A pesquisa do Pew Research Center e o mercado de mídia nos EUA

Esta semana vamos dar uma olhada no levantamento do Pew Research Center, mas não em todo ele, pois é enorme e, além disso, completamente focado no mercado dos EUA, diferentemente do realizado pelo Instituto Reuters, que expus semana passada e abrange 26 países. Assim, vou aprofundar apenas o meio jornal, cujo mercado guarda mais semelhança com o nosso – o de TV aberta daqui é distorcido pelo quase monopólio da Rede Globo, enquanto o de TV paga não tem o peso que tem lá. De qualquer forma, você pode baixar o estudo completo e ainda dar uma olhada na base de dados. A geral e a análise serão baseadas na tradução (muito) livre das realizadas pelos autores do relatório, que você pode conferir no original.

Então, vamos lá.

AUDIÊNCIA (IMPRESSO)

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Desde 2008, quando o mundo caiu da última vez, os jornais estadunidenses, sob pressão incessante, tiveram que se virar para manter-se à tona e mudar a maneira de fazer negócios de uma maneira que afetaram os seus leitores, mesmo aqueles que não têm ideia de como se dirige um veículo impresso.

E a coisa não parece estar melhorando: em 2015, os jornais tiveram seu pior ano desde o período imediatamente posterior ao “crash”. A circulação dos veículos diários sofreu um tombo de 7% em relação a 2014, nos dias de semana, o maior declínio desde 2010. A edição impressa caiu 9%, mas a elevação de 2% no acesso às edições digitais deu uma melhorada nesse aspecto. As edições dominicais caíram menos (4%), mas já vinham de outra redução (de 3%), em 2014 – e, como no caso dos dias de semana, o problema concentrou-se na edição impressa (menos 5%), pois as edições digitais até cresceram 4%. Estas reduções cortaram as esperanças dos editores, que, depois de uma redução nas perdas pós-2009, chegaram a ver um crescimento geral em 2013.

A edição impressa é mesmo um problema, pois, apesar do seu declínio, 76% do total da circulação ainda é oriunda do jornal de papel, nos dias de semana, e 86% aos domingos. Estes números demonstram a resiliência do veículo impresso (51% ainda leem jornais somente dessa maneira, conforme gráfico abaixo), mas não contam a história toda – ao contrário de uma década atrás, o jornal impresso não é mais o meio de acesso primário às notícias, perdendo até para o rádio: primariamente, os estadunidenses acessam notícias mais por rádio (20% contra 25%) e fontes digitais (sites e apps) – 28% -, sem contar TV.

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AUDIÊNCIA (DIGITAL)

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No mundo online, a audiência dos jornais continua caminhando em direção aos aparelhos móveis. Conforme mostra o gráfico acima, os visitantes únicos cresceram em mais da metade dos 50 maiores jornais dos EUA, mas em níveis diferentes para desktops e mobiles. Para 39 dos 50 sites estudados, houve queda entre os desktops – com 28 caindo 10% ou mais -, enquanto os visitantes únicos por meio de smartphones e tablets cresceram em 43 nos mesmos 50, sendo 10% ou mais em 35 deles.

Essa é a notícia boa. A ruim é que o tempo despendido pelos visitantes deste s sites – medida fundamental para os anunciantes – caiu entre os mobiles. No geral, até houve uma elevação do tempo em que os leitores ficaram nos sites em mais da metade dos pesquisados (em 32 houve acréscimo de 10% nas visitas por meio de desktops), no entanto, em 34 foi observada queda entre os aparelhos móveis.

Como dito acima, os acessos aos jornais por meio de aparelhos móveis superam em muito os oriundos pela versão impressa, apesar das pessoas dizerem que preferem ler os veículos impressos. Esta contradição fica muito clara aqui – dos 49 jornais que têm edição dominical (o Wall Street Journal não circula aos domingos), o número de visitantes únicos supera o de assinantes em até 78 vezes, segundo relatórios referentes ao terceiro trimestre de 2015. Esta discrepância mostra claramente o maior desafio dos jornais: transformar aquele internauta que dá com os costados no site por acaso – e por isso não despende muito tempo nele – em assinante, um cara que, em geral, fica mais tempo no sítio, lendo mais do que uma simples matéria.

 

RECEITAS

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Como a Associação Nacional dos Jornais dos EUA decidiu parar de divulgar as estatísticas de receita dos seus associados em 2013 (me pergunto o motivo…), os pesquisadores do PRC tiveram que usar outros dados para descobrir o faturamento dos jornais. Apelaram então as demonstrações das empresas com ações negociadas em bolsa (que, aliás, caíram de nove para sete nos últimos 10 anos). Estas companhias representam um quarto dos veículos em circulação por lá – não dá para calcular o total de receita, mas pode-se usar como parâmetro para o estudo de tendência.

Com base nestes dados, descobre-se que, em 2015, a indústria de jornais teve a sua maior queda em termos de receita desde o biênio 2008/2009, um tombo de 8% em anúncios (contra 15%, em 2008, e 27%, no exercício seguinte), com um minúsculo aumento de 1% no faturamento vindo da circulação. A situação poderia ter sido pior não fosse o crescimento das receitas de anúncios vindos das edições digitais. Segundo as cinco empresas que desagregam os dados entre estas e as não-digitais nos relatórios para a SEC (a CVM de lá), houve uma queda de 9,9% no faturamento nos anúncios “analógicos” contra redução de 1,7% nos digitais, em 2015. Dessa maneira, a publicidade digital passou a ser responsável por 25% do que entrou nos cofres das companhias nesta rubrica, crescimento de 8 pontos percentuais em cinco anos (gráfico abaixo).

201606_State-of-the-News-Media-Report-2016-participação em anúncios

 

 

EMPREGO E NÚMERO DE VEÍCULOS

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Diante deste quadro, não é de espantar que o nível de emprego nas redações estadunidenses tenha caído. Os números com que a Pew trabalha são do censo realizado pela Sociedade Americana de Editores, cujo último levantamento foi realizado em 2014. Neste ano, a redução da força de trabalho foi de 10% em relação a 2013, quando já houvera um decréscimo de 3% em relação ao ano anterior. O número total de postos de trabalho nas redações dos EUA há dois anos atingia 32.900, uma perda de 20 mil postos de trabalho entre 1994 e 2004, representando 39% a menos jornalistas nas redações. O gênero, neste  caso, não fez diferença – as mulheres perderam tanto o emprego quanto os homens (mas continuam como minoria nas redações de lá – cerca de 35% são coleguinhas do sexo feminino. No quesito diversidade, os não-brancos perderam um pouco menos emprego, enquanto a percentagem deles continua em 13% nas redações.

Também era esperado o fechamento de jornais por dificuldades econômicas. Segundo os últimos números disponíveis, de 2014, havia 1.331 jornais com edições em dias de semana nos EUA, contra 1.457, em 2004 (-8,6%), redução que se estendeu àqueles que têm edições de domingo separadas, conforme o gráfico abaixo.

201606_State-of-the-News-Media-Report-2016 - número de jornais

 

 

Basicamente é isso. Como falei, porém, tem muito mais números de onde vieram estes. Dou a maior força para que você baixe o estudo pelo link lá de cima para dar uma estudada, pois, apesar das diferenças marcantes entre o mercado dos EUA e o do Bananão, alguns indicativos e desafios são os mesmos.

 

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