Solução decrépita

Imagine a cena: o senhor feudal acaba de ouvir do mensageiro, cansado e esfaimado, que chegara das fronteiras de suas terras: aquele canalha do Duque de Zucker armara uma puta cavalaria, cercada por um zilhão de infantes, todos comandados pelo condottieri Larry de Bryn, e vinha com tudo para lhe tomar até a última ovelha, cortando-lhe a cabeça no processo.

Ele não tinha o senso tático de Pierre Terrail, senhor de Bayard, mas, que diabos, até ele sabia o que fazer numa situação como essa. Imediatamente, ordenou que seus camponeses recuassem para dentro da primeira muralha, enquanto os cavaleiros tocavam fogo nas plantações de trigo – depois, plantaria tudo de novo, mas precisaria dos camponeses para fazê-lo, por mais que achasse aqueles seres sujos e desbocados a escória que o Senhor pôs na terra.

Pois Frederic Kachar fez exatamente o contrário – botou os camponeses bem na frente da cavalaria e se fechou, com seus cavaleiros, dentro do castelo, sem ter como sair. Pior. Deixou o trigo publicitário intacto, pronto para ser colhido por Zucker, por De Bryn, pela Condessa de Huffington, pelo Senhor de Vice e quem mais queira.

(Más) comparações históricas à parte, o megapassaralho perpetrado no Globo é de uma burrice siderúrgica, como dizia o João Sem Medo. Não só não resolve o problema básico – a esclerose do modelo de negócios – como ainda impede que, lá na frente, na hipótese de o jornal escapar do cerco das máquinas de fazer dinheiro que são as mídias sociais, graças à mãozinha de um governo tucano, ele possa contar com uma equipe preparada para retomar as atividades com um mínimo de qualidade.

Do jeito que ficou, creio que nem o Facebook se anima muito com a parceria “instant articles”. O que O Globo agregaria ao FB? O jornal daria condições a um jornalista de fazer uma matéria como esta?  Nem quem sobrou lá acredita nisso. Daí terem cunhado a expressão ‘ficaralho” – quem ficou, tende a sofrer com a maior carga de trabalho, maior estresse, mais erros, ou seja, trabalho de pior qualidade, que não agrega valor a ninguém.

Como um médico da Idade Média, ao mandar embora boa parte da redação do Infoglobo (e de toda a empresa), Kachar aplicou sangria num doente atacado pela Peste Negra – e deixou o paciente em estado ainda pior.

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4 comentários sobre “Solução decrépita

  1. Sei lá… não vejo os jornalistas tão vítimas dos donos de jornais assim. Na verdade, me parece que alguns (pra não dizer muitos) ficam bem entusiasmados em produzir matérias falsas, distorcer informações e poupar os Tucanos em qualquer circunstância.

    Pode ser que quem está dentro veja outra coisa, mas olhando daqui de fora o panorama é o seguinte: muito jornalista adora a ideia de galgar espaço nas redações batendo no governo e no PT, e não medem esforços pra isso.

    Que outro motivo, que não a motivação pessoal, levaria alguém a publicar – sem nem ao menos apurar – uma ficha falsa da Dilma que circulava em corrente de e-mail? Quem inventaria um sobrinho pro Lula, e mais uma inexistente festa de aniversário suntuosa pra esse sobrinho imaginário, senão alguém querendo agradar patrão? Como o cara tem a inspiração de associar a vida sexual da Dilma à crise (ou vice-versa)? É possível atribuir essas aberrações só à decrepitude dos patrões?

    • Você está tomando a exceção pela regra, professor Alan. A esmagadora maioria dos jornalistas é formada por pais e mães de família honestos, que necessitam do trabalho para viver. Obviamente, exitem os desonestos e arrivistas, como em qualquer profissão, mas não minoria – e, no caso dos jornalistas, são mais facilmente identificáveis do que nas outras profissões, pois assinam o fruto de seu trabalho, na maior parte das vezes.

      • Ok, aceito o seu argumento de que esses profissionais são a exceção. Mas mesmo assim, eles são muuuuitos! A profusão de noticias falsas, distorcidas e bizarras (taí o King of the Kings) é assustadora! Então os bons profissionais simplesmente não tem vez? Os jornalões, revistas e seus portais contratam exclusivamente quem se dispõe a fazer o jogo sujo?

        • Verdade que são muitos, pelo menos o suficiente para fazer o barulho necessário. Os profissionais éticos estão contratados e você pode lê-los/vê-los/ouvi-los no resto da produção diária dos veículos. Na verdade, precisa-se apenas concentrar uns 10, 15 nas editorias de politica e economia e pô-los para fazer matérias estratégicas para se ter o lixo tóxico de que se precisa.

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