O Globo adere ao “estilo Iris”

O destaque dentro da “catchigoria”, no Rio, numa semana agitada por eventos funestos de várias magnitudes, foi a degola simbólica promovida pelo Globo na redação. Um número ainda não muito bem especificado de profissionais da redação, mas seguramente acima de 23, foi mandado embora. Na empresa como um todo, algo entre 150 e 160 pessoas começaram o ano na fila do desemprego.

Claramente foi uma atitude preventiva do jornal. Se o governo, que é o governo e , portanto, tem a obrigação de ser mais otimista que a média, sai cortando aposentadoria e pensão de viúva, os Marinho soltaram o grito de guerra “farinha pouca, meu pirão primeiro!” e foram ao pescoço da folha salarial com a gana de um militante do Iris.

Além do previsível corte da verba de publicidade governamental (não teria sentido mestre Levy detonar direitos de trabalhadores e viúvas e não verbas publicitárias – ou teria sentido demais, talvez), a redução certa da atividade da economia em 2015 levará a uma redução bem significativa da publicidade de todo mundo.

Nesses momentos de aperto, a TV leva quase toda a verba, mas, em outras épocas, os impressos pegavam umas migalhas. Agora não. A segunda mídia passou a ser a internet e com lógica – se a TV é uma bomba de fragmentação, que manda estilhaço em tudo que é direção, a internet é rifle com mira a laser, que permite ir à testa do consumidor certo. E este consumidor tem, cada vez mais, se passado para o lado dos veículos digitais.

Por favor, considere os gráficos a abaixo.

jan-nov-2014-digital-oglobo

 

jan-nov-2014-geral-oglobo
O primeiro, de barras vermelhas, representa a variação das assinaturas digitais de O Globo entre janeiro e novembro do ano passado (a minha fonte ainda não tinha os números de dezembro); as barras laranja, a variação do total geral de assinaturas (papel + digital) no mesmo período. Não é preciso ser um estatístico com doutorado no MIT para perceber que as curvas são iguais (a primeira até um pouco mais aberta), indicando que quem está mantendo a circulação o jornal dos Marinho é a edição digital. Essa constatação leva ao corte de postos de trabalho, como manda a tradição capitalista, pela qual toda a evolução tecnológica existe para isso. Um veículo digital precisa de menos gente para ser produzido, pois muitas das funções digitalizadas podem ser feitas por máquinas (ou por menos gente movendo máquinas).

Outro ponto é que um jornal impresso é…bem… impresso…Precisa de papel, no caso de papel-jornal (newsprint), o que é um problema e tanto, no Brasil, porque, das 68 mil toneladas consumidas no primeiro bimestre de 2014 (últimos dados disponíveis da Associação Brasileira de Celulose e Papel, Bracelpa), 48 mil (71%) foram importadas, ou seja, cotadas em dólar, que aumentou 12% ano passado – aliás, a crise dos jornais impressos pode ser observada por outro dado da Bracelpa: o consumo doméstico de papel-imprensa caiu de 106 mil toneladas, no primeiro bimestre de 2013, para os 68 mil dali de cima, ano passado, um tombo de 36%.

A soma desses dois pontos pôde ser mais bem observada, durante o “salve geral” do Globo, pelo caso dos suplementos Carro&Etc, Morar Bem e Boa Chance. Como só existem mesmo para cobrir os classificados, que estão minguando devido aos OLXs da vida, eles não vão exatamente acabar, como foi especulado, mas passarão a ter conteúdos terceirizados e serem considerados “informes publicitários”, com sua conta de papel saindo do centro de custos da Redação para a do Comercial.

Muito ruim, mas tem tudo para piorar. É que, obviamente, a situação dos impressos não vai ficar melhor. Nos EUA, já tem gente que – como o Conselheiro Honorário Alan D.Mutter (aqui) – acha que, em breve, nem meio de massa vão poder ser considerados. Assim, é muito provável que, nos próximos anos, outras rodadas de cimitarras aconteçam e mais cabeças rolem nas redações, e não só as do Globo.

Anúncios

Um comentário sobre “O Globo adere ao “estilo Iris”

  1. Pingback: O jornalismo sem jornalistas |

Os comentários estão desativados.