A tragédia e os gatos-mestres do jornalismo

Nessa semana, não tive cabeça para fazer contas e analisar gráficos e o texto vai ser curto. Como quase todo mundo (veremos que nem todos), fiquei abalado pela tragédia do voo da Chapecoense e mais ainda porque nela morreu um velho amigo. Se já estava mal, fiquei ainda pior ao me deparar com casos descontrolados e, ao que parece, incuráveis, do Transtorno do Gato-Mestre (TGM). A gato-mestrice pode ser descrita como a insopitável vontade de dar palpites sobre assuntos a respeito do qual nada se entende e/ou procurar lados obscuros de temas que são ou foram muito debatidos, não para descobrir realmente algo novo ou contribuir para o aumento do conhecimento sobre eles, mas apenas para parecer inteligente e, recentemente, em busca de cliques e curtidas.

Como é possível depreender da descrição, a TGM tende a atacar em maior escala algumas profissões, destacando-se, dentre elas, o jornalismo – eu mesmo sou um exemplo com 20 anos de existência. Alguns profissionais, no entanto, quando desenvolvem a TGM, tornam-se casos agudos e, com frequência, sem remissão. Tive a infelicidade de me deparar com alguns assim nessa semana, sendo o mais grave o de certo coleguinha que, em sua página no Facebook (plataforma que está para a gato-mestrice como os ratos estiveram para a Peste Negra), perguntou quem tinha pagado a passagem dos companheiros de profissão mortos no desastre.

Apoiado por seus iguais – os gatos-mestres, em geral, andam em bando, numa relação de cooperação e rivalidade das mais interessantes para quem aprecia os aspectos psicológicos das relações humanas -, o coleguinha trouxe à baila a questão como forma de demonstrar (como se ainda fosse necessário diante do que se passa no país há anos) que as empresas jornalísticas têm interesses ocultos além daqueles de informar o público de maneira fidedigna. Não lhe passou pela cabeça, porém, por exemplo, levantar a questão sobre como eram os contratos de trabalho dos colegas mortos, pois, se forem de pessoas jurídicas, abrir-se-á (também sei usar mesóclise, não é difícil) brecha para que os patrões eximam-se de pagar indenizações trabalhistas. Esta possibilidade foi levantada por outro colega, amigo de quatro das vítimas e que, apesar de sua ampla capacidade profissional, é notavelmente resiliente à gato-mestrice. Ele, como eu, sobrevive há tempo demais no ramo e sabe do que são capazes os “barões da mídia”. Por que o coleguinha não pensou nisso? Porque isso não o faz parecer mais “esperto”, “crítico”, “atento”, blá-blá-blá, e não lhe aumenta o número de curtidas e/ou seguidores (as)

Como tratei do assunto com o gato-mestre? De maneira civilizada e gentil, mandei-o se foder.

Enfim, meu amigo foi enterrado hoje. Descansará em paz, enquanto continuarei por aqui, neste vale de lágrimas, até chegar a minha vez. Por que chegará a vez de todos, até dos gatos-mestres.

Um comentário sobre “A tragédia e os gatos-mestres do jornalismo

  1. Todos ficamos mal. Lamento as perdas coletivas e a tua, no particular

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