Tiro longo

A defenestração de Eurípedes Alcântara da chefia de redação da Veja, compreensivelmente, chamou a atenção dos coleguinhas na semana que passou. No entanto, a mudança fundamental ocorreu no escalão mais alto do Grupo Abril, com a saída de Giancarlo Civita da presidência da empresa e a contratação do publicitário Walter Longo para o cargo.

Longo é respeitado na área de publicidade, onde se destaca como palestrante. Do público de fora da confraria, ficou um tanto mais conhecido após ser o braço-direito de Roberto Justus no reality “O Aprendiz”, onde suas frases de efeito faziam sucesso entre aspirantes coxinhas a grandes executivos. Não será a primeira vez que Longo trabalhará na Abril – nos anos 90, foi chamado para salvar a TVA (para quem não se lembra ou nem era nascido, a aventura da Abril na área de televisão paga) do naufrágio. Não conseguiu, talvez por ter se dedicado mais à prestidigitação com números a fim de elevar a confiança do mercado publicitário do que em realmente produzir algo.

Dessa vez, a missão de Longo é ainda mais ingrata. Ele tem em mãos um grupo cujo produto principal foi apanhado bem no meio da revolução digital sem muito tempo para se defender – e nem, demonstrou-se ao longo dos anos, capacidade para tal. A situação da Abril é muito ruim, para dizer o mínimo. Revista, como conhecemos hoje, é um produto mantido por aparelhos, virtualmente (com trocadilho) morto num tempo em que o fluxo de informações não se mede mais por dias, mas por horas e até mesmo minutos.

Assim, a missão do publicitário é tocar, em ritmo de marcha forçada, a migração das revistas que sobraram da Editora Abril para o digital. Mas não é só isso (o que já seria complicado, pois a rota para o digital é cheia de abrolhos e redemoinhos ainda não foram mapeados). O meio Revista (assim como o jornal) apresenta todo um caríssimo esquema de apoio nas áreas de impressão e distribuição. São imensos parques gráficos e um sistema de logística especializado em fazer os exemplares chegarem a tempo e a hora nas mãos dos assinantes. O que fazer com todo esse esquema agora que não é necessário mais imprimir nada e a distribuição é feita diretamente no aparelho móvel nas mãos do leitor? Vender? Para quem, se é o meio todo que está indo pelo ralo?

Ruim, né? Mas tem mais.

Walter Longo terá que cumprir sua missão sem dinheiro e sob dois fogos. De um lado, o governo federal, que impôs cerco publicitário depois daquela capa inacreditável da edição da Veja no fim de semana da eleição de 2014. O governo só mudará a estratégia se for completamente tapado. Até por sua deficiência em leituras teóricas, Nove-Dedos achou que os “barões da mídia” eram apenas inimigos políticos com os quais se podia negociar. Não são. Marinhos, Frias, Mesquitas, Sirotskys etc são inimigos de classe, eles realmente têm desprezo por quem está abaixo deles na escala social – o que inclui a parte da classe média que tanto os veem como exemplo -, o qual se transforma em ódio quando membros das “classes perigosas” exigem seus direitos como seres humanos. O atual governo, composto por gente que, pelo menos supostamente, leu ao menos os livros fundamentais, não terá desculpa se cometer o mesmo erro de N-D.

Só que o cerco publicitário nem é o maior problema de Longo. Pior é o “fogo amigo” que poderá vir da pesadíssima artilharia do Naspers.

O Naspers é um grupo sul-africano de mídia, a maior companhia da África (toda, de qualquer setor) e a sétima maior do mundo em internet, que ajudou a criar e, por décadas, apoiou (e cresceu sob) o regime do “apartheid”. Em 2006, o grupo comprou, por R$ 868 milhões (pouco mais de R$ 1,5 bilhão, corrigido pelo IPCA até janeiro deste ano) 30% do capital do Grupo Abril. Por anos, fiéis a sua história, os sul-africanos fingiram que não viram a política dos Civita de atacar os governos que promovem a inclusão social no país.

Só que tem uma coisa que o Naspers detesta mais do que não-brancos – é perder dinheiro. Até 2010, quando as empresas brasileiras foram obrigadas a adotar a International Financial Reporting Standards (IFRS), as normas de contabilidade internacionais, os Civita ainda conseguiram dar uma enrolada nos sul-africanos. No entanto, depois que as normas permitiram a comparação de resultados, viu-se a situação desastrosa e que a Abril se encontrava, o que foi devidamente registrado em 2014 pelos auditores independentes.

O susto dos sul-africanos foi grande e a pressão começou. No fim do ano passado, como previsto no relatório da auditoria, os Civita tiveram que se coçar e bancar 70% das dívidas, o que deu R$ 450 milhões. Ainda assim, sobrou para o Naspers, que, óbvio, não gostou nada e manteve a pressão sobre a família, que, por fim, teve que largar o osso. No caso, nas mãos de Longo, que, agora, terá que apresentar resultados reais. E bem rápido.

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9 comentários sobre “Tiro longo

  1. Suas análises e sínteses são excelentes! Acredito que um texto assim deveria aparecer no Tijolaço, Luís Nassif, Paulo Henrique Amorim, Viomundo, Blog da Cidadania, Altamiro Borges e outros blogs estimados. A imprensa oligarco-sionista jamais o faria.

    • Obrigado, Adriano. Algumas vezes, o Adir Tavares faz a gentileza de reproduzir alguns textos no Nassif. Estão todos à disposição .

    • imprensa oligarco-sionista? esquerda hitlerista? onde foi que chegamos e para onde iremos? nao quero nem ver.

  2. Troca de comando às vésperas da publicação do balanço nunca foi bom sinal. Para uma empresa que estava em situação pré-falimentar no ano passado é quase uma declaração de fechamento das portas. Quando a Abril publicar os demonstrativos financeiros nas próximas semanas, teremos uma confirmação se o aporte de capital serviu apenas para adiar uma inevitável falência ou se ela ainda terá fôlego por mais um ano.

  3. O texto é muito bom e com sustentação. Aproveitei em ronaldmansur.blogspot.com.br. Já tenho 17 acessos.

  4. Pelo visto,na Abril,o período de Longo será curto.

  5. Os seus comentários são muito bons. Mas você não acha que, com o PT atolado nesses escândalos, reais e inventados, e com a crise econômica, não existe uma perspectiva razoável desses tucanos recuperarem o poder e “aliviarem” a situação da mídia? Resta saber se haverá recursos para satisfazer Globo, Abril, Folha, Estadão,Istoé , dentre outros.

    • Essa é a aposta deles. Só que, creio, vão apenas prolongar a agonia. A questão é cultural e estrutural – esse povo simplesmente não sabe viver num ambiente de concorrência real, como enfrenta agora com os meios nativos digitais. Sem contar que jogaram fora a maior parte da inteligência e experiência que poderiam ajudar a reerguê-los após voltarem a receber o mensalão jornalístico federal .

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