Para resolver o problema das pesquisas eleitorais

Esse texto era para sair daqui a algum tempo, em meio a outras análises do pleito que se realiza amanhã, mas diante da “guerra de pesquisas” de última hora, publico agora, para depois não dizerem que sou “engenheiro de obra feita”

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Os ministros do Tribunal Superior Eleitoral ficaram aborrecidos com os erros dos institutos de pesquisa no primeiro turno da eleição deste ano. Demoraram, pois há anos que, entra pleito, sai pleito, os caras erram lamentavelmente nos primeiros turnos e acertam no segundo, quando é muito mole, por só haver dois concorrentes.
Aporrinhados, os ministros estudam modificar as regras das pesquisas e não só sua divulgação, mas até da metodologia (número de entrevistados, margem de erro e intervalo de confiança). E tome ideia de impedir divulgação duas semanas antes, determinar 4 mil como número mínimo de entrevistados por todos os institutos, definir o intervalo de confiança em 99%…

Caros ministros, vossas excelências não precisam quebrar a cabeça e ouvir gritaria de institutos e meios de comunicação, além de enfrentar problemas até constitucionais com eles (proibir divulgação não é censura?). Basta apenas definir uma pesquisa como modelo e determinar que seus parâmetros probabilísticos sejam usados por todos, institutos e partidos, em pesquisas eleitorais. Qual seria essa pesquisa-modelo? Ora, a Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), realizada pelo IBGE, cujos parâmetros numéricos estão aqui. Com a PNAD como pesquisa-modelo, a Constituição seria preservada e os resultados, realmente confiáveis.

“Investigar esses domicílios todos nesses milhares de municípios sairia ridiculamente caro! É o mesmo que proibir as pesquisas”, dirá você. Verdade, mas quem falou em mesmos números? Leia o parágrafo anterior de novo, por favor. Eu escrevi “parâmetros probabilísticos”. O que é isso? Esse artigo , publicado na Folha e reproduzido pelo Observatório da Imprensa, explica direitinho.

Para deixar ainda mais claro, talvez um testemunho pessoal ajude.

Em 1980, participei, como pesquisador, do Censo. Meu território era o trapézio compreendido pelo Boulevard 28 de Setembro e as ruas Hipólito da Costa, Merechal Zenóbio da Costa e Justiniano da Rocha, em Vila Isabel, Rio de Janeiro. Fui instruído, rigorosamente, a começar pela esquina do Boulevard, subindo em direção à Hipólito, entrando nela e virando à direita na Zenóbio, regressando ao ponto de partida pela Justiniano, sempre pelos lados direitos dessas vias.

Recebi dois tipos de formulários: um, pequeno, que preenchia em, no máximo, cinco minutos; outro grande, muito minucioso, que levava cerca de 15 minutos, em domicílio com apenas uma pessoa. A ordem era começar com os pequenos e, no décimo domicílio, usar o grande. Não podia, em hipótese nenhuma, alterar essa ordem. O domicílio a ser recenseado por meio do formulário completo era o décimo de cada lote e não o nono ou 11º – e os supervisores avisaram enfaticamente que haveria checagem e só depois de que fosse verificado que eu não tinha bancado o malandro é que receberia a minha grana.

Por isso, eu, que trabalhava de manhã, pois já cursava a UFF à noite, tive de matar aula. Uma das casas da Hipólito da Costa estava fechada pela manhã nos três dias em que bati à porta. Perguntando ao vizinho, soube que a moradora era uma professora que dava aulas à noite e raramente chegava antes da 22 horas. Assim, para cumprir minha missão, afixei um bilhete na porta me apresentando e avisando que viria naquela noite entrevistá-la. Em frente à casa, fiquei plantado das 21h30min às 23 horas, quando ela chegou do trabalho, e só me despedi da senhora por volta da meia-noite, pois ela, morta de fome, teve que tomar banho e fazer e comer o jantar, antes de começarmos a entrevista.

Todo esse trabalho se deu porque, como mostra do artigo do professor José Ferreira de Carvalho, era aquela casa e não a anterior ou a seguinte que deveria responder ao questionário completo. Se houvesse uma mudança qualquer, a pesquisa daria erro. E olha que era um Censo, ou seja, não havia probabilidade envolvida, não havia sorteio – no Censo, por princípio, você ouve todo mundo – e, portanto, a chance de um erro compensar (ou, pelo menos, reduzir) outro era maior.
Se o TSE quiser mesmo resolver esse problema dos erros absurdos em pesquisas eleitorais, como os ocorreram este ano (e nos anos anteriores), tem que assim. Fora disso, é jogo para arquibancada.

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2 comentários sobre “Para resolver o problema das pesquisas eleitorais

  1. O problema não seria mais grave aqui, como você diz, pela dimensão atribuída às pesquisas pela imprensa? Não sei em detalhes como é em outros países, mas aqui as pesquisas orientam completamente todo o “debate” eleitoral, desde antes da oficialização das candidaturas até o último minuto em que podem ser divulgadas. Os erros ganham força porque são elas, de certa forma, que ditam as próprias eleições.

    • Parece ser pior aqui sim, Chia, devido à falta de politização da esmagadora maioria da população, mas o livro “Os números (não) mentem” informa que a situação é também bem complicada nos EUA.

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