Mapa do Tesouro 2 – Onde encontrar mais jornalismo de qualidade na internet

Cento de dezessete compartilhamentos, 259 reações, 14.991 pessoas alcançadas. Caramba, sabia que a galera estava sedenta de jornalismo de qualidade, mas só tive ideia de quanto ao publicar, antes de sair de férias, post com uma lista personalíssima de sites que considero fazer um bom trabalho em Bruzundanga-Bananão e ter o retorno citado. Diante da resposta, e também por ter lembrado de um monte de outros sites legais, publico o Mapa do Tesouro 2. Como o primeiro, é muito pessoal, de sites que curto e/ou acho importantes, e por isso não vai ser completo nunca e não agradará a todos. Espero mesmo que você faça a sua lista – e se quiser compartilhar comigo, ficarei feliz e honrado.

Então, vamos lá.
Geledés: Ser negro no Brasil é terrível, mas tem coisa pior: ser mulher negra. Daí a importância do Geledés Instituto da Mulher Negra, entidade que existe fará 29 anos em abril próximo e tem como foco principal (mas não único) as questões que tocam esta parcela da sociedade daqui.

Ponte Jornalismo: É tiro, porrada e bomba. Não podia ser diferente num veículo especializado em cobrir segurança pública, direitos humanos e justiça em Bruzundanga-Bananão. Seu enorme time de jornalistas e colaboradores de diversas áreas produz matérias a respeito de assuntos que a grande imprensa hegemônica (ou grande, ou corporativa, nunca sei como tratar…Mas você entendeu) prefere ignorar – e, quando não o faz, prefere o viés criminalizante. A Ponte tem uma parceria forte com o site da Carta Capital, revista que lhe publica o conteúdo, num modelo que devia ser explicado no site de ambos.

Consultor Jurídico: Em 2010, segundo a OAB, Bruzundanga-Bananão tinha 1.240 cursos de direito contra 1.100 de todos os outros países do mundo somados e embolados. Assim, não é de admirar que haja um monte de sites (sem falar de blogs) sobre Direito. O mais antigo é o veteraníssimo Consultor Jurídico, que a Dublê Editorial mantém na rede desde 1997 (só um ano mais novo que a Coleguinhas, portanto), tendo construído grande credibilidade durante esses 20 anos e também desenvolvido os Anuários de Justiça cujo foco são tribunais superiores (STF, STJ, TST, TSE e STM), na Justiça Federal, Tribunais Regionais do Trabalho e na Justiça Estadual (TJ-SP, TJ-RJ, TJ-MG e TJ-RS).

Jota: Criado por seis jornalistas e um engenheiro de telecomunicações, é o mais diversificado nos serviços que oferece, indo da simples assinatura até cobertura de fusões e análise de riscos.

Justificando: O slogan é “mentes inquietas pensam Direito” e por isso é o único que não usa terno e gravata todo o tempo, apresentando vídeos bem-humorados no “Explica aí” e no “Coisas que você precisa saber”. Tem parceria com a Carta Capital, como a Ponte, com quem forma uma boa dupla para aqueles que pretendem ter uma visão ampla da Justiça em Bruzundanga-Bananão.

Congresso em Foco: Escrevi (no primeiro Mapa do Tesouro) que sites políticos não entravam na lista. Isso queria dizer sites com viés para um lado do espectro político. Não é o caso do Congresso em Foco. Na rede desde fevereiro de 2004, é o mais antigo dos sites que focalizam o dia a dia da política de Bruzundanga-Bananão. É tão conceituado que o prêmio que distribui anualmente como reconhecimento aos parlamentares que honram os votos que receberam é colocado no currículo dos vencedores. Vive de anúncios e de assinaturas, as quais dão direito à revista, em versões impressa e digital, que começou a circular em 2011.

Poder360: Reivindica o título de “operação jornalística nativa digital sobre política e assuntos do poder mais antiga em atividade contínua na internet brasileira”, por ter entrado em rede em 18 de abril de 2000. É uma afirmação discutível, já que era apenas uma página de política escrita pelo megapremiado (e, às vezes, polêmico) Fernando Rodrigues, hoje diretor de redação. Como Poder360 mesmo, não tem nem um ano (passou a ter este nome em novembro passado). A par disso, é um site que procura enfocar mais a análise da política, embora também cubra o dia a dia do Congresso, uma linha que parece ser mais forte ainda no serviço Drive Premium, voltado para empresas. (Aviso: o editor, Tales Faria, é amigo de quase 30 anos).

