Pintada para a guerra

Agora é que vai ficar animado. Na sexta-feira, Dilmão resolveu dar um bico na porta e oficializou algo que já dava para desconfiar ouvindo as palavras do Nove-Dedos: uma vez reeleita, ela vai meter a mão no vespeiro da distribuição de verbas publicitárias do governo federal. E ela disse isso para o outro grupo ao qual o assunto mais interessa, os blogueiros. (aqui a íntegra da entrevista) .

Obviamente, o assunto veio embrulhado pra presente, com a candidata à reeleição enfatizando que haverá uma “regulação econômica” da mídia – e não de conteúdo, deixou bem claro -, que procurará evitar a existência (ou manutenção) de monopólios e oligopólios. Dito assim, não é novidade nenhuma em termos mundiais – todos os países ditos civilizados, de uma forma ou de outra, com maior ou menor sucesso, combatem a concentração da mídia para que os seus donos não acabem mandando e modelando o Estado de acordo com seus interesses.

Aqui, no Bananão, porém, o assunto é tão tabu quanto aborto e união gay. Todo mundo foge dele como o diabo da cruz, pois temem os “barões da mídia”,no primeiro caso, tanto quanto as igrejas, no segundo. Mas, mesmo com embrulho bonitinho, o que Dilma disse, na real, foi que a distribuição da verba de publicidade vai mudar, para seguir o que o mercado tem apontado – um crescimento veloz da internet sobre os outros meios (falei disso aqui, enfocando o caso da Abril, e aqui, de maneira mais geral).

Essa mudança será trágica para os veículos. No momento, eles ainda conseguem manter-se com a cabeça fora d’água, mas a redução (não vai ser perda, será redução só) da verba publicitária do governo federal, contando aí a administração direta e a indireta, pode ser o que faltava para detonar a sobrevivência de um monte de veículos mais fracos país afora e mesmo abalar os mais fortes, a ponto de levá-los a viver num coma permanente. Pior. Ao mesmo tempo, os “barões” veriam os inimigos, especialmente os localizados na internet, fortalecerem-se. Afinal, estamos falando de nada menos de R$ 2,3 bilhões de grana investida pelo governo federal em publicidade em 2013. Não é bolinho.

Para entender bem do que estamos falando, veja aqui a distribuição das verbas, por meio, entre 2006 e 2013 – a tabela é da Secom, com dados passados pelo Instituto de Acompanhamento de Publicidade, mantido pelas agências (atenção: esses dados falam do que foi programado, mas não necessariamente realizado, ok? Ainda assim, dá uma boa ideia).  Pode ser que, lá na frente, eu volte a esses dados para analisá-los, mas, por enquanto, ficamos por aqui, porque o foco é outro, certo?

Bem….Voltando….Podemos, então, esperar uma reação furiosa dos veículos a partir deste fim de semana e que não vai parar após a eleição, se Dilmão a vencer. O pau, que já caia no lombo governamental “di cum força”, agora não apenas vai aumentar de intensidade como deixará a região lombar para ser mirado no crânio mesmo, de preferência na nuca. O objetivo não vai mais ser ferir, fazer sangrar para enfraquecer– agora, vai ser pra matar mesmo.

Mas fiquei a me perguntar: por que raios Dilma resolveu comprar a briga justo agora, a uma semana da eleição em primeiro turno? Não teria sido mais sensato ficar como até agora, olhando pro outro lado, deixando Nove-Dedos espanar, como ele tanto gosta? Cheguei a uma hipótese, que se divide em dois pontos:

1. Não sei se você sabia (eu não) que, por esse período do ano, tipo setembro, outubro, há uma pajelança em Brasília reunindo os órgãos do governo com mais verba para gastar em publicidade a fim de definir o volume da grana a ser investida no ano seguinte (com a importantíssima exceção das TVs abertas, cuja validade começa em novembro do mesmo ano). Nessa reunião, da qual participam representantes das empresas de comunicação, são apresentados os números sobre a variação da tabela da cada veículo desde a última negociação, a variação da audiência/circulação deles, e o IGPM acumulado no período. Os dados são postos na mesa e o pau come.
Minha hipótese é que Dilma resolveu avisar aos participantes deste encontro, incluindo o seu pessoal, que agora a banda vai tocar diferente e, mesmo que não se saiba qual será a música, é bom mudar o tom desde já. (Veja aqui mais informações sobre a pajelança e aqui as diretrizes gerais que devem ser alteradas, se Dilma cumprir o que prometeu ser for eleita).

2. Todo mundo sabe que, nesse momento da campanha, essas pesquisas divulgadas pelos veículos de comunicação com a frequência de um viciado em crack fumando seu cachimbo são apenas a ponta do emblemático iceberg. Pesquisas muito mais profundas, as qualitativas (“qualis” para os íntimos), são feitas com igual velocidade (fora o chamado “tracking” diário, com pesquisas por telefone). Essas “qualis” meio que escolhem o assunto sobre o qual a média das pessoas quer ouvir (e o que elas querem ouvir) e esse dado entra no cardápio do candidato.
Meu palpite, nesse caso, é que as “qualis” apontaram que o assunto regulação na mídia sensibiliza o público mais jovem, de mais alta renda e mais escolarizado, exatamente aquele que Dilma tem mais dificuldade de convencer em votar nela – as pesquisas devem ter mostrando também a maneira pelo qual ele devia ser abordado e a candidata resolveu seguir a indicação, apesar dos riscos.

Enfim, é caso para ser acompanhado com atenção, já que, mesmo com todo o poder que tem um presidente da República no Brasil, não será fácil essa guerra para Dilma (e Nove-Dedos), pois até entre seus teóricos aliados políticos deve ter gente contra, já que muitos são donos de jornais, rádios e TVs por este Brasilzão afora.