“Gansos mancos”

Seja quem for que elejamos em 26 de outubro, tem uma grande probabilidade de ser um “ganso manco”. “Lame duck” (pato manco) é uma expressão dos norte-americanos e descreve o presidente que está no final de seu último período de mandato e, portanto, sem força política para realmente governar – no máximo, toca o dia a dia como pode. No Brasil, os políticos dizem que, nesse período, até o cafezinho é servido frio para a pessoa. Só que, daqui duas semanas, elegeremos um/a presidente/a, que, por motivos diferentes, ficarão numa posição de poder limitado só que por quatro anos. Assim, resolvi chamá-los de “gansos mancos”, já que poderão grasnar alto como os gansos, mas não poderão ser tão agressivos como essas aves – ótimos guardas, como já sabiam os romanos, que os usavam pare defender suas propriedades.

Primeiro, o caso de Dilma. Se ela vencer, terá sido apesar dela própria e graças à militância de esquerda – principalmente no PT, mas não só. No caso do PT, isso quer dizer que foi eleita, mais uma vez, pelo Nove-Dedos. Da primeira vez, tudo bem, era um poste inventado por ele, que teria a obrigação de carregá-la nas costas mesmo. Após quatro anos de poder, porém, era para Dilma ter mostrado um mínimo de competência política para caminhar sozinha. Como não foi o que aconteceu, o PT se viu obrigado a usar o prestígio de N-D e a militância para mantê-la governando, ela ficará devedora do partido, o que quer dizer do N-D. Assim, como diz a Piauí desse mês, caso Dilma seja eleita, o poder sairá do Planalto e tomará assento na Rua Ipiranga, em São Paulo, via onde se localiza o Instituto Lula.

A situação de Aécio é mais complexa. Os partidos aliados dele na eleição conseguiram levar para a Câmara cerca de 190 deputados, ou seja, por volta de 70 a menos do que o mínimo para aprovar leis ordinárias (257) – para mudanças constitucionais, então, ele obteve apenas pouco mais da metade do necessário (342). Assim, para governar, terá que arrumar votos em partidos que não o apoiam agora, especialmente o PMDB e seus 66 votos. Imagine o que vai cu$tar em termos de cargos? Só nisso, o tal papo do “choque de gestão” irá por água abaixo.

E irá rápido, pois, para mal dos pecados aecistas, o partido que tem a maior bancada da Câmara é o PT (70 deputados). Assim, pela tradição, terá direito à presidência da Casa, cuja eleição vai ocorrer em fevereiro, na instalação da nova legislatura. Agora, pense o que é ter um oposicionista com o poder de conceder privilégios aos deputados (salas maiores, designação de viagens internacionais…) e brecar iniciativas do governo, usando o regimento e a ordem na pauta? Para evitar esse pesadelo, Aécio poderá tentar atropelar a Câmara argumentando que blocos parlamentares podem ser considerados partidos e, por isso, teriam direito à presidência da Câmara – aí ele teria maioria, pois PSDB, DEM, PPS, SD e PSB, somados, possuem 95 (sem contar o sempre adesista PSD, que conta 37). Mas, mais uma vez, a conta será enorme para uma tratorada desse nível, ainda mais com cara de crise institucional.

Mas o drama não termina na Câmara. Ele segue no Senado, onde os partidos que apoiam Aécio têm apenas 22 dos 41 votos necessários para aprovar qualquer coisa. A situação parece até pior entre os senadores porque, mesmo negociando com partidos mais adesistas, como PSD, PR e PTB, só vai chegar a 33 senadores – nem negociando o apoio do PP (citado por Paulo Roberto da Costa) , esse número ultrapassaria os 37 votos. Restaria ao mineiro ir pedir, pelo amor a Deus (e aos cargos) ajuda ao PMDB, que, além dessa posição de força, tem outra – como é o maior partido, com 18 senadores, possui o direito de eleger o presidente da Casa, que é também o do Congresso.