O caminhão que atropelou a Folha

Bi-bi!!

Bi-bi!!

Foi muito divertido. Sacanear jornal, em especial a Folha, é sempre legal. Só que não passou disso, fazer festa com a cara daquele pessoal cheio de si, vizinho da Boca do Lixo. Não teve nada de “teoria da conspiração”, jogos de sutilezas, mensagens subliminares e coisa e tal, apenas incompetência e um processo industrial que induziria ao erro até gente bem mais competente do que os editores folhosos e de outros jornais.

Deve ter acontecido mais ou menos assim (os profissionais de redação podem parar de ler aqui, pois o que se segue é o dia a dia, não tem novidade, só vale para quem não é jornalista; é, mas nunca viveu um fechamento, ou é estudante).

Por volta das 18 horas começaram a chegar os primeiros informes sobre o atentado em Nice. A ordem foi baixar tudo o que já estivesse quase pronto. A página do anúncio deve ter sido uma dessas – e ele não devia estar sendo visto pela diagramação (não conheço o sistema da Folha, mas é possível que se veja apenas o anúncio “riscado” e não ele em si, mas, mesmo que seja, não faria diferença para a sequência dos eventos).

Assim, quando chegaram informações mais consistentes sobre a tragédia, inclusive a de que a arma fora um caminhão, a página com o anúncio já escorrera do cérebro de quem a tinha diagramado – que pode nem ter sido quem fechou a dedicada ao atentado. Toda a atenção, todo o foco, estava em fechar a página “quente” (na verdade, pelando) no horário (por volta das 20h30, no caso da edição nacional, cuja primeira fecha por volta das 21h). A prova de que foi mais ou menos dessa maneira é que a página do atentado é típica daquelas feitas em cima da hora: fotão (ou duas fotos grandes) no alto, com o título e uma matéria de tamanho médio, com os detalhes básicos e alguma pesquisa.

Descido o primeiro clichê no horário (ou quase), começou-se, imediatamente – no máximo depois de uma ida ao banheiro e/ou um café – a edição do segundo. Aqui duas possibilidades:

1. O sistema da Folha permite que a página do primeiro clichê seja vista no modo wysiwyg (acrônimo em inglês de “o que você vê é o que você tem”), ou seja, como a página foi impressa. Se tiver sido assim, percebeu-se logo o desastre.

2. O sistema só deixa ver o anúncio riscado como no primeiro clichê. Neste caso, a crise só foi detonada lá pelas 23h, quando o primeiro clichê foi levado à redação e o secretário teve tempo de olhá-lo, depois de todos terem desacelerado do tumulto do fechamento. E aí foi um salve-se-quem-puder de novo.

Meu palpite é que ocorreu a segunda hipótese. É que alguns colegas informaram que, na edição que circulou em São Paulo, o lugar do anúncio foi tomado por avisos e editais, um desperdício de espaço em página ímpar (as páginas mais caras de um impresso por serem as primeiras em que pousamos os olhos ao folheá-las). Na edição paulista, o anúncio foi pra contracapa do primeiro caderno (“cabeça” no jargão).

OOPS!!

OOPS!!

Certo, houve incompetência no processo – a boa norma (e a prudência) diz que o editor deve dar uma olhada nos anúncios que vão em suas páginas para não dar sopa pro azar -, mas o problema foi mesmo a falta de filtros provocada pelo enxugamento das redações, o que aumenta enormemente a probabilidade de erros em um processo de per si já totalmente endoidecido que é o fechamento de uma edição diária de jornal.

Pensando bem, está aí um bom assunto para o ombudsman abordar na edição de amanhã, né?

Anúncios

2 comentários sobre “O caminhão que atropelou a Folha

  1. Interessante o texto, esclarecedor pra quem não é da área. Mas não posso deixar de registrar que o pior que a Folha faz não é o que passa batido, mas sim o que é publicado conscientemente…

  2. Minha nossa, seja qual for o processo

Os comentários estão desativados.