Os Divergentes: Tales também faz parte deste interessante…hããã…”blog coletivo”?… Bem, seja o que for reúne outros quatro jornalistas com larga quilometragem na cobertura de política – Andrei Meireles, Helena Chagas, Ivanir José Bortot e Orlando Brito. A análise é a força quase exclusiva deste site, cuja apresentação é hilária.

Farol Reportagem: Como a Agência Sportlight, do Lúcio de Castro (citado no Mapa do Tesouro 1), é veículo de um homem só, no caso Lúcio Lambranho, catarinense que trabalhou em Brasília (inclusive no Congresso em Foco), e resolveu voltar pra terrinha. O foco é Santa Catarina, mas, às vezes, espraia para o âmbito nacional. O site foi indicado pela leitora Andréa Lenora, de Floripa. Muito legal isso e dou força para você fazer o mesmo – mande uma sugestão que eu dou uma olhada e se achar que vale, boto numa futura lista. Não tem garantia de aparecer numa, mas que vou lá, vou.

Farol Jornalismo: Seguindo fachos de farol, damos com este aqui. Só que não é site, é uma newsletter semanal editada pelo casal Marcela Donini e Moreno Osório, cujo foco total é especular e analisar os caminhos do jornalismo – até porque Marcela e Moreno são jornalistas intelectuais mesmo, professores e tudo o mais. Sou assinante antigo e cocei o bolso para ajudá-los a manter o bom (e praticamente único por aqui) trabalho.

Objethos: Já que entrei na seara dos jornalistas intelectuais falo deste site, formado exclusivamente por pesquisadores das federais de Santa Catarina (onde surgiu, no departamento de Jornalismo, claro), Paraná e Fluminense (Niterói). O foco absoluto é a ética jornalística e faz parte da Rede Nacional de Observatórios (Renoi), que, para falar a verdade, não tinha a menor ideia que existia e parece mortinha, já que as últimas postagens são de 2013. Aviso: uma das pesquisadoras associadas é Sylvia Moretzohn, amiga de 30 anos.

Observatório da Imprensa: Falar de observatório e jornalismo tem que falar do dinossáurico OI – surgiu em abril de 96, mês e pouco antes da Coleguinhas, tendo ainda uma versão impressa na época. Dirigido pela lenda do jornalismo brasileiro Alberto Dines, tem o apoio do Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo e projeto original do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mas andou malzinho das pernas, tendo que fazer um crowdfunding para se manter (colaborei e até ganhei camiseta). Ao que parece, porém, já está em forma de novo, apesar de, devido à mudança nos ventos políticos, tenha sido banido da EBC, tanto na TV quanto no rádio. Aviso: a chefe de redação do programa de TV era Emília Ferraz, amiga de…Ah! Você já sabe de quanto tempo.

O caminhão que atropelou a Folha

Bi-bi!!

Bi-bi!!

Foi muito divertido. Sacanear jornal, em especial a Folha, é sempre legal. Só que não passou disso, fazer festa com a cara daquele pessoal cheio de si, vizinho da Boca do Lixo. Não teve nada de “teoria da conspiração”, jogos de sutilezas, mensagens subliminares e coisa e tal, apenas incompetência e um processo industrial que induziria ao erro até gente bem mais competente do que os editores folhosos e de outros jornais.

Deve ter acontecido mais ou menos assim (os profissionais de redação podem parar de ler aqui, pois o que se segue é o dia a dia, não tem novidade, só vale para quem não é jornalista; é, mas nunca viveu um fechamento, ou é estudante).

Por volta das 18 horas começaram a chegar os primeiros informes sobre o atentado em Nice. A ordem foi baixar tudo o que já estivesse quase pronto. A página do anúncio deve ter sido uma dessas – e ele não devia estar sendo visto pela diagramação (não conheço o sistema da Folha, mas é possível que se veja apenas o anúncio “riscado” e não ele em si, mas, mesmo que seja, não faria diferença para a sequência dos eventos).

