Bia foi à luta

Eu ia prosseguir com meus números nesta semana, mas esse divertido arranca-rabo entre O Globo e a Bia, neta do Lula, me fez mudar a coluna já engatilhada para esta semana por jogar uma luz sobre as novas relações que vão se construindo entre a mídia e o resto da sociedade – com os jornalistas, por dever de ofício, ficando bem no centro do conflito que cresce.

A meu ver, o desaguisado tem pouco a ver com os fatos terem ocorrido da maneira como uma ou outro contaram (para constar: pode não ter sido como a Bia disse, mas, pela minha experiência com a mesma repórter, o tom agressivo e a arrogância têm toda a chance de terem sido aqueles mesmos). Isso é irrelevante. O que provocou o Direito de Resposta autoconcedido do Globo (há uma ironia aqui, certo?) tem mais a ver com esse parágrafo, retirado de matéria da Vox sobre relação entre a pré-candidatura de Donald Trump e a mídia política norte-americana (numa tradução muuuito livre):

“Esta trepidação tem menos a ver com o fato de Trump mentir do que com a maneira como ele mente. Eles [os jornalistas] não ligam para a mentira propriamente; faz parte do jogo. O que eles não aturam é serem tidos como irrelevantes. Trump não beija o anel. Ele não se incomoda de irritar a mídia. Ele não precisa deles, ou dá o dedo para o que um sábio centrista pensa. Sua desaprovação apenas o fortalece. Os mandachuvas da mídia estão a ponto de serem expostos como espectadores impotentes”.

Foi o fato de ter sido obrigado a se expor na arena de luta política, a sair da tradicional postura olímpica dos meios de comunicação, daquele “não tenho que dar satisfações a ninguém” – tão bem escamoteada quanto expressa pela argumentação em defesa da liberdade de imprensa da maneira que é entendida nas redações – por uma garota de 16 anos, uma “millennial” de corpo e alma, que enfureceu mesmo o jornal. E ela ainda teve a petulância de mandar para o segundo jornal vendido do país o mesmo recado que o NWA enviou para a polícia de Los Angeles (a partir de 1:56).

Bia simplesmente pautou o jornal dos Marinho (como fez comigo, como você deve estar pensando, corretamente). Além de ter feito O Globo a vir a público se explicar, o fez desvelar uma parte do processo de produção de uma matéria – algo que os jornalistas também não gostam de exibir ao distinto público –  ao mesmo tempo que a desmoralizou, pois nada do que está escrito tem mais relevância (se é que algum dia teve, do que eu duvido), já que será lido com o viés do arranca-rabo. Este tornou-se a pauta a ponto de ter sido, por obrigação, citado no pé da matéria.

Não dá para esconder: enfrentar uma “millennial”, no campo dela, com as regras dela – e que, para mal de todos os pecados, ainda é da família do inimigo político mortal de seus patrões –, foi demais para os mandachuvas da redação do Globo.

9 comentários sobre “Bia foi à luta

  1. Parabéns. O problema é que esse comportamento dos repórteres esta se tornando cada vez mais comum.

  2. Isso me lembra do Fatos e Dados, da Petrobras, que causou reboliço quando foi lançado (pesquisei aqui e parece que foi em 2009! pára, tempo). Independentemente de quem “tem razão”, é interessante como ficamos incomodados quando alguém resolve interferir – legitimamente – no nosso processo de produção e, por consequência, no controle que queremos ter sobre a condução da matéria.

    • Citei o F&D em uma resposta à Régis Farr na Coleguinhas. É caso parecido sim, assim como, de certa forma, o BNDES e suas respostas. Uma pena é que esta não seja uma norma de ação do governo, mas apenas iniciativas isoladas – ainda existe um medo dos meios de comunicação que está se tornando a cada dia mais irracional, como mostrou a menina e o Donald Trump (aliás, recomendo ler o artigo da Vox e também um outro chamado “Access denied”, que está na TL da Coleguinhas).

  3. Achei a menininha (não sabia da existência) uma legítima filhote de molusco. Perdi alguma coisa?

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