, tá falado, pensa o leigo, que já não sabe do assunto e também não está a fim de pesquisá-lo.
Assim, de posse do conhecimento dos pressupostos essenciais para uma boa cascata, vamos tratar de desmontar aquela lá de cima, que cumpre todos os requisitos apontados. Para levar a efeito o desmonte, peguei o Internacional, de Porto Alegre, único clube brasileiro que ainda disputa a Taça Libertadores da América, de maneira a equilibrar com o Barça, que jogou a Liga dos Campeões.

As 60 partidas do time de Messi e Neymar foram divididas entre três torneios: o Campeonato Espanhol, a Copa do Rei (equivalente a nossa Copa do Brasil) e a Liga dos Campeões (que equivale à Libertadores). Foram 38 partidas por La Liga, 9 pela Copa, e 13 pela Champions, sendo 58 de ida-e-volta (exceções para as decisões da Copa do Rei e da Champions, cujas decisões foram em um jogo só).

Assim, o Barça atuou 29 partidas fora da capital da Catalunha (a decisão da Copa do Rei foi no Camp Nou e o Espanyol também é de Barcelona, mas a final da Champions foi em Berlim). Para atuar nos sete jogos fora da Euro (incluindo a final), o time percorreu 12.766 quilômetros (segundo o utilíssimo site Distance From To), sendo a maior distância os 4 mil quilômetros que separam Barcelona de Nicósia, capital do Chipre, onde Messi desfilou seu talento contra o Apoel, no dia 25 de novembro de 2014 (4 a 0, três do gênio argentino e o outro do uruguaio Luis Suaréz).

Agora, o Inter. Até o momento (antes da partida contra o Santos, em casa, pela nona rodada do Brasileirão), nos cinco meses de temporada, a equipe colorada já jogou 38 partidas – 20 pelo campeonato gaúcho, 10 pela Libertadores da América e 8 pelo Brasileiro (ainda jogará pela Copa do Brasil, no segundo semestre). Destas, 18 fora de Porto Alegre, mas, observe-se que três (todas do Brasileiro) com um time misto, poupando os titulares para a Libertadores.

No intuito de facilitar a comparação, seguem os números nas tabelas abaixo (as distâncias estão multiplicadas por dois porque quem vai, volta).

 

barcelona_inter

 

Com os números postos fica fácil ver a cascata, certo? O time da Catalunha jogou muito menos na temporada 2014/2015 do que o Inter jogará ao fim da temporada brasileira, pois ainda terá que fazer pelo menos 30 partidas no Brasileirão, duas na Libertadores (está nas semifinais, contra o Tigres, de Monterrey (México), cidade a 8.116 quilômetros da capital gaúcha) e mais duas pela Copa do Brasil, na qual entra nas oitavas-de-final. Se a coisa for como a torcida colorada deseja (títulos da Copa do Brasil e Libertadores, com a classificação para o Mundial de Clubes, em Tóquio, juntamente contra o Barça), a equipe entrará em campo em mais 12 partidas, totalizando 81 jogos em 2015 (sem contar a ida ao Japão).

Diga aí: alguém que não seja Tony Stark, devidamente paramentado de Homem de Ferro, jogaria 95% dos jogos na temporada? (E não vou nem falar que os gaúchos já jogaram duas vezes em Bogotá, a 2.640 metros acima do mar, e uma vez em La Paz, a 3.660 metros, enquanto o Barça jamais passou nem perto de cidades com estas características).

Mas não seria fácil para um leitor/ouvinte/telespectador desmontar a cascata, né? Como já fui repórter esportivo por muitos anos, sabia que era uma cascata, e o que procurar e onde para desmontá-la, mas e você, que não acompanha futebol com assiduidade, teria o saco e o conhecimento para fazê-lo? Creio que não. E olha que essa é uma cascata básica, que pode ser derrubada com dados públicos, disponíveis na internet, não uma daquelas com palavras de um relatório ou fita que você não pode avaliar, pessoalmente, de onde veio e qual o conteúdo completo.

“Mas o que posso fazer para me defender e não ser engrupido pelos jornalistas?”, pergunta você, justamente temeroso de ser feito de otário. Bem, não tenho uma receita para isso. O máximo que posso aconselhar é manter a mesma atitude que, em outras eras do mundo, os jornalistas tinham: não acreditar em nada do que leia, veja ou escute antes de checar bem checado.

