Muito, muito além dos impressos

Essa vai ser uma coluna extensa. talvez não pelo que está escrito –  só vou saber se por isso também quando acabar de escrevê-la -, mas pelo vídeo abaixo – no qual faço uma aparição-relâmpago – que, espero, você verá (a partir dos 5:40 segundos), pois é a partir dele que o texto de estrutura. Então, vamos lá assistir ao Observatório da Imprensa levado ao ar no 15 de setembro.

 


Viu? Bom. Apesar do altíssimo nível dos debatedores, ficou-me a sensação de que toda a discussão está mal endereçada (muito devido ao mediador Alberto Dines). Os quatro, em maior ou menor grau, falam do jornalismo como se os veículos impressos tivessem um futuro viável. Infelizmente (para quem gosta da “sensação tátil” de jornais e revistas) isso não é verdade. O jornalismo impresso não vai acabar de vez, mas vai se tornar, pouco a pouco (ou, mais provável, muito a muito) um nicho – da mesma forma que a invenção da imprensa não acabou imediatamente com a produção de iluminuras, que só desapareceram (será? De repente, tem gente ainda fazendo por aí) um ou dois séculos depois de Gutemberg ter dado a luz a sua Bíblia.

Esse fato já está acontecendo em centros um pouco mais avançados na adoção da internet e seu filhote caçula e mais dileto, o dispositivo móvel. Em artigo de fins de 2013, o “newssosaur” Alan D.Mutter mostrava como estava a situação dos impressos nos Estados Unidos há dois anos, quando a circulação dos jornais baixou ao nível dos anos 40. Uma situação que tem se tornado realidade aqui, como demonstra a queda de circulação dos jornais da Infoglobo, que publiquei há duas semanas.

Essa decadência dos impressos será acelerada com o avanço das megaempresas de internet sobre seu mercado antes cativo. Semana passada, já tinha tocado no Mentions, o app do Facebook que permite aos jornalistas enviarem vídeos em tempo real para a plataforma, como o Periscope, do Twitter (com sua versão nova, com visão horizontal). Pois na semana passada, Mr. Zuckerberg lançou o Signal, app que ajuda os coleguinhas (e outros trabalhadores em mídia digital) a descobrir o que está rolando de quente na plataforma e usar as informações não só como pauta, como também como fonte de dados. Essa é a diferença entre o Signal e os “trending topics” twitterianos, que não podem ser gravados para uso posterior (até mesmo em veículos impressos, ora veja). Como no caso do Mentions, só quem for reconhecido como jornalista pelo FB (é uma espécie de diploma concedido sem estudo ou registro, né?) poderá acessar o Signal.

Diante da agitação do FB, a Apple houve por bem meter a sua colher neste pirão e lançou o News, um agregador de conteúdo, como o bom e velho Flipboard. É uma força a mais para que os “publishers” passem a usar a mídia digital em vez da impressa. Maquiavelicamente, a Apple também passou a permitir bloqueadores de anúncios no Safari, o browser nativo do iOS, o que detona a maior forma de descolar grana dos veículos, o quais, no entanto, entram nessa como ‘dano colateral” – o alvo mesmo é o Google e seus anúncios. “Sorry, baby”, mas para conseguir algum dinheiro dos usuários de iphone/ipad de volta você, “publisher”, terá que trabalhar dentro do News, onde poderá apresentar seus anúncios sem serem bloqqueados pela módica de porcentagem de 30%. Salgado? Então tente o Instant Article do FB, que nada cobra de anúncios (ainda).

Enfim…Você entendeu, certo? A discussão sobre o jornalismo inclui até o impresso, sem dúvida, mas vai muito, muito além. E já está mais do que na hora de nós, jornalistas que trabalham no Bananão, entrar nela sob uma perspectiva mais abrangente.

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