Assim, quando chegaram informações mais consistentes sobre a tragédia, inclusive a de que a arma fora um caminhão, a página com o anúncio já escorrera do cérebro de quem a tinha diagramado – que pode nem ter sido quem fechou a dedicada ao atentado. Toda a atenção, todo o foco, estava em fechar a página “quente” (na verdade, pelando) no horário (por volta das 20h30, no caso da edição nacional, cuja primeira fecha por volta das 21h). A prova de que foi mais ou menos dessa maneira é que a página do atentado é típica daquelas feitas em cima da hora: fotão (ou duas fotos grandes) no alto, com o título e uma matéria de tamanho médio, com os detalhes básicos e alguma pesquisa.

Descido o primeiro clichê no horário (ou quase), começou-se, imediatamente – no máximo depois de uma ida ao banheiro e/ou um café – a edição do segundo. Aqui duas possibilidades:

1. O sistema da Folha permite que a página do primeiro clichê seja vista no modo wysiwyg (acrônimo em inglês de “o que você vê é o que você tem”), ou seja, como a página foi impressa. Se tiver sido assim, percebeu-se logo o desastre.

2. O sistema só deixa ver o anúncio riscado como no primeiro clichê. Neste caso, a crise só foi detonada lá pelas 23h, quando o primeiro clichê foi levado à redação e o secretário teve tempo de olhá-lo, depois de todos terem desacelerado do tumulto do fechamento. E aí foi um salve-se-quem-puder de novo.

Meu palpite é que ocorreu a segunda hipótese. É que alguns colegas informaram que, na edição que circulou em São Paulo, o lugar do anúncio foi tomado por avisos e editais, um desperdício de espaço em página ímpar (as páginas mais caras de um impresso por serem as primeiras em que pousamos os olhos ao folheá-las). Na edição paulista, o anúncio foi pra contracapa do primeiro caderno (“cabeça” no jargão).

OOPS!!

OOPS!!

Certo, houve incompetência no processo – a boa norma (e a prudência) diz que o editor deve dar uma olhada nos anúncios que vão em suas páginas para não dar sopa pro azar -, mas o problema foi mesmo a falta de filtros provocada pelo enxugamento das redações, o que aumenta enormemente a probabilidade de erros em um processo de per si já totalmente endoidecido que é o fechamento de uma edição diária de jornal.

Pensando bem, está aí um bom assunto para o ombudsman abordar na edição de amanhã, né?

“Estou me formando em jornalismo. E agora?”

A estagiária está preocupada com a própria sustentabilidade, agora que vai se formar. Inteligente (muito), antenada (por demais), sabe que o sonho de minha geração – ter um emprego numa grande redação – foi pro espaço há tempos (esta dolorosa matéria de Dale Mahabridge conta o que sobrou desse sonho) e que o jornalismo independente é o caminho. Ok, mas como é que se vai viver de jornalismo independente no Bananão? Por aqui, na prática, jornalismo e independência são uma contradição em termos.

Como em geral acontece com as questões que ela – e os meus outros “filhos” – me propõem não tenho respostas claras – isso quando tenho algum tipo de resposta. Este é precisamente o caso aqui. No máximo, posso dar umas ideias e dicas de onde procurar inspiração. Um lugar é o repositório de palestras do Newsgeist.

O Newsgeist é um evento que reúne dezenas de profissionais, teóricos e empreendedores na Universidade do Arizona (normalmente) para discutir sobre o futuro e os impasses da profissão e do mercado. A ação mesmo ocorre nos encontros informais nos corredores, mas há palestras estilo TED, só que de apenas cinco minutos e não 15.

As palestras ficam guardadas no youtube e lá você pode encontrar, por exemplo, a de Mizel Stewart, do Journal Media Group, sobre jornalismo local, publicidade e criação de valor. Stewart sugere que o jornalismo mais viável hoje é o local, mas que um veículo só tem condições de sobreviver se superar a ideia de vender anúncio e passar a oferecer ao seu público, além de notícias bem apuradas (em todas as mídias), uma experiência completa. O que vem a ser isto? Não fica lá muito claro, mas tem a ver com o modelo de negócios do…Starbucks.

