O jornalismo brasileiro não é mais o que era (e não voltará a ser) – I

Mengoooo!!!!

A demissão de Adalberto Neto, do Jornal de Bairros do Globo, por ter divulgado um vídeo que fez do editor de esportes do jornal, Márvio dos Anjos, correndo pela redação com a camisa do Flamengo, que depois tirou, comemorando o gol que deu o título da Libertadores da América ao rubro-negro, e a resposta tíbia da Folha ao ataque de Jair Bolsonaro, que mandou cancelar as assinaturas da Folha no âmbito do Executivo federal – no que voltou atrás rapidamente – e ameaçou os anunciantes do jornal, deixaram muitos jornalistas, principalmente da velha guarda, perplexos e zangados.

As reações dos colegas são explicáveis na medida em que partem de premissa não exatamente errada, mas, vamos dizer, fora do tempo, démodé (assim como a palavra démodé). Esses jornalistas ainda creem que a atividade profissional que hoje se exerce na chamada mídia corporativa (ou “mídia hegemônica”, ou “grande mídia”, ou “mídia mainstream”, ou algum outro termo que lhe agrade mais) é jornalismo como eles entendiam – e ainda é compreendida em outros lugares do mundo, que, no entanto, vem se reduzido drasticamente nos últimos anos. Esse entendimento é o de que o jornalismo é uma atividade de interesse público, no sentido de que tem por objetivo servir à sociedade em que os veículos e os profissionais estão inseridos.

Infelizmente não é mais assim (se é que um dia foi aqui no Brasil, mas isso é outra discussão). Os veículos de comunicação, hoje, fazem parte de imensos conglomerados de mídia, cujos interesses, em muitos casos, extrapolam esse setor, avançando por outros, até distantes do setor de origem. Vou usar os exemplos do primeiro parágrafo para tentar explicar essa questão e, temo, será uma explicação bem extensa e, por isso, dividirei em duas para que o texto não fique quilométrico

Vou começar com o “affair Márvio dos Anjos”.

Não seria justo O Globo desqualificar, e demitir, o seu editor de Esportes porque ele foi escolhido para o cargo exatamente por portar-se daquele jeito. A devoção de Márvio ao Flamengo é inversamente proporcional ao seu discernimento e acuidade intelectual, e essas características faziam parte do job description informal para o cargo.

Márvio está perfeitamente alinhado – como se diz no jargão corporativo – ao objetivo do Grupo Globo de transformar o Flamengo numa marca internacional, senão em nível mundial – embora esse seja o sonho dourado – pelo menos em nível de Américas. Essa intenção tem a ver com dois movimentos independentes, um corporativo, outro demográfico. O primeiro é a cada vez maior presença de plataformas de streaming que disputam a nossa atenção, um dos ativos mais valiosos do mundo digital, uma tendência que o Grupo Globo vem procurando seguir e que está na base também do projeto “Uma só Globo”, que está rodando há um ano. No momento, ele não abrange o Infoglobo, mas, dada a convergência digital, fatalmente o atingirá.

Um dos ativos mais significativos, ao lado da teledramaturgia e da produção cinematográfica, do Grupo Globo é exatamente o futebol. Ter um clube brasileiro entre os maiores do mundo é fundamental para o conglomerado, numa emulação do que foi, ironicamente, a política dos “campeões nacionais” do PT para o setor industrial. Não que a Globo acredite que o Flamengo, ou qualquer outro clube de um país da periferia do mundo (e cada mais afundado nela) possa competir, em termos financeiros ou de inserção na cadeia da indústria cultural global com Real, Barcelona, os grandes da Premier League, Bayern ou outro de países centrais, mas há espaço para conseguir um lugarzinho ao sol aproveitando o segundo movimento que mencionei no parágrafo anterior: a diáspora brasileira.

Aos poucos, mas seguramente, o Brasil tornou-se uma nação da qual se quer ir embora rapidamente se for possível e para a qual não se deseja voltar se der para evitar. As razões são mais do que evidentes, não precisam ser explicadas aqui. Essa diáspora, que só tende a aumentar nos próximos anos quanto mais o país se afundar na lama em que jogou em 2016, criou um mercado para o Grupo Globo. São os brasileiros que, com banzo da terrinha, se apegarão às boas recordações do que deixaram para trás e uma delas, claro, é o futebol.

Ter um clube brasileiro entre os mais conhecidos do mundo é a ponta de lança para que o produto futebol seja vendido a essa crescente comunidade de expatriados – e, em sua esteira, outros. Claro que seria melhor não haver apenas um clube e por isso, no plano original, a outra perna do projeto era o Corinthians. Infelizmente (para o Grupo Globo), o clube paulista apostou no cavalo errado no páreo político (o PT), enquanto o Flamengo comprou pules da extrema-direita e levou o prêmio. É da vida, jogo jogado. Além disso, o Timão bem pode ser substituído pelo Palmeiras, que também mantém excelentes relações com a extrema-direita desde os tempos do Integralismo (o verde do uniforme – usado depois que o azul, identificado com a Itália, durante os anos 20 e 30 passou a sê-lo com o Fascismo – está longe de ser acaso).

Esta é a maneira como o Grupo Globo pensa em se inserir nas cadeias de valor do capitalismo internacional e reflete a maneira como os Marinho vêm a própria inserção do país – não mais que um fornecedor de matéria-prima, que, se tudo der certo, se torna uma potência regional caudatária dos EUA e, em alguns casos, da União Europeia. Para levar esse projeto adiante, pessoas como Márvio dos Anjos, que pensam na mesma linha – ou não pensam de forma alguma – são necessárias. Tê-lo, um rubro-negro fanático, na editoria do principal jornal do Grupo, faz sentido, mesmo que exagere na sua adesão ao programa, correndo o risco de levantar a ponta dessa cortina, que deve ser mantida bem cerrada.

No próximo texto, veremos como o Grupo Folha vai pelo mesmo caminho, mas partindo de outro ponto, que leva a uma inserção ainda mais profunda nas correntes do capitalismo internacional.