As explicações de Fernando Rodrigues

Na entrevista ao site Vice (um dos poucos veículos em que se pratica bom jornalismo brasileiro hoje), Fernando Rodrigues procura explicar porque ainda não divulgou os nomes dos patrícios que têm contas no HSBC da Suíça. Até explica, mas justificar que é bom, não. Três pontos me chamaram a atenção na entrevista a João Paulo Charleaux:

1. O que é interesse público: Basicamente, é o que Fernando Rodrigues diz que é. Ele cita o hipotético José da Silva, de Capela do Socorro (uma região de São Paulo), correntista do HSBC com US$ 50 mil. Ele diz que se pudesse provar que José da Silva não tinha declarado a grana ano Fisco, tinha interesse público e ele publicaria o nome do cara. Legal. Mas ele conseguiu essa prova sobre os nomes que já publicou? Desculpe, não basta que o cara seja ligado a empreiteira investigada pela Operação Lava-Jato para que se configure que aquela conta específica dele foi escondida do Leão. É suspeitíssima sim, mas como Fernando falou de prova, bem, se ele não tem como provar, o nome do sujeito não deveria ter sido publicado, como não seria o de José da Silva. Ou seja, ao publicar a lista dos empreiteiros, valeu mais o interesse de Fernando Rodrigues do que o do público que ele diz defender.

2. Posição do governo: A questão da prova leva ao segundo ponto, que, ao meu ver, é o mais complicado. Fernando reclama que funcionários do governo não lhe confirmaram a situação de nomes que ele passou, com a maior pureza d’alma. No meu entendimento, fizeram muito bem, pois, se o fizessem, cometeriam um crime, no caso, quebra de sigilo fiscal. Ao dizer ao coleguinha se a pessoa tinha declarado ou não a existência da conta e o valor que nela constava, o agente público teria prevaricado (definição de prevaricação aqui). O que o cara deveria ter feito (e, provavelmente, fez) seria dizer “obrigado pela sua colaboração, bom cidadão. Tomaremos as providências devidas”, desligado e nunca mais retornado. A Receita – ou qualquer órgão do governo que lide com informações sensíveis – não tem que confirmar ou desmentir nada a jornalista ou a quem quer que seja, a não ser que conste explicitamente em lei ou obedecendo a ordem judicial. E ainda tem mais – Fernando poderia ser processado por induzir o agente público a cometer o crime.

a. Caso ache mesmo que a Receita deve esta informação ao público, ele pode tomar o caminho de apelar para a Lei de Acesso à Informação (aqui), assinada por este mesmo governo que ele acusa de pouco transparente. Dica: se ele quiser mesmo, pode ter jogo no Artigo 31, Parágrafo 4.

b. Revoltado com a “desídia, preguiça e má-fé” dos agentes públicos que ele contatou, como bom cidadão Fernando deveria denunciá-los à Ouvidoria do órgão em que eles trabalham a fim de que passem pelo devido processo administrativo disciplinar e, caso confirmada a acusação, sofrerem punição.

3. Pimenta no dos outros…: O tom geral das respostas – e, principalmente, o desabafo final, no estilo “mamãe-vou-pra-Miami” – demonstra que Fernando está se sentindo incomodado por ter seus critérios jornalísticos expostos ao escrutínio público. Assim, depois da piada pronta, temos a ironia pronta.

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3 comentários sobre “As explicações de Fernando Rodrigues

  1. Estou ansioso pelo seu post a respeito da máfia da imprensa com conta na Suíça. Você deve ter comentários e informações fantásticas.

    • Tenho não, Adriano. Só quem tem é o ICIJ e o Grupo Folha.

  2. kkk

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