De uma maneira que considero complementar, o agitado professor Robert Hernandez, da Universidade do Sul da California-Annenberg, tenta mostrar o que o rapper canadense Drake tem a ensinar aos jornalistas sobre como sobreviver num mundo em que, goste-se ou não, as redes sociais são centrais na distribuição de informação. Ele dá dicas do que acredita ser o foco do jornalismo neste mundo e de como os profissionais devem relacionar-se com os seus parceiros forçados, o pessoal de tecnologia.

Outra pista talvez possa ser achada na lista de 128 projetos jornalísticos da Europa que o Google escolheu para ajudar financeiramente, como forma de fazer boa figura diante dos europeus depois de anos brigando com os meios de comunicação de lá por causa do Google News.

Como se vê, o jornalismo em si não está morto, bem ao contrário, mas como se fará para praticá-lo e não passar fome (e ficar verde de náusea e raiva) no processo? Essas são as perguntas que simplesmente me deixam perplexo e me sentindo um tanto em falta com a minha estagiária.

O Direito de Resposta, a confiança e o Estado Democrático de Direito

A Coleguinhas desta semana foi terceirizada. A coluna ficará em melhores mãos, no caso nas de minha irmã, Andréa Alves de Sá. Doutora em Direito – com tese orientada pelo ministro do Supremo Luiz Edson Fachin – e professora da matéria, Andréa escreveu, a meu pedido, um artigo sobre a Lei do Direito de Resposta.

É um texto conceitual, de doutrina, no qual ela mostra de maneira didática, sem apelar para o juridiquês, o porquê da existência do Direito de Resposta em si. Você vai notar que o raciocínio de minha irmã é rigoroso e lógico, bem diferente dos meus escritos, que demonstram claramente a zorra que é a minha mente.

O texto de Andréa ficou tão bom que já pedi a ela um segundo, com foco nas objeções levantadas pelos veículos de comunicação, por seus colunistas amestrados e por certas instituições de jornalistas que parecem não saber direito de que lado estão (ou sabem muito bem..). Não sei se ela vai conseguir tempo para escrevê-lo. Se não tiver fá-lo-ei eu mesmo, contando com a supervisão dela (aí vocês veriam a diferença de nível). Por enquanto, porém, fiquem com a aula de minha mana.

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O DIREITO DE RESPOSTA, A CONFIANÇA E O ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO

Andréa Alves de Sá
No dia 12de novembro, a presidenta Dilma Rousseff sancionou a lei regulamentadora do Direito de Resposta ( 13.188/2015). A lei objetiva organizar o conjunto de definições e procedimentos que, sendo seguidos, cause um impacto social nas relações entre os veículos de comunicação social, não importando qual seja seu suporte – físico ou virtual – e o público. A lei, no entanto,é silente – não sem razão – sobre o fundamento essencial de toda comunicação feita ao público: o Princípio da Confiança.

Esse princípio permeia toda e qualquer relação contratual, e é bastante claro: o contrato é um acordo entre partes cujo objetivo é efetivar o fim almejado. Assim, em palavras simples, as partes envolvidas no contrato devem apresentar um comportamento voltado ao cumprimento do acordo. Óbvio, não é? Afinal, se as partes não quisessem alcançar a finalidade do contrato, não teriam razão de contratar.

Este singelo princípio fundamenta todos os demais: boa-fé contratual, transparência, honestidade, lealdade, e justifica aos que estudam o Direito debruçarem-se sobre as situações nas quais existe uma quebra desta confiança, chamada defeitos ou vícios do negócio, quando a vontade estabelecida no contrato está, de alguma maneira, alterada.

Para que fique clara a confiança, porém, é necessário entender o objeto do contrato, ou aquilo sobre o qual o contrato vai recair. Existem, na realidade, sempre dois objetos: o imediato, ou seja, o comportamento esperado, de parte a parte, para concluir com êxito o contrato, e o mediato, que é o objeto material ou imaterial em si mesmo, sobre o qual vai recair o acordo. Assim, quando pegamos um ônibus que anuncia, em seu letreiro, que se destina a um determinado local, estamos contratando um serviço de transporte de massa, cujo objeto mediato é a passagem, e o imediato, o transporte em si. Então, quando entramos em um ônibus para ir até Madureira, CONFIAMOS queo ônibus não vá parar em Niterói ou outro lugar, ou seja, a confiança integra o objeto imediato – o comportamento esperado pelo comprador da passagem – de que a empresa o leve, são e salvo, ao lugar esperado, escrito no letreiro.

