Como montar (e desmontar) uma cascata

A coluna abaixo estava pronta para ser publicada semana passada, mas os dados da pesquisa do Reuters Institute fez com que eu adiasse a publicação. Ela marca o começo de uma série de seletivas de cascatas concorrentes ao King of the King-2015. com início semana que vem. Já tenho duas listas montadas, mas, nas quatro semanas que levará o processo de eleição, certamente outras aparecerão já que os coleguinhas entraram num novo ritmo na sua luta para desmoralizar a própria profissão – as cascatas agora são diárias, distribuídas por todos os meios e se estendem a todas as editorias, embora política e economia ainda predominem (ou nelas estejam as que repercutam mais). A coluna abaixo dá conta d esse espraiamento do cascatal.
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Está na hora de mais uma seletiva do King of the Kings-2015, pois já tenho cascatas mais do que suficientes para iniciar a quarta da série e mesmo a quinta. Só que aí pensei: falo de cascatas o tempo todo, mas há muitos leitores que não são jornalistas (especialmente no Facebook) e eles podem não saber bem o que é uma e, principalmente, como elas são construídas pelos coleguinhas.

Assim, para edificação das gentes, decidi mostrar como se cria o tipo de cascata mais comum (há outros estilos, mais sofisticados, que ficam para outro dia) e como desmontá-la. Para ser didático, pegarei uma bem pão-pão-queijo-queijo, a respeito de um assunto “neutro” (entre aspas porque isso, a rigor, não existe isso): futebol. A cascata é a que diz que o Messi jogou 57 das 60 partidas do Barcelona na temporada 2014-2015 e a ouvi, pela primeira vez, após a vitória do time catalão sobre a Juventus, de Turim, na final da Copa dos Campeões – basicamente, a ideia dos coleguinhas que a impingiram é mostrar que os jogadores brasileiros que se queixam do exagero de jogos que disputam durante o ano são uns moloides que deviam entrar em campo e não reclamar por serem bem pagos (embora nada como o Messi).

Bom, esses são os pontos fundamentais para uma boa cascata básica:

a) Precisa comprovar uma tese: Ela pode ser explícita, como no caso acima, ou não, mas uma cascata que não quer provar algo não tem razão de existir e, por isso, se torna fraca e evidente.

b) Deve estar baseada num dado real: Uma simples mentira é facilmente desmascarada, como, por exemplo, aquela do Globo sobre  Taylor Swift. Uma meia-verdade – como a da cascata em foco – é muito mais complicada de ser desmentida.

c) Não pode ficar patente de primeira: Um especialista, ou ao menos um bom conhecedor do assunto, pode ver a cascata de cara, mas um cidadão/cidadã com conhecimento médio não pode ter acesso fácil às informações que a desmascarem. Cascata precisa parecer ter lógica para o leigo no assunto, pois, assim, este pode disseminá-la com convicção.

d) Um “especialista” é o melhor porta-voz: É um reforço para o item acima. Se um “especialista” disse, tá falado, pensa o leigo, que já não sabe do assunto e também não está a fim de pesquisá-lo.
Assim, de posse do conhecimento dos pressupostos essenciais para uma boa cascata, vamos tratar de desmontar aquela lá de cima, que cumpre todos os requisitos apontados. Para levar a efeito o desmonte, peguei o Internacional, de Porto Alegre, único clube brasileiro que ainda disputa a Taça Libertadores da América, de maneira a equilibrar com o Barça, que jogou a Liga dos Campeões.

As 60 partidas do time de Messi e Neymar foram divididas entre três torneios: o Campeonato Espanhol, a Copa do Rei (equivalente a nossa Copa do Brasil) e a Liga dos Campeões (que equivale à Libertadores). Foram 38 partidas por La Liga, 9 pela Copa, e 13 pela Champions, sendo 58 de ida-e-volta (exceções para as decisões da Copa do Rei e da Champions, cujas decisões foram em um jogo só).

Assim, o Barça atuou 29 partidas fora da capital da Catalunha (a decisão da Copa do Rei foi no Camp Nou e o Espanyol também é de Barcelona, mas a final da Champions foi em Berlim). Para atuar nos sete jogos fora da Euro (incluindo a final), o time percorreu 12.766 quilômetros (segundo o utilíssimo site Distance From To), sendo a maior distância os 4 mil quilômetros que separam Barcelona de Nicósia, capital do Chipre, onde Messi desfilou seu talento contra o Apoel, no dia 25 de novembro de 2014 (4 a 0, três do gênio argentino e o outro do uruguaio Luis Suaréz).

Agora, o Inter. Até o momento (antes da partida contra o Santos, em casa, pela nona rodada do Brasileirão), nos cinco meses de temporada, a equipe colorada já jogou 38 partidas – 20 pelo campeonato gaúcho, 10 pela Libertadores da América e 8 pelo Brasileiro (ainda jogará pela Copa do Brasil, no segundo semestre). Destas, 18 fora de Porto Alegre, mas, observe-se que três (todas do Brasileiro) com um time misto, poupando os titulares para a Libertadores.

No intuito de facilitar a comparação, seguem os números nas tabelas abaixo (as distâncias estão multiplicadas por dois porque quem vai, volta).

 

barcelona_inter

 

Com os números postos fica fácil ver a cascata, certo? O time da Catalunha jogou muito menos na temporada 2014/2015 do que o Inter jogará ao fim da temporada brasileira, pois ainda terá que fazer pelo menos 30 partidas no Brasileirão, duas na Libertadores (está nas semifinais, contra o Tigres, de Monterrey (México), cidade a 8.116 quilômetros da capital gaúcha) e mais duas pela Copa do Brasil, na qual entra nas oitavas-de-final. Se a coisa for como a torcida colorada deseja (títulos da Copa do Brasil e Libertadores, com a classificação para o Mundial de Clubes, em Tóquio, juntamente contra o Barça), a equipe entrará em campo em mais 12 partidas, totalizando 81 jogos em 2015 (sem contar a ida ao Japão).

Diga aí: alguém que não seja Tony Stark, devidamente paramentado de Homem de Ferro, jogaria 95% dos jogos na temporada? (E não vou nem falar que os gaúchos já jogaram duas vezes em Bogotá, a 2.640 metros acima do mar, e uma vez em La Paz, a 3.660 metros, enquanto o Barça jamais passou nem perto de cidades com estas características).

Mas não seria fácil para um leitor/ouvinte/telespectador desmontar a cascata, né? Como já fui repórter esportivo por muitos anos, sabia que era uma cascata, e o que procurar e onde para desmontá-la, mas e você, que não acompanha futebol com assiduidade, teria o saco e o conhecimento para fazê-lo? Creio que não. E olha que essa é uma cascata básica, que pode ser derrubada com dados públicos, disponíveis na internet, não uma daquelas com palavras de um relatório ou fita que você não pode avaliar, pessoalmente, de onde veio e qual o conteúdo completo.

“Mas o que posso fazer para me defender e não ser engrupido pelos jornalistas?”, pergunta você, justamente temeroso de ser feito de otário. Bem, não tenho uma receita para isso. O máximo que posso aconselhar é manter a mesma atitude que, em outras eras do mundo, os jornalistas tinham: não acreditar em nada do que leia, veja ou escute antes de checar bem checado.

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2 comentários sobre “Como montar (e desmontar) uma cascata

  1. Parabéns pela matéria “de dados”. Vou usar em aula, como exemplo do usos de planilhas por jornalistas.

    • Quanta honra! Muito obrigado! Esse é um dos meus objetivos nada modestos – que os professores levem essa ideia de jornalismo embasado em números e estatísticas honestos para as aulas.

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