Então vamos ao escândalo Fifa/CBF/Globo…

Acho que não tem jeito… Vou ter que interromper minhas queridas numeralhas para falar do escândalo no futebol, certo? (Suspiro…) Para começar, é bom dar uma uma olhada para trás. Leu (ou já sabia)? Então, vamos lá:

1.  Marcelo Campos Pinto: É o cara. Se você não é (muito) ligado em esporte pode não conhecê-lo, mas o diretor geral da Globo Esportes é a personalidade mais poderosa do ramo no Brasil, principalmente no que concerne ao futebol (mas não só). Em se tratando de CBF, ele manda prender, manda soltar, casa e batiza – nada do que se decide na entidade, seja em termos de seleção, seja, especialmente, em termos de competições nacionais (incluindo a Copa do Brasil, que aparece no relatório do governo dos EUA), é implementado se não levar o seu sinete. E isso há anos. Qualquer investigação minimamente séria sobre os escândalos que envolvem a Fifa e a CBF – de cujos dirigentes é unha-e-carne – pode deixar de ir em cima dele. Necessariamente deverá ser ouvido pela CPI e pela PF, a qual, possivelmente, com o avançar das investigações, terá que pedir a quebra dos sigilos fiscal, bancário e telefônico dessa figura.

2.  J.Hawilla: É o personagem principal da trama até agora. Se Campos Pinto leva o escândalo para o coração da operação de esportes da Estrela da Morte, Hawilla atinge diretamente a família Marinho. Como já é notório, ele é sócio de Paulo Daudt Marinho, filho de João Roberto Marinho, na TV São José do Rio Preto, e o próprio JRM é sócio dos filhos de JH, Renata e Stefano , na TV Aliança Paulista, de Sorocaba, ambas componentes da rede da TV TEM, de Hawilla. Este disse que não fez nenhum acordo de delação premiada com a Justiça dos EUA – traduzindo: poderá vir a fazer, lá ou aqui, dependendo das circunstâncias. Estas podem mudar não só pela ameaça de prisão, mas também por ordem pessoal – talvez Hawilla, que estaria lutando contra um câncer na garganta, não queira deixar como legado para seus filhos e netos a mancha de um escândalo de corrupção internacional ligado ao nome da família.

3.  Família Marinho/Grupo Globo: Estão com um problemão nas mãos, que pode ser dividido em três partes:

a. Política: Como visto, não dá para esconder as ligações das Organizações Globo com J.Hawilla apontadas acima. Como se tem insistido que Dilmão deveria saber o que ocorria no quinto ou sexto escalão do governo, não se pode agora dizer que João Roberto Marinho não tinha conhecimento do que fazia o sócio de seu filho e pai de dois de seus próprios sócios – ainda mais, que vamos convir, os mais jovens foram mesmo é usados como testas-de-ferro para os papais driblarem restrições legais à posse das emissoras de TV no interior de São Paulo. Raciocínio semelhante vale para o caso de Marcelo Campos Pinto – se o homem forte da Globo Esporte, postado no escalão imediatamente abaixo dos Irmãos Marinho, especialmente de Roberto Irineu, responsável pela TV, cometeu maus feitos, como se poderá acreditar que o fez sem, pelo menos, conhecimento dos chefes? “Amplo domínio dos fatos” não pode valer só para um lado.

b.Policial: Diante do quadro acima, já andam dizendo que os Marinho querem demitir Campos Pinto  e este, óbvio, ameaçou botar a boca no mundo. Se o fizer…

c.Corporativa: A investigação certamente vai enfraquecer a capacidade da Globo de vencer as futuras concorrências por direitos esportivos. Os concorrentes poderão exigir que o sistema de escolha seja na base do envelope fechado ou do leilão por viva-voz, como deve ser em qualquer concorrência decente. Se um desses sistemas tivesse sido usado em disputas anteriores, em algumas a Globo não teria vencido, como ocorreu na ocasião da concorrência pela exibição dos Jogos Olímpicos de Londres, ganha pela Record.

Ainda nesse campo, a concorrência poderia tomar outras providências, que avento mais abaixo.

4. Ricardo Teixeira: Não posso fazer melhor do que o Luiz Carlos Azenha para explicar a importância deste conhecido personagem nesse imbroglio.

5. Romário: O Baixinho vai responder rapidamente uma pergunta fundamental: avaliou bem onde se meteu ao correr para criar a CPI da CBF no Senado? É que se levar a CPI a sério, vai, fatalmente, chocar-se com a Rede Globo, o que não fará nada bem a sua candidatura à prefeitura do Rio em 2016 (e a suas aspirações políticas em geral), que também será prejudicada se for leniente na apuração, pois mostrará que de cruzado moralizador e “coisa nova na política” não terá nada.