Assim, na realidade,as relações contratuais cotidianas são baseadas em dois pontos:

1. Que a outra parte aja,com sua expertise,no sentido de alcançar o que se propõe a fazer e nós desejamos;

2. Que o aquilo que é anunciado, e não outra coisa, acontecerá. Esta é a mola propulsora de todos os contratos modernos.

A razão pela qual os contratos passaram a ter esse princípio,na Era Moderna, está na consciência de que não poderia passar a existir,e ser mantido, um Estado Democrático de Direito sem que houvesse a confiança do corpo social de que as coisas aconteceriam de uma maneira e não de outra. Por isso, foram criadas as leis escritas, codificadas. A dúvida deveria ser deixada para trás, lá na era dos reis absolutistas, cujo direito vinha de Deus, que, por definição, é insondável à razão e, portanto à discussão, humana. Dessa forma, a Modernidade e suas leis foram construídas sobre os princípios da Confiança e Boa-fé Contratual.

Como se aplicam estes dois princípios à Lei 13.188/2015? Este diploma legal é uma lei procedimental muito clara e simples, e é apenas isso: uma lei que estabelece normas de procedimentos para um ditame da Constituição, defendendo-o da quebra no Princípio da Confiança que permeia a relação os veículos de comunicação e o público. O Direito de Resposta é, portanto, uma consequência da quebra desta confiança e tem por objetivo reparar esta falha de comportamento.

O que os veículos de comunicação vendem, o objeto imediato deste contrato, é a confiança. Confiamos que estamos comprando – por meio de dinheiro ou de atenção, – um suporte (jornais, revistas, sites, apps, os objetos mediatos) onde iremos encontrar os FATOS ,expostos de todos os ângulos possíveis de se obter por meios honestos e condizentes com a ética moral comum à vida em sociedade – ou seja, sem apelar para o logro ou à infringência da lei.

Ora, os veículos de comunicação, nos seus ataques à Lei 13.188/2015 restringem a questão ao que acontece ao objeto mediato, o suporte, que, segundo sua tese, poderia ser utilizado da maneira que eles o desejem, mesmo que isso venha a prejudicar o Princípio da Confiança, que, como vimos, é a base de qualquer contrato sob um Estado Democrático de Direito. O objeto essencial e imediato do contrato entre o veículo de comunicação e o seu público se baseia na confiança de que os fatos serão expostos com o máximo de lealdade, para que o leitor/ouvinte/telespectador/internauta, sabedor dos fatos, tenha condições de construir sua própria opinião.

Portanto, creio, salvo melhor juízo, que uma opinião acerca da nova lei deve basear-se nos princípios norteadores dos contratos: Confiança, Boa-fé, Lealdade, Honestidade eTransparência. Afinal, o direito de ser intermediário entre o que acontece no mundo e nós é concedido, pelos cidadãos, a algumas pessoas e instituições, num contrato que tem por alicerce estes pressupostos, que, caso sofram danos, devem ser restaurados por meio de diplomas legais como este que garante o Direito de Resposta.
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Peneirando a PBM-2015 (IX) – Confiança (internet)

Calma, que está quase acabando…Esta é a última parte do escovamento da parte da PBM-2015 que fala da confiança nos meios e é sobre a internet. IMHO (quem está na Rede há algum tempo sabe o que significa o acrônimo; quem não é, deve procurar na wikipedia para elevar o nível de ilustração internética) é a parte mais fraca da pesquisa por que ela junta, em apenas três categorias – sites, blogs e redes sociais –, uma miríade de nichos e possibilidades de cruzamentos.

De que tipo de sites estamos falando? De empresas jornalísticas tradicionais? Daquelas nativas da internet (tipo Vox, Gawker, Huff Post, Vice etc)? De sites de portais? E blogs? Daqueles, tipo Coleguinhas, mantidos por um sujeito metido a gato mestre, ou daqueles com grife, de cabeças coroadas do jornalismo e apoio de equipe? Redes Sociais? Mas se elas têm funções e públicos alvos diferentes, tipo Facebook, zap-zap, Instagram, Snapchat, Twitter… Complica fazer análise, né?

