Precisamos falar sobre o HSBC

Aí quando tem chance de fazer algo diferente e valorizar-se diante da sociedade, os jornalistas brasileiros dão bobeira. A mais recente é nesse caso do Swissleaks. Os coleguinhas estão tentando vender a ideia de que a lista dos correntistas do HSBC suíço não pode ser divulgada rapidamente porque poderia haver casos de pessoas/empesas que têm a conta legalmente lá e seriam prejudicadas.

Verdade, mas não toda ela. Como se pode ver no site do ICIJ (aqui), há três tipos de contas num banco suíço:

1. No nome do depositante: É a mesma do bradesco da esquina – você abre uma conta em seu nome e segue em frente, inclusive declarando a existência dela para a Receita;
2. Sob um código alfanumérico: É o tipo que fez a glória dos bancos da Suíça – você abre uma conta que só é conhecida por um código composto de 20 posições de números e letras. Nesta forma, o correntista pode movimentá-la pessoalmente ou por meio de empregados dos bancos, com os quais pode entrar em contato direito ou por meio de outra pessoa;
3.Paraísos fiscais: A conta é aberta em nome de uma empresa em outro paraíso fiscal. Neste caso, a operação da conta tem que ser feita em pessoa.

Das 5.549 contas com conexão com o Brasil, abertas entre 1970 e 2006, 1008 pertencem a pessoas físicas e/ou empresas que se identificaram (caso 1), 4.145 são numeradas (caso 2) e 396 estão em nome de empresas localizadas em paraísos fiscais (caso 3).

Agora, vamos lá….As pessoas/empresas que estão no caso 1 provavelmente não têm nada a esconder e, portanto, presume-se que a origem da grana depositada seja legal e como se identificaram seus nomes podem ser deixados um pouco de lado, pelo menos até surgir alguma outra indicação. Assim, sobram 4.541 contas blindadas. Se os seus titulares tiveram o trabalho de blindá-las, obviamente eles não as declararam ao Fisco, cometendo, portanto, crime de evasão fiscal. Esse fato torna esses patrícios, automaticamente, objeto do interesse público, já que esse dinheiro é devido ao público, por meio do Estado (falta de interesse público é o outro argumento para não se informar nomes da lista – fica faltando saber como quem tem os dados em mãos define o que é interesse público).

Assim, no momento em que o titular de uma dessas 4.541 contas for identificado, ele/ela deve ser confrontado/a pelo coleguinha e sua resposta, publicada, junto com o nome. Não dessa forma aqui, mas uma maneira menos Veja de ser é a linha a ser seguida.

Para dar um empurrãozinho a quem for mais curioso pouca coisa, aqui estão duas listas: uma com o número de 93 contas ligadas ao Brasil e outra com endereços ligados a essas contas, ambas vazadas em Hong Kong (!!) e que se encontram na internet. Fiz um cruzamento preliminar (em amarelo nas planilhas), mas creio que pode ser muito refinado. Divirta-se!

2 comentários sobre “Precisamos falar sobre o HSBC

  1. Você publicaria 4.541 matérias em seu jornal, cada uma com o nome de uma pessoa com conta na Suíça, e a respectiva resposta da pessoa? Parece que o objetivo é produzir jornalismo relevante, e não uma variante da lista telefônica.

    Se toda e qualquer pessoa contra quem há suspeita de crime é de interesse público, poderíamos colocar então dúzias de matérias por dia detalhando todos os indiciamentos que acontecem diariamente nos fóruns criminais.

    Obviamente isso é inexequível.

    Fico em dúvida se o objetivo do post é fazer um comentário justo ao trabalho do Fernando Rodrigues ou questionar a lisura de seus procedimentos.

    • Sim, tem que fazer isso se é para fazer jornalismo sério. E quem disse que é preciso fazer de uma vez? Poderia ser feito aos poucos – aliás, deveria para se fazer uma apuração consistente. Jornalismo é relevante quando tem informação relevante. E saber por que uma pessoa achou necessário abrir, na Suíça, uma conta numerada ou em nome de uma empresa localiza em outro paraíso fiscal, me parece relevante, embora respeite o seu ponto de vista de achar isso normal.
      Quanto a questionar a lisura do Fernando Rodrigues, bem não escrevi isso -sequer falei nele, aliás. Mas também respeito que você tenha entendido assim, por qualquer motivo.

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