O tempo e o coleguinha

Uma das coisas mais divertidas – quando acontece na área dos outros, claro – é ver como os coleguinhas procuram sempre puxar a “realidade real” para o mundo paralelo das redações. Neste mundo, a Terra gira em 60 minutos em torno de si mesma e 24 horas é ano. Esse comportamento maníaco e arrogante provoca situações hilárias como a que aconteceu na semana passada por ocasião da votação das regras do impeachment pelo STF.

O mais gozado, como tem acontecido com frequência, foi o Merval Pereira. O colunista amestrado do Globo foi do endeusamento do Supremo, após o voto de Édson Fachin, num dia, ao estrebucho contra a Corte, na edição seguinte, quando os outros magistrados derrubaram todos os pontos do membro mais novo do colegiado (abaixo, com direito à estranha “quase unanimidade”). Mas não foi só o nosso colunista-bobo da corte favorito que demonstrou não ter noção – o analista-sabe-tudo Paulo Nogueira, do DCM, fez o mesmo, em sentido contrário, e até uma repórter da TV Globo, na edição do jornal Hoje um dia após o fato, falou como se o voto de Fachin definisse a questão.

 

merval stf

 

O imediatismo sempre foi um problema na relação entre os jornalistas e os seres do mundo real, mas que se agravou com as redes sociais e sua histeria. Se antigamente já era complicado trabalhar com o prazo de 24, agora é quase impossível que os coleguinhas entendam que todo mundo – setores, instituições, pessoas – tem agenda e elas são de médio e longo prazo. Assim, Fachin pode ter achado que seu voto que facilitava o golpe o ajudará, lá na frente, a obter com maior facilidade o avanço em temas que estão em sua agenda. Se pensou assim mesmo, só ele pode dizer – e, se pensou, creio, com todas as vênias de estilo, está incorreto -, mas é plausível.

Tenha ou não o ministro Fachin pensado desta forma, não importa aqui. A questão é que os coleguinhas têm obrigação de, sem tirar os olhos deles, pensar adiante dos fatos. Precisam saber, pelo menos, como funcionam as instituições que estão cobrindo para não dar como certo, por exemplo, que um voto de um ministro de tribunal superior, mesmo sendo o relator, é definitivo. Ou que o fato de uma usina hidrelétrica ou térmica em uma determinada região estar fora de ação não significa que vá faltar energia naquela região.

E nem o fato de que as redações estão cada vez menores com os seguidos passaralhos e, portanto, não comporta mais o setorista ou especialista, serve de desculpa. Consultas razoavelmente bem feitas de menos de um minuto ao Google são, em geral, suficientes para a obtenção de informações básicas sobre um tema não muito bem conhecido. Sem contar que, em caso de necessidade de aprofundamento, há quase sempre um especialista ao alcance de um email para esclarecer melhor a questão, servindo ou não de fonte para as matérias.

Há muitos coleguinhas nas redações – e o número tem crescido – acreditando que basta apenas bater no governo e agradar os políticos e empresários amigos da casa para garantir o emprego. Essa estratégia pode funcionar um ano, talvez dois, mas é muito complicado – precisa-se uma personalidade com vocação para capacho rara de encontrar e um tanto difícil de desenvolver – para basear uma carreira inteira nela. Pode parecer conselho de “velho homem de imprensa” (e até é mesmo, admito), mas o mais certo, no médio e longo prazos, é apostar no profissionalismo e na honestidade.

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