Mesmo com todos esses senões, dá para constatar que a internet, como um todo, não goza de muita confiança do distinto. Talvez esse fato fosse de se esperar para um meio tão novo e mutante, mas, creio, ficou exacerbado aqui no Bananão pelo fato de que esta pesquisa foi realizada logo depois do final daquela carnificina midiática que foi o processo eleitoral do ano passado -e que continuou este ano, assim, teremos oportunidade de fazer uma comparação interessante com a PBM de 2016 (se é que ela vai haver, com os cortes do Levy), e não só no meio internet.

Bem, então vamos aos gráficos.

09_tabelas e gráficos_sites

Os sites são, na média, um pouco mais confiáveis do que os blogs e as redes, muito provavelmente pela inclusão dos sites de empresas jornalísticas, tradicionais ou não. Eles devem ter feito subir para 30% o índice de confiabilidade.

Nos sites aparece um ponto que é ainda mais forte nos resultados de blogs e redes: quanto mais idosa a faixa, mais há não respondentes sobre confiança. Assim, na faixa acima de 65 anos, apenas 86% responderam ao questionário (32% confiam/confiam muito, 56% não confiam/confiam pouco), ou seja 12% deixaram de opinar sobre suas crença (ou falta de) nos sites – para efeito de comparação, sobre o meio jornal houve apenas 2% de não respondentes. O fato parece indicar que as pessoas mais idosas não sabem bem o que pensar desse bicho chamado internet.

10_tabelas e gráficos_blogs

Blogs têm a confiança de apenas 25% na média (mas 29% entre os acima de 65 anos, quase alcançando o índice dos sites). O índice de não respondentes ao questionário é ainda maior do que o encontrado no que se refere aos sites – chegando a 16% na faixa acima de 65 anos.

 

11_tabelas e gráficos_redes

 

Sobre as redes sociais, os respondentes da PBM-2015 têm uma opinião mais firme – em todas as faixas o índice de resposta está abaixo de 10% -, mas ela é tão ruim quanto àquela referente aos blogs: apenas 26%, na média, confiam no que leem (e, possivelmente, no que veem) na rede. Também na faixa acima dos 65, a índice de não respondentes atingiu 16%.

 

No geral, pode-se inferir que as más notícias para internet são boas para os meios tradicionais, lhes dando um fôlego a mais na luta pela sobrevivência. Mas só poderíamos ter certeza maior disso com o cruzamento com outras pesquisas do gênero, e, claro, com a melhora da clareza neste campo da PBM-2016, se ela vier mesmo a ocorrer.

Muito, muito além dos impressos

Essa vai ser uma coluna extensa. talvez não pelo que está escrito –  só vou saber se por isso também quando acabar de escrevê-la -, mas pelo vídeo abaixo – no qual faço uma aparição-relâmpago – que, espero, você verá (a partir dos 5:40 segundos), pois é a partir dele que o texto de estrutura. Então, vamos lá assistir ao Observatório da Imprensa levado ao ar no 15 de setembro.

 


Viu? Bom. Apesar do altíssimo nível dos debatedores, ficou-me a sensação de que toda a discussão está mal endereçada (muito devido ao mediador Alberto Dines). Os quatro, em maior ou menor grau, falam do jornalismo como se os veículos impressos tivessem um futuro viável. Infelizmente (para quem gosta da “sensação tátil” de jornais e revistas) isso não é verdade. O jornalismo impresso não vai acabar de vez, mas vai se tornar, pouco a pouco (ou, mais provável, muito a muito) um nicho – da mesma forma que a invenção da imprensa não acabou imediatamente com a produção de iluminuras, que só desapareceram (será? De repente, tem gente ainda fazendo por aí) um ou dois séculos depois de Gutemberg ter dado a luz a sua Bíblia.

Esse fato já está acontecendo em centros um pouco mais avançados na adoção da internet e seu filhote caçula e mais dileto, o dispositivo móvel. Em artigo de fins de 2013, o “newssosaur” Alan D.Mutter mostrava como estava a situação dos impressos nos Estados Unidos há dois anos, quando a circulação dos jornais baixou ao nível dos anos 40. Uma situação que tem se tornado realidade aqui, como demonstra a queda de circulação dos jornais da Infoglobo, que publiquei há duas semanas.

