O jornalismo brasileiro não é mais o que era (e não voltará a ser) – III

O presidente desta triste República disse que os jornalistas são uma raça em extinção. Que ele diga isso, expressando sua conhecida alma tirânica, não chega a surpreender. Também não me causou comoção os comentários a respeito dos dois posts anteriores (aqui e aqui), a maior parte de leigos em jornalismo, que não compreendem suas especificidades, objetivos e limites. Para estes, o jornalismo – e, por conseguinte, os jornalistas – já acabaram no país, se é que um dia existiram. Desagradável mesmo foi ver jornalistas profissionais, até acadêmicos, achando a mesma coisa, tomando por base apenas as posições das empresas jornalísticas – cujas motivações foram o objeto dos posts citados – e as ações do próprio indigitado presidente, que se diverte em xingar os profissionais que o abordam na porta do Palácio do Planalto.

Todos esses – presidente protofascista, leigos que acham que entendem de jornalismo e colegas e acadêmicos que entendem, mas estão tendo ataques de amnésia – confundem, por querer ou não, jornalismo com aquilo que é praticado desde sempre por aqui por empresas jornalísticas. Só que uma coisa não tem necessariamente a ver com a outra no sentido positivo, de reforço. Pelo contrário, se formos olhar a história dos veículos de comunicação no país, a relação, quando há, é mais no sentido negativo – de impedimento – do que positivo, do ponto de vista da sociedade.

Pois esse é o ponto. Jornalismo é bom quando é feito em benefício da sociedade, na defesa dos que são mais fracos e vulneráveis, e, necessariamente, contra o poder Lembra da frase do Millôr? “Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”. Pois é. E, partindo desse ponto de vista, o jornalismo no Brasil está vivo e chutando.

Duvida? Então, por clique aqui e veja uma lista de 58 veículos feitos por jornalistas brasileiros independentes que praticam a profissão segundo a premissa acima – há ainda a versão em português de oito veículos internacionais de diversas vertentes (e aqui tem outra lista, mais antiga). Há de quase tudo – dos que abordam infraestrutura até promoção da cultura da paz, passando por jornalismo de dados, política e justiça. Pode-se até não gostar da linha de um ou outro, mas é bem difícil arranjar argumentos sólidos para discordar de que eles não trabalham visando uma sociedade brasileira mais justa.

“O jornalismo pátrio, então, está forte e pujante?”, perguntará você. Bem, eu não disse isso.
Não disse isso por que, para ser forte e pujante, o jornalismo, como qualquer atividade no capitalismo, precisa ser seguro financeiramente, o que está longe de ser verdade para aqueles 58 veículos independentes acima e, por consequência, para os profissionais que nele trabalham. Chegar ao fim do mês, pagar as contas da empresa e ainda sobrar para os produtores das matérias pagarem as despesas com supermercado, aluguel, escola das crianças e demais boletos é um desafio permanente. Vulneráveis estão também, mesmo em escala menor, é bom que se diga, os jornalistas de veículos grandes, como mostram os dados da Conta dos Passaralhos, do VoltData, mesmo que os dados estejam defasados desde agosto de 2018 (e houve centenas de demissões de lá para cá).

Como o jornalismo independente pode tornar-se autossustentável financeiramente? Pois essa é a pergunta de 1 milhão de dólares. Não tenho respostas (se tivesse teria o milhão de verdinhas, ora!), mas há algumas ideias básicas que podem ser seguidas, ao mesmo tempo, pois não são mutuamente excludentes:

  1. Financiamento coletivo: O famoso “crowdfunding” é muito usado para apoio de projetos específicos ou para manutenção mesmo. Há possibilidade de aportes anuais ou mensais, via assinatura por meio de plataformas como Apoia.se, Benfeitoria, Catarse, Kickante, Vaquinha ou sistemas próprios…O problema é que há projetos muito bons e nós, ao apoiadores, ficamos perdidos na hora de dar aquela força (eu, por exemplo, estou há tempos para fazer uma planilha a fim de saber certinho quem estou apoiando, com quanto e em que periodicidade). Esse fracionamento faz com que a arrecadação regular não seja a desejável, mesmo na forma de assinatura, que tem sido a preferida dos sites.
  2. Dividir as contas: Outro caminho para a sustentabilidade é dividir espaços e contas para que esses custos fixos se diluam e fiquem mais leves para todos. Um espaço de coworking para veículos e jornalistas independentes me parece uma boa ideia, até para melhorar o trabalho em parceria em pautas que unam habilidades de vários jornalistas, viabilizando mais e melhores pautas.
  3. Agregar de notícias (e valor): Se seria bom dividir espaço físico por que não um agregador de notícias, aqueles apps que funcionam como revistas ou jornais personalizados, como Flipboard, Anews, Feedly (o meu), Google News e outros? Estar em alguns deles também é uma boa opção, mas seria ainda melhor se fosse criado uma apenas para mídia alternativa, não?
  4. Administração: Levar sério a administração devia até ser o item 1. Ter um bom profissional de finanças e planejamento é fundamental para que o veículo seja autossustentável. No caso de haver o tal coworking, esse seria gerido por uma pessoa à parte ou por um conselho formado pelos administradores dos veículos participantes.

Como escrevi acima, essas são as ideias básicas, apenas pontos de partida para a estruturação de um jornalismo independente mais estruturado no país. Essa diretriz é fundamental se ainda quisermos que o jornalismo, e seus profissionais, contribuam para a manutenção da democracia no Brasil, transformando-o num país mais justo.

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