Os “barões da mídia” e a Comissão Nacional da Verdade

Não deu tempo de ler em profundidade, obviamente, mas, numa passada d´olhos, deu pra ver as menções aos “barões da mídia” no relatório da Comissão Nacional da Verdade. Está lá, preto no branco, que Julio de Mesquita Filho e Octávio Frias não deram apenas apoio institucional ao Golpe de 64, por meio de seus jornais, mas financiaram a deposição de um presidente legalmente eleito e, depois, a Operação Bandeirantes, a face mais cruel da bárbara repressão às organizações da luta armada de esquerda – no caso da Família Frias, chegando a dar apoio operacional à Oban (está lá o caso das caminhonetes da Folha da Tarde cedidas aos agentes da repressão para capturarem e/ou matarem os esquerdistas).

Já Roberto Marinho não aparece como financiador do Golpe, embora o tenha apoiado como os outros dois por meio de O Globo, mas foi o que, de longe, mais se locupletou com ele, obtendo o espólio da TV Excelsior, a de maior audiência na época por sua qualidade artística e técnica, e recebendo o apoio do Grupo Time-Life. A conjunção desses dois fatores – e mais alguns outros, ao longo dos anos, no mesmo caminho – levaram à Rede Globo.

As menções podem ser encontradas no Volume II do Relatório Final da CNV (pode ser baixado aqui), nas seguintes páginas:

307 – Apoio institucional do dono do Estado de São Paulo Júlio de Mesquita Filho ao IPES (think tank que preparou estratégica, ideológica e financeiramente o Golpe, o Instituto Millenium da época).

308 – Apoio financeiro de Júlio de Mesquita Filho e Octávio Frias, dono da Folha, ao IPES.

310 – Carta de Júlio de Mesquita Filho, datada de 20 de janeiro de 1962 (mais de dois anos antes do golpe, portanto), na qual defendia que, quando o golpe militar viesse, o Congresso e o Judiciário fossem fechados, com o ditador governando sob regime de Estado de Sítio (ou seja, como se o país estivesse em guerra). Note-se que, em nenhum momento, os militares foram tão radicais, mantendo o Parlamento e o Judiciário funcionando, mesmo como fachada.

317 – Roberto Marinho como beneficiário do fechamento da TV Excelsior, causado peo estrangulamento econômico do seu dono, o empresário Mário Wallace Simonsen, dos poucos de sua classe que não aderiu ao Golpe. Nesta página também está o resumo do acordo de Marinho com o grupo norte-americano Time-Life, que alavancou financeiramente a Rede Globo, apesar de esse apoio ser inconstitucional, como definido por uma CPI, cujo resultado foi ignorado pela Justiça, com apoio do Ministério Público.

320 – Menção ao uso de caminhonetes do jornal Folha da Tarde por parte de agentes da Oban.

Fora do âmbito da mídia, também está no relatório da CNV a gênese da Operação Lava-Jato. Na página 313 e seguintes, demonstra-se como surgiram e foram cevadas, durante a Ditadura Militar instalada em 1964, grandes grupos econômicos brasileiros, entre eles as empreiteiras (página 318), hoje flagradas em casos imensos de corrupção – incluindo aí a menção ao fato de que muitas patentes superiores das Forças Armadas foram nomeadas diretores dessas empresas. Assim, dá para fechar o círculo e entender o motivo que move o pessoal que faz convescote na Avenida Paulista todo o sábado.

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