A luz sobre o jornalismo do Bananão que vem do cinema

“Personally I’m of the opinion that for the paper to best perform its function it needs to, uh, stand alone.” (Marty Baron, em “Spotlight”)

“(..) esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada” (Maria Judith Brito, presidente da ANJ e executiva da Folha de São Paulo, em 2010)

As falas de Marty Baron, ali pelos 30 minutos de “Spotlight”, e a de Maria Judith Brito, publicada no Globo em 2010 e jamais desmentida, acaba com qualquer veleidade de comparação entre o jornalismo praticado no filme de Tom McCarthy e o que vemos no Brasil. Seria como comparar o basquete da NBA e da NBB – há três árbitros, que apitam sob as mesmas regras básicas, o objetivo é botar uma bola laranja dentro de um aro com redinha furada pendurada num suporte alto…E ponto, acabaram-se as semelhanças. Tecnicamente, são jogos diferentes.

A diferença entre o compromisso ético e profissional com o trabalho jornalístico que guia o time Spotlight e seus chefes e aquele comportamento com que lidamos no dia a dia no Bananão, resulta no que vemos estampado nas páginas de jornais (e assistimos na TV e ouvimos no rádio) daqui. E essa diferença de comprometimento tem como base as duas frases e no contexto em que elas foram ditas.

A fala de Baron é uma resposta ao cardeal Law no primeiro encontro entre os dois – uma tradição sempre que um editor-chefe assumia o Boston Globe – quando este propõe que seja mantida a colaboração entre Igreja e o jornal, igualmente tradicional. Já a de Maria Judith foi proferida quando ela atacava, em nome da ANJ, o Programa Nacional de Direitos Humanos, lançado naquela época pelo governo.

Há um óbvio choque entre as duas versões do papel do jornalismo que, também obviamente, acaba por refletir-se na atuação diária dos jornalistas. Os profissionais do Boston Globe, claro, se guiam pela premissa de seu editor-chefe, enquanto os empregados dos veículos que fazem parte da ANJ tendem a trabalhar segundo o cânone expresso pela presidente da entidade. Claro que há várias exceções à praxe, mas se quisesse garantir o emprego, um jornalista do Boston Globe sabia que estaria mais seguro seguindo a orientação de Baron, enquanto o de jornal membro da ANJ tentará manter-se o mais próximo possível da orientação de Maria Judith que sua consciência permitir. E, como se sabe, a crise está aí…

Outro ponto de diferença marcante nas duas frases está nas entrelinhas (“leia as entrelinhas” é o slogan que está no cartaz brasileiro de “Spotlight”). Se os veículos se engajam na oposição a um governo, quando a oposição se transformar em governo – algo inevitável numa democracia – segue-se que eles vão apoiá-lo, como o cardeal Law desejava que o Boston Globe continuasse a apoiar a Igreja. Essa cobrança de posição política é repetida em outras situações durante o filme e mostra o perigo para o jornalismo quando os veículos (e os jornalistas) se afastam da receita de Baron em direção à pregada por Maria Judith.

Voltando à crise…Em artigo publicado em seu jornal, o patrão de Maria Judith, Otávio Frias Filho, comentando “Spotlight”, falou da crise pelas quais passam os veículos, a qual seria a culpada pelas falhas dos jornais (assim mesmo, no geral) e cita os cortes na redação do próprio Boston Globe como prova das “transformações” que os jornais estão passando.

Bem, também bem no início do filme, Baron encontra “Robby” Robinson, o editor da equipe Spotlight, e trava-se o seguinte diálogo:

“MARTY
Not necessarily. Uh, but from what I understand readership is down, the Internet is cutting into the Classified business and, uh, I think, uh, I’m going to have to take a hard look at things.

ROBBY
So you anticipate more cuts?

MARTY
I would assume so, yes, but what I’m more focused on right now is finding a way to make this paper essential to its readers.

ROBBY
I’d like to think it already is.

MARTY
Fair enough. I just think we can do better”

A ação se passa entre 2000 e 2002, ou seja, há quase um década e meia, os jornais de lá já se preocupavam com a corrosão de sua base de receita causada pela internet e com a queda do número de leitores. A resposta deles aos problemas foi fazer um jornalismo ainda melhor, tornando o produto indispensável aos leitores. Os “publishers” daqui (e as aspas não são apenas porque a palavra é estrangeira) passaram quase o mesmo período tentando nos convencer que estava tudo bem e, quando isso se tornou impossível, a solução foi (está sendo) tentar derrubar um governo eleito legitimamente a fim de voltar a mamar nas verbas da publicidade oficial federal (nas dos outros estratos governamentais nunca deixaram de mamar). Melhorar o produto, tornando-o essencial para seus consumidores, seja em que plataforma for? Elevar o nível da administração para tornar a empresa mais rentável? Ah…Isso dá trabalho, além de transformar em empresa capitalista um órgão que sempre foi uma gazua ou um pé de cabra de seus donos, com os quais eles iam (vão) para cima dos cofres públicos.

Sem contar que, convenhamos, a Spotlight era um equipe de quatro pessoas, trabalhando feito mouras numa sala apertada, com alguns computadores. O que eles gastaram mesmo em quantidades industriais, pelo que se vê no filme, foi sola de sapato, retinas, sinapses, óleo de peroba (ou seu equivalente de lá), papel e tempo, muito tempo. Tudo bem que tempo é dinheiro, mas, ainda assim, o investimento para produzir uma série que abalou o mundo não foi dos maiores, certo? E é mais ou menos o mesmo  que é gasto em qualquer grande reportagem. Nada que uma grande (ou mesmo média) empresa jornalística brasileira não possa despender.

Assim, diante de tudo isso, só resta a nós, distinto público, ir ao cinema e lá, como se fôssemos uma Cecília, heroína de “A Rosa Púrpura do Cairo”, sonhar com o dia em que um jornalismo de qualidade será praticado no Bananão.