O abril mais cruel

Se tivesse que escolher um texto para representar a Primeira Era da Coleguinhas, dentre as centenas que publiquei entre 1996 e 2003, quando a coluna deu uma parada, teria que optar por dois: o da semana seguinte ao assassinato de Sandra Gomide por Pimenta Neves, em agosto de 2000, por ter sido o único que me lembro de já ter escrito com raiva (aqui, numa versão recuperada do C-se, onde também foi publicado); e outro, anterior de um ou dois anos, sobre o que eu acreditava ser um erro estratégico crasso por parte dos “barões” da mídia e que os levaria à derrocada. Este último, hoje perdido devido à minha desorganização, explicaria o que tem ocorrido nos últimos anos com os veículos, e o fim dos postos de trabalho dos jornalistas, especialmente despedaçados nestas semanas de abril.

Vou tentar reconstruir os argumentos principais de memória. Na época, depois de ter colocado o Legislativo de joelhos, com a ajuda inestimável dos parlamentares, os “barões” estavam realizando um ataque ao Judiciário com uma série de matérias detonando juízes, suas decisões e, claro, acusando os tribunais de corrupção (sim, você está revendo essa operação agora, com outras vítimas e apoio do mesmo Judiciário, já devidamente domesticado). A ideia dos “barões” era, depois de ter acabado com a credibilidade de dois poderes, encurralar o Executivo apresentando-se como supremos porta-vozes da Opinião Pública, tornando-se, assim, condestáveis do país.

No texto perdido, avisei que era uma operação de risco altíssimo e que tinha toda a chance de voltar-se contra eles. Havia dois argumentos básicos, um lógico-politico, o outro conjuntural-tecnológico. O primeiro era de que, no processo de destruir a credibilidade do Legislativo e do Judiciário e debilitar a do Executivo, os “barões” criariam uma massa descrente das instituições, que se voltaria contra eles – afinal, se todas as instituições eram inevitavelmente corruptas no Brasil, por que a mídia seria diferente? Usei a imagem de uma torre no meio do deserto, exposta à fúria de uma tempestade de areia, e os comparei ao personagem Jack, do livro “O senhor das moscas”.

O argumento conjuntural-tecnológico vinha da observação que a internet estava dando ao público uma opção de busca e construção de opiniões paralelas. Ainda estava longe (a uns seis ou oito anos) a era das redes sociais, mas já havia milhões de toscas páginas pessoais na internet (a Coleguinhas era uma) e já surgiam no horizonte seus irmãos mais novos, os blogs. Essa nova mídia faria com que o “barões” perdessem o poder absoluto de mediação com a realidade que detinham e passaria parte dele para o público, que teria armas para atacá-los quando ficassem expostos, caso seu plano desse certo.

Não deu, pelo por enquanto, mas não impediu que a tentativa política fosse desmascarada por um fator possível, mas improvável à época – a chegada ao poder do PT e seu sucesso no plano de redistribuir a renda no país. Diante dele, os “barões” se viram na obrigação de acelerar o processo de tentar encurralar o Executivo e, com a incompetência e covardia dos principais membros da oposição constituída, assumir o ônus de comandá-la de cima do palco, e não das coxias como pretendiam, expondo-se completamente sem estar inteiramente no controle da situação. A exposição extemporânea tornou-os muito visíveis na paisagem política (aquela torre no meio do deserto), para uma multidão, que, como a tempestade de areia, começou a fustigá-los de todos os lados.

A situação saiu do controle e as consequências começaram a ser sentidas agora, quando o crescimento do país estagnou e a luta pela riqueza acirrou-se (aqui). Sem a grana fácil e sem o apoio político com que sempre contaram para manter suas empresas, os “barões” começaram a ver sua incompetência administrativa cobrar-lhes a conta. E eles a estão passando para os jornalistas pagarem. A categoria está longe de ser vítima inocente nesse processo – afinal, os patrões podem indicar os caminho e mesmo mandar segui-lo, mas são os jornalistas que vão para a rua trilhá-lo -, mas é ela que vai tendo, agora, que lavar os pratos.