6. Polícia Federal: Com as investigações de nomes bacaninhas acabou ganhando o respeito de muitos brasileiros. No entanto, nos últimos tempos, mais precisamente depois dos escândalos do HSBC (aliás, que fim levou?) e Carf (que iniciou, com o nome de Operação Zelotes, mas não aprofundou), alguns começaram a se perguntar se a capacidade investigativa da PF não funciona apenas contra os políticos, mais especificamente de um determinado lado do espectro ideológico. Tem uma chance de ouro de demonstrar que quem pensa assim está errado/a, mas, para isso vai ter que contrariar amigos e benfeitores antigos.

7. Ministério Público: Da mesma maneira que a PF, age rápido quando as suspeitas são contra determinadas pessoas e instituições de determinada tendência política e é muito lerdo – chegando à inércia – quando o caso afeta “cidadãos acima de quaisquer suspeitas”, definição que abrange empresários poderosos e amigos ou políticos apoiados por estes (casos HSBC e do Carf também podem ser lembrados aqui). Também tem a oportunidade de mostrar que pode ser ágil em qualquer situação – o seu caso tem um agravante em relação à PF: a atuação do MP brasileiro será inevitavelmente comparada com a da equipe comandada por Mrs. Loretta Lynch. Por enquanto, os procuradores estão quietos, algo estranho pois sempre estão entre os primeiros a pular para frente dos holofotes em casos de repercussão como este.

8. Concorrência: Se algum dia houve uma oportunidade da concorrência quebrar o monopólio da Globo nas transmissões esportivas, principalmente no futebol, é esta. Não só o Darth Vader esportivo está sob ataque, como a própria Estrela da Morte encontra-se enfraquecida em si, bem como estão alguns de seus principais parceiros. A concorrência (leia-se ESPN, Fox e TBS/Esporte Interativo) pode agir por três lados:

a.Jornalístico: Usando suas equipes para cobrir com afinco e profundamente o caso. Há gente competente e motivada em número suficiente para fazer bom trabalho investigativo e criar ainda mais embaraços por aqui, sem contar, claro, a cobertura lá nos EUA, pois, afinal, todas são norte-americanas. Por enquanto, só a ESPN tem corrido atrás com um pouco mais de vigor.

b.Legal: O fato de todas serem norte-americanas abre outro possível flanco de ataque. Dentre o monte de leis imperialistas que os EUA possuem, deve ter alguma que diz que empresas estadunidenses prejudicadas em seus negócios por atos de corrupção perpetrados por concorrentes podem processá-las por lá. Se resolverem botar aqueles advogados formados em Harvard, Yale e Stanford para processar a Globo em solo americano, só as despesas legais serão um abalo considerável para as finanças dos Marinho.

c.Inteligência: Se pode contratar advogados e botar os coleguinhas para apurar, a concorrência também pode contratar empresas internacionais de investigação tipo Kroll, Pinkerton e outras para correr atrás em paralelo ao FBI. Talvez seja exagero, mas pode ser que, na avaliação das matrizes da ESPN, TBS e Fox, o mercado do futebol brasileiro valha o investimento.

9. Governo: Já mandou investigar, mas dado que a PF tem notórias e históricas relações amistosas com a CBF, o ministro José Eduardo Cardozo terá que vigiar de perto – e, talvez, até chutar alguns traseiros – para o pessoal trabalhar direito. E é bom que o ministro da Justiça faça isso porque, como no caso do MP, também terá seu trabalho comparado ao de Mrs. Lynch, para quem, como já se viu, do pescoço para cima, tudo é canela. Agora, tem que ver primeiro se o governo vai querer mesmo correr atrás. A dúvida vem do fato de que este governo (assim como seu antecessor) sempre tratou os “barões da mídia” com luvas de pelica e rapapés, apesar de estes devolverem as gentilezas com mordidas, pontapés e cusparadas.

10. Veículos de comunicação: Vamos ver se os veículos vão seguir o antigo preceito do baronato midiático segundo o qual barão não pode falar mal de barão. A dúvida vale, principalmente, para Estadão, Folha e IstoÉ, já que Globo e Época, por motivos óbvios, e Veja, por questões de estratégia política, vão seguir o mandamento ao pé da letra.

11. Coleguinhas: Situação difícil. Os que trabalham na Rede Globo, principalmente no esporte, ficarão de crista baixa (o resto que labuta no Grupo também, mas menos), pois não deve ser fácil manter a cabeça erguida ganhando o pão numa empresa suspeita de corrupção (talvez possam pegar umas lições com a galera da Petrobras, mas acho que o pessoal não vai querer muita conversa). E precisar falar sobre o caso fingindo que não têm nada com ele não vai ajudar nem um pouco a elevar o moral. Já os coleguinhas da concorrência poderão curtir a desgraça alheia (uma das grandes felicidades humanas), se estão de longe, mas o pessoal do Esporte ficará com um pé atrás – afinal, emprego não está fácil e a Globo ainda será parte importante do mercado por um longo tempo.