Peneirando os meios – I

Pelo segundo ano, a Secretaria de Comunicação (Secom) da Presidência da República realizou a Pesquisa Brasileira de Mídia, o “maior levantamento sobre os hábitos de informação dos brasileiros”, segundo o órgão do governo A pesquisa foi realizada em novembro de 2014, pelo Ibope, por meio de 18.312 entrevistas face-a-face, com maiores de 16 anos residentes em 848 municípios dos 26 estados e mais o DF. Minha ideia é, a partir de hoje e durante as próximas semanas, dar uma esmiuçada no levantamento, mas se você também for tarado/a por estatísticas, pode ir direto aqui , baixar o documento e realizar suas próprias análises, o que, de resto, recomendo todos a fazer.

Para não ficar apenas repetindo o que está na pesquisa e tentar vê-la sob outros ângulos, dei uma deslocada em seu foco. A Secom analisou o levantamento sob o ponto de vista de cada veículo isoladamente, o que é muito útil para trabalhar no dia a dia, mas, de minha parte, preferi lançar um olhar comparativo entre os veículos, de modo a ver não só como eles estão no momento como a tendência para o futuro. Essa abordagem é um tanto prejudicada, admito, pelo fato de o levantamento estar apenas no seu início, com apenas dois anos de realização. Ainda assim, creio que é útil até para dar base a comparações futuras.

Bom, se você ainda está aí (entendo perfeitamente quem já se pirulitou), agora começa realmente a parte chata, aquela com tabelas e gráficos. E vamos começar logo com uma visão brava – a frequência de uso (em dias da semana) por faixas etárias (importante: só estão representados os extremos de frequência porque no meio as diferenças não são notáveis, mas você pode ter acesso a elas na pesquisa toda).

Tabela e gráfico de frequência de acesso p/ mídia, p/ faixa etária – 7 dias na semana

Tabela de frequência - 7 dias

Gráfico de frequência - 7 dias

 

Tabela e gráfico de frequência de acesso p/ mídia, p/ faixa etária –  Nenhum dia semana

Tabela Frequência - Nenhum dia

 

Gráfico frequência - Nenhum dia na semana

Análise

1. Apesar da queda de audiência observada nos últimos anos, a TV é ainda o “canhão de laser” da comunicação no Brasil. No entanto, observa-se que há uma diferença muito grande entre os extremos da faixa etária, com o percentual de jovens entre 16 e 25 anos assistindo TV sendo 9 pontos menor do que aqueles com mais de 65. O ponto de inflexão está na metade da faixa dos 40 anos, com uma diferença de 3 pp entre as faixas 36/45 e 46/55 (graficamente, a distribuição específica da TV vai abaixo). Essa distribuição indica que, ao longo das próximas décadas, a audiência da TV vai cair de modo significativo. Assim, a queda notada nos últimos tempos parece ser estrutural e não conjuntural.

gráfico frequência 7 dias TV

2. Um problema da pesquisa da Secom é que o grupo TV não especifica muito bem que tipo de TV o público está vendo. Há uma divisão entre TV aberta e TV paga, mas, para as próximas pesquisas, seria interessante ver quanto do público – e que tipo dele – já está vendo aplicações OTT (over-the-top, tipo Netflix) e baixando filmes e séries da internet e usando a TV apenas como suporte de exibição, por exemplo.

3. Do outro lado do espectro da TV em termos de faixa etária está a internet. Esta é, muito claramente, uma mídia de jovens. Nada menos do que 65% dos que estão abaixo dos 25 anos acessam a Grande Rede todos os dias na semana, contra apenas 4% entre aqueles com mais de 65, e mesmo os 33% entre os que têm entre 36 e 45. Já entre os que não acessam nenhuma vez na semana, apenas 20% estão abaixo dos 25; 93%, acima dos 65 e 52%  na faixa 36-45. Mesmo assim, a média Brasil aponta que a internet ainda está longe da TV em termos de frequência de uso diário, pois tem quase a metade do percentual de usuários diários (37% contra 73% da televisão). No entanto, observa-se que, na faixa 16-25 anos, há quase um empate – 69% a 65% para TV. Ponto interessante no recorte por gênero: o percentual de frequência de uso entre homens e mulheres é rigorosamente igual em todas as faixas, incluindo as extremas – 37% todos os dias; 51% não usa.

4. Em termos etários, os jornais estão com um problema para o futuro, mas nada que já não enfrentem no momento. Se apenas 5% dos jovens os folheiam diariamente e 78% não o faz em nenhum dia, apenas 9% são leitores diários na faixa que mais os acessam – a que fica entre os 36 e os 45 anos. Assim, a situação do meio é ruim e não parece que não vá melhorar nas próximas décadas, embora possa piorar relativamente pouco.

5. A pesquisa da Secom mostra claramente porque o meio revista está indo para o brejo, como mostram os número de circulação da Veja (aqui). Em todas as faixas etárias, o índice dos que simplesmente não leem revistas está acima de 80%, embora o percentual dos que estão abaixo de 45 anos e não leem seja menor do que a média Brasil (85%), indicando que o público mais jovem lê mais revista do que o mais idoso. No entanto, há um interessante recorte de gênero aqui: 3% das mulheres leem revistas todos os dias enquanto 0% dos homens fazem o mesmo. Assim, o cruzamento com os percentuais de faixa etária indica que as revistas lidas pelos mais jovens sejam aquelas destinadas a adolescentes e adultas jovens (celebridades, comportamento, beleza, moda) e não as semanais de informação. Seria interessante os futuros levantamentos da Secom esmiuçarem também esse aspecto.

6. Proporcionalmente, o rádio está numa situação parecida com a TV. Sem ter o mesmo poder de penetração, seu problema etário está à frente, pois os que o ouvem diariamente estão localizados nas duas últimas faixas de idade do levantamento da Secom (a partir do 56 anos), ambas com 36%, e as que o fazem menos, nas duas primeiras (até os 35) – 23% até 25 anos; 28% até 35.

Bom, por enquanto é só. Mas prepare-se que as próximas semanas serão duras. Haverá um monte de tabelas e gráficos e, para ficar pior, os textos farão remissões entre si – ou seja, o de hoje pode muito bem ser convocado por um ou mais dos que virão. Para ajudá-lo/a, pretendo fazer um resumão no fim pegando os “melhores momentos”. Assim, se não estiver a fim de esquentar muito a cabeça, volte daqui a um tempo (não sei bem quanto ainda, talvez umas seis, oito semanas). Mas não aconselharia – vai perder boa diversão. 😉