Essa decadência dos impressos será acelerada com o avanço das megaempresas de internet sobre seu mercado antes cativo. Semana passada, já tinha tocado no Mentions, o app do Facebook que permite aos jornalistas enviarem vídeos em tempo real para a plataforma, como o Periscope, do Twitter (com sua versão nova, com visão horizontal). Pois na semana passada, Mr. Zuckerberg lançou o Signal, app que ajuda os coleguinhas (e outros trabalhadores em mídia digital) a descobrir o que está rolando de quente na plataforma e usar as informações não só como pauta, como também como fonte de dados. Essa é a diferença entre o Signal e os “trending topics” twitterianos, que não podem ser gravados para uso posterior (até mesmo em veículos impressos, ora veja). Como no caso do Mentions, só quem for reconhecido como jornalista pelo FB (é uma espécie de diploma concedido sem estudo ou registro, né?) poderá acessar o Signal.

Diante da agitação do FB, a Apple houve por bem meter a sua colher neste pirão e lançou o News, um agregador de conteúdo, como o bom e velho Flipboard. É uma força a mais para que os “publishers” passem a usar a mídia digital em vez da impressa. Maquiavelicamente, a Apple também passou a permitir bloqueadores de anúncios no Safari, o browser nativo do iOS, o que detona a maior forma de descolar grana dos veículos, o quais, no entanto, entram nessa como ‘dano colateral” – o alvo mesmo é o Google e seus anúncios. “Sorry, baby”, mas para conseguir algum dinheiro dos usuários de iphone/ipad de volta você, “publisher”, terá que trabalhar dentro do News, onde poderá apresentar seus anúncios sem serem bloqqueados pela módica de porcentagem de 30%. Salgado? Então tente o Instant Article do FB, que nada cobra de anúncios (ainda).

Enfim…Você entendeu, certo? A discussão sobre o jornalismo inclui até o impresso, sem dúvida, mas vai muito, muito além. E já está mais do que na hora de nós, jornalistas que trabalham no Bananão, entrar nela sob uma perspectiva mais abrangente.

Peneirando a PBM-2015 (VII) – Confiança (Geral)

Eu disse que esta seria a última coluna sobre os números da PBM-2015, certo? Bem, só que não. É que olhando os dados sobre a confiança depositada pelos usuários de cada meio – é disso que trata uma parte da PBM -, vi que não seria bom tratar tudo num único texto, porque ele ficaria enorme, o que, junto com os tradicionais tabelas e gráficos, o faria ilegível. Assim, haverá uma coluna geral (esta) e uma para cada meio.

Para começar, quatro notas metodológicas (tudo isso, meu Deus?):

1. A PBM utiliza um gradiente que vai do “confia” ao “não confia”. Aqui, resolvi juntar “confia” com “confia muitas vezes” e “não confia” com “confia poucas vezes”, pois, creio que facilita a visualização. Há, é claro, a questão de que, para um meio de comunicação, cujo produto se baseia totalmente na credibilidade, só poderia existir o “confia” ou “não confia”. No entanto, é preciso ver que é cada meio é julgado como um todo e não cada veículo específico, e isso deve ser sempre levado em conta na hora de olhar os números sobre confiança.

2. Da mesma forma, os números sobre confiança referem-se apenas aos usuários de cada meio. Assim, os dados devem ser cruzados com os índices de leitura de cada um deles para ver até que ponto eles são mais ou menos influentes.

3. Diferente das outras, esta coluna fará uma comparação com a PBM-2014 a fim de dar uma contextualização melhor, até porque há algumas mudanças notáveis de um ano para o outro.

4. Nesse campo é importante também dizer que a PBM é de 2015, ano em que foi lançada, mas os números se referem a 2014, assim como os números da versão 2014 foram obtidos em 2013. É meio óbvio isso, mas como, dessa vez, há uma comparação explícita entre as duas pesquisas, resolvi enfatizar isso.

Um último ponto antes de passarmos às tabelas e gráficos (sei que você mal pode se conter de tanta ansiedade, mas aguente ainda um pouco). Dependendo de como andar o ímpeto cascatal dos coleguinhas das redações pode ser que tenha que interromper a numeralha para realizar a sexta seletiva do King of the Kings-2015 – sei que você sentirá tanto quanto eu, mas não posso deixar as cascatas se acumularem, sob pena de termos mais um mês só de cascatas, ok?

