A votação de Bolsonaro e a democracia

Amigos estão se mostrando macambúzios com o fato de Jair Bolsonaro ter sido o deputado federal mais votado no Rio. Acham que é um fato a ser lamentado vestindo-se de saco e jogando cinzas sobre a cabeça. Peço vênia para discordar, e muito. Creio que a votação do capitão é um alento para a democracia por dois motivos:

1. Com a votação expressiva de um de seus membros mais antigos (o cara está no jogo parlamentar há uns 20 anos, no mínimo) e radicais, a direita pode começar a achar que dá para ganhar eleições, uma percepção aumentada com os 33% dos votos dados a Aécio para a presidência. Há, assim, a possibilidade de que uma boa parte dos direitistas passe a admitir que não se precisa, necessariamente, apelar para golpes contra a democracia para transformar a sociedade brasileira de forma a fazê-la mais próxima de seus ideais;

2.A esquerda tende a achar que suas bandeiras são evidentemente a melhores e que isso é tão claro que não dá nem para discutir. Os eleitores de Bolsonaro, Russomano e Feliciano (sobre o qual já falei aqui e aqui) avisam que não é bem assim. Há muita, mas muita, gente no Brasil que acha mesmo que lugar de mulher é na cozinha e na cama, que bandido bom é bandido morto, que criança, para ser bem educada, tem que entrar na porrada, que gay é doente, que preto tem que saber o seu lugar e mobilidade urbana é legal desde que não leve “gente diferenciada”, usuária de metrô e bicicleta, a passear por Leblon, Gávea, Barra ou Jardins. É bom a esquerda entender que o placar não está 4 a 0, com o juiz já tendo sinalizado três minutos de acréscimo. Está 2 a 1, os caras marcaram no fim do primeiro tempo e ainda há o segundo todo pela frente. O jogo está longe de ser ganho.

Há ainda um outro ponto a ser observado com a votação de Bolsonaro – e também as dos paulistas Celso Russomano ( mais votado do estado) e Marco Feliciano (o terceiro): a desmistificação das chamadas Jornadas de Junho. Elas sempre foram consideradas como expressão das demandas da esquerda – maior liberdade, mais direitos para os mais vulneráveis, mais bicicletas nas ruas… Não parece haver dúvidas de que havia preponderância de esquerdistas (e a votação de Luciana Genro e Eduardo Jorge para a presidência mostra isso), mas havia também uma significativa parcela que era (e é) contra tudo isso, e a votação desses parlamentares demonstra esse fato.

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