Peneirando os meios – II

Vamos a segunda peneirada dos números da Pesquisa Brasileira de Mídia (PBM), realizada no fim do ano passado pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República. Na primeira (aqui), pus o foco sobre a faixa etária dos respondentes; nesta semana, ele estará sobre as suas faixas de renda. Sigamos!

Tabela e gráfico sobre frequência de uso p/mídia p/faixa de renda (7 dias na semana)

tabela frequência renda 7 dias

gráfico frequência renda 7 dias

Tabela e gráfico por faixa de uso p/ mídia p/ faixa de renda (0 dias na semana)

tabela frequência renda 0 dias

 gráfico frequência renda 0 dias

 

Análise

1. Como acontece no caso das faixas etárias, a TV é soberana. Ela é o único meio que mais de dois terços dos brasileiros acessam seja qual for sua faixa de renda. Apenasa na faixa acima de 5 salários mínimos, o percentual é menor do que 70%, mas ainda assim dentro da margem de erro. Também é o único meio que menos de 10% não acessa todos os dias na semana – a curiosidade aqui é que o maior número dos que não veem TV estão nos extremos da mostra, mas dentro da margem de erro. No entanto, como no caso das faixas etárias, seria interessante que o levantamento da Secom esmiuçasse os números da TV além de quem acessa TV aberta (72%), TV paga (26%) e parabólica (23%), chegando a quem já está a usando como suporte para aplicações OTT (Netflix e outros que devem estar a chegar) e mesmo para vídeos baixados da internet, legalmente ou não.

2. Como a internet é uma mídia de jovens, segundo vimos semana passada, ela também ainda é da elite. Há uma clara correlação positiva entre a faixa de renda e a frequência de acesso – quanto maior uma, maior a outra, no caso de acesso todos os dias (14% num extremo, 62%, no outro), quanto menor uma, menor a outra, no caso do acesso em nenhum dia (78% no extremo menos de 1 SM, 23% no outro, mais de 5 SM).

Outro ponto digno de nota é que a diferença de acesso entre as faixas é muito marcada e bastante igual – indo de 12 pontos percentuais entre a primeira e a segunda faixas até 21 pp entre a terceira e a terceira. Assim, não só a internet tem muito a crescer no país como um todo (apenas 37% dos brasileiros a acessam todos os dias, 49% no total) quanto dentro de cada faixa de renda.

Esse potencial de crescimento não deve ameaçar a TV, pelo menos no que se refere a faixas de renda, pois fica claro no levantamento que uma não afeta a outra. Essa é uma clara indicação de que o fenômeno da “segunda tela” (acesso simultâneo de TV e internet) é bem disseminado quanto maior é a faixa de renda. A indicação se confirma de for observado outro segmento do levantamento da Secom, que não enfoco aqui – a concomitância entre usa TV com outros afazeres. Sob esse ângulo, 19% dos respondentes informa que vê TV acessando a internet e/ou usando troca de mensagens instantâneas (zap-zap, messenger etc).

3. Os pontos mais interessantes da abordagem por faixa de renda, na minha visão, porém, ficam com o que o levantamento mostra sobre jornais e revista (tanto que eles merecem gráficos à parte). A PBM-2015 aponta que ambos os meios são de elite no país – seu acesso 7 dias por semana é idêntico (15%) e concentrado na faixa de renda mais alta, sendo que no meio revista, esse percentual é de 2,5 vezes maior que a soma total dos percentuais das outras faixas (6%) – gráfico abaixo. Assim, fica extremamente claro o incrível erro estratégico dos “barões” da mídia em atacar a distribuição mais igualitária da renda no país por meio de um aumento da renda dos estratos mais baixos da sociedade, pois, quanto maior é a renda, mais eles vendem seus produtos.

grárfico frequência renda jornal e revista 7 dias

No entanto, a diferença entre os dois meios surge quando se olha o outro extremo de frequência, de nenhum dia/não usa. Aqui, o meio revista vai perdendo a corrida para o jornal quanto mais se sobe na faixa de renda. Assim, na que está acima de 5 SM, a diferença chega a 15 pp (gráfico abaixo). A fragilidade mercadológica do meio se revela totalmente aqui.

gráfico frequência renda jornal e revista 0 dias

4.Como na faixa etária, o rádio é o meio mais estável. Varia pouco entre as faixas de renda, com uma leve queda na que está cima dos 5 SM, quando se olha o acesso nos 7 dias da semana. A única surpresa é a maioria dos que não usam rádio está na faixa abaixo de 1 SM – assim mesmo, está apenas 3 pp acima dos que não acessam nunca entre os acima de 5 SM. Esse número pode indicar que uma parte significativa dos que ouvem rádio o faz no carro.

Bem, semana que vem tem mais, se Deus quiser.

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