“Estou me formando em jornalismo. E agora?”

A estagiária está preocupada com a própria sustentabilidade, agora que vai se formar. Inteligente (muito), antenada (por demais), sabe que o sonho de minha geração – ter um emprego numa grande redação – foi pro espaço há tempos (esta dolorosa matéria de Dale Mahabridge conta o que sobrou desse sonho) e que o jornalismo independente é o caminho. Ok, mas como é que se vai viver de jornalismo independente no Bananão? Por aqui, na prática, jornalismo e independência são uma contradição em termos.

Como em geral acontece com as questões que ela – e os meus outros “filhos” – me propõem não tenho respostas claras – isso quando tenho algum tipo de resposta. Este é precisamente o caso aqui. No máximo, posso dar umas ideias e dicas de onde procurar inspiração. Um lugar é o repositório de palestras do Newsgeist.

O Newsgeist é um evento que reúne dezenas de profissionais, teóricos e empreendedores na Universidade do Arizona (normalmente) para discutir sobre o futuro e os impasses da profissão e do mercado. A ação mesmo ocorre nos encontros informais nos corredores, mas há palestras estilo TED, só que de apenas cinco minutos e não 15.

As palestras ficam guardadas no youtube e lá você pode encontrar, por exemplo, a de Mizel Stewart, do Journal Media Group, sobre jornalismo local, publicidade e criação de valor. Stewart sugere que o jornalismo mais viável hoje é o local, mas que um veículo só tem condições de sobreviver se superar a ideia de vender anúncio e passar a oferecer ao seu público, além de notícias bem apuradas (em todas as mídias), uma experiência completa. O que vem a ser isto? Não fica lá muito claro, mas tem a ver com o modelo de negócios do…Starbucks.

De uma maneira que considero complementar, o agitado professor Robert Hernandez, da Universidade do Sul da California-Annenberg, tenta mostrar o que o rapper canadense Drake tem a ensinar aos jornalistas sobre como sobreviver num mundo em que, goste-se ou não, as redes sociais são centrais na distribuição de informação. Ele dá dicas do que acredita ser o foco do jornalismo neste mundo e de como os profissionais devem relacionar-se com os seus parceiros forçados, o pessoal de tecnologia.

Outra pista talvez possa ser achada na lista de 128 projetos jornalísticos da Europa que o Google escolheu para ajudar financeiramente, como forma de fazer boa figura diante dos europeus depois de anos brigando com os meios de comunicação de lá por causa do Google News.

Como se vê, o jornalismo em si não está morto, bem ao contrário, mas como se fará para praticá-lo e não passar fome (e ficar verde de náusea e raiva) no processo? Essas são as perguntas que simplesmente me deixam perplexo e me sentindo um tanto em falta com a minha estagiária.