Isto tudo posto, vamos aos nossos queridos números, finalmente.

CONFIANÇA NAS NOTÍCIAS ACESSADAS (POR MEIO, EM %)

01_tabela_confiança_geral_confia

02_gráfico_confiança_geral_confia

03_tabela_confiança_geral_nao confia

04_gráfico_confiança_geral_nao confia

Alguns pontos de destaque (também pretensiosamente chamados de análise)

1. O percentual de confiança cresceu em todos os meios de 2013 (PBM-2014) para 2014 (PBM-2015). Suspeito que a cobertura da eleição tenha a ver com isso – como as pessoas procuram se informar mais, eles tendem a crer naquilo que leem/veem/ouvem (não teria sentido ir procurar informação para descrer muito ou totalmente dela). Precisa ver como esses números evoluem com o passar dos anos, o que, de resto, vale para toda a pesquisa PBM.

2. O destaque, em termos aumento de confiança, foi o meio revista, com acréscimo de 14 pontos percentuais em um ano. Um contingente migrou do “confia pouco” para o “confia muito”, que são as categorias contíguas (4 pp), mas não foi a maior parte. É um argumento mercadológico em favor da cobertura cascatal das revistas de informação, mas precisaria ver se foi esse tipo de revista que cresceu na confiança do público. Há ainda o ponto de que o meio, como já vimos, não é muito lido (2% do total da amostra da PBM, na média Brasil), o que faz o seu público ser mais fiel e, portanto, mais crente (como está nos pés da tabela e na nota metodológica 2 – você leu, né? – , o percentual foi tirado daqueles que acessam o meio e não do total geral da amostra). Mesmo com esse salto todo, porém, há mais gente desacreditando no que lê (52%) do que acreditando (44%).

3. Jornal e TV também não fizeram feio no que se refere ao aumento de confiança de 2013 para 2014, com crescimento de 5 pp cada um, contingente este vindo todo de “confia pouco” para “confia muito”. Ao contrário das revistas, porém, mais gente acreditava  no que lia nos jornais em 2014  (58%) e na TV (54%) do que desacreditando – 40% e 45%, respetivamente.

4. A internet, representada aqui por sites, redes sociais e blogs, apenas oscilaram dois ou 3 pontos percentuais de 2013 para 2014.

5. A internet, aliás, sofre de um problema de credibilidade. Na média dos três representantes, o meio teve 24,67% de confiança em 2013, subindo para 27% no ano seguinte, o que, convenhamos, ainda é muito ruim. E desse problema não escapam nem os sites, muitos deles de grandes companhias de mídia. Parece ser uma dificuldade do meio em si.

6. Uma questão a ser observada na comparação entre os níveis de confiança da chamada “mídia tradicional” com a “nova mídia” é que, com exceção dos sites, a internet não “vende” credibilidade propriamente. Ninguém espera que alguém que, a cada 10 posts, fala de seus gatos em cinco e do que comeu de manhã em três, tenha a mesma credibilidade ao analisar o momento político nacional e a questão de gênero nos outros dois. Ao contrário, quando você lê numa edição impressa da Veja ou assiste a um programa da Globonews espera-se exatamente isso – e o fato influencia favoravelmente, em termos de credibilidade, como a pessoa enxerga aquilo que é escrito, lido ou falado em cada um desses suportes. Por outro lado, quando essa expectativa é quebrada, dificilmente se recupera, creio. Enfim, essa questão ainda está à espera de pesquisas e estudos mais aprofundados (alô, pessoal da Academia! Vamos mexer esses traseiros, vamos?) e das próximas PBMs.

7. Por enquanto, o que dá para dizer é que, sim, o meio no qual uma notícia é veiculada importa.

8. Outro ponto são os cortes. Nas próximas colunas, vamos pegar esse viés da PBM-2015 mostrando como anda a credibilidade de cada meio por faixa etária, renda familiar, escolaridade e região. Ora, anime-se! Vai dar um trabalho danado pra ler, eu sei, mas pense no que vou ter organizando tudo. Viu? Podia ser pior.