Jornais tentam manter a cabeça fora d´água

A experiente, embora ainda jovem, repórter dá um suspiro, depois de passar vários minutos digitando no laptop, após a coletiva. “Entrou no impresso!”, diz, mais relaxada, o que deixa seu rosto, já atraente, mais bonito. Passados alguns momentos, porém, ele volta a demonstrar tensão. “E agora, o que vou escrever para o on line?”, pergunta-se em voz alta.

É uma dúvida comum essa, mas que, na visão de um grupo de oito jornalistas do New York Times, selecionados pessoalmente pelo dono, Arthur O. Sulzberger Jr, é também um modo de pensar que precisa ser aposentado imediatamente. O time, liderado pelo próprio filho de Sulzberger Jr e editor de Metro (Cidade), Arthur Gregg Sulzberger, chegou a essa conclusão após seis meses repensando completamente o centenário diário da Grande Maçã, com o objetivo de fazê-lo sobreviver ao tsunami digital em que estamos mergulhados e, ainda por cima, surfar sobre ele.

O resultado foi o The New York Times Innovation Report, um relatório de 96 páginas, datado de 24 de março passado e que era para ser lido apenas pelos altos executivos (com um resumo comunicado aos empregados), mas a demissão da editora-chefe Jill Abramson, no cargo desde 2011, e sua substituição por Dean Baquet (aqui ), deve ter deixado sequelas e o relatório vazou em meados de maio, pouco antes do pé-na-bunda de Jill.

Se é possível sintetizar as conclusões de um relatório tão profundo, produzido por tanto tempo e baseado em centenas de entrevistas com coleguinhas da redação do NYT e concorrentes tradicionais e novos, essa síntese estaria no s parágrafos abaixo, que fazem parte do terceiro capítulo (“Strenghtening our newsroom”):

In the coming years, The New York Times needs to accelerate its transition from a newspaper that also produces a rich and impressive digital report to a digital publication that also produces a rich and impressive newspaper. This is not a matter of semantics. It is a critical, difficult and, at times, painful transformation that will require us to rethink much of what we do every day.

Our leaders know this and we have taken steps in these directions. But it has become increasingly clear that we are not moving with enough urgency.

Depois de ler o documento – não é tão complicado, já que eu, com meu inglês “the-book-is-on-the-table”, o consegui sem grandes problemas -, você pode achá-lo o máximo (como o Niemam Journalism Lab, de Harvard) ou um desastre (como o Politico.com), mas não poderá negar que é um trabalho de fôlego e absolutamente necessário para um jornal que realmente se preocupa com o futuro de seu negócio.

Essa, porém, não parece ser a opinião da Associação Nacional dos Jornais (ANJ). Em congresso realizado semana passada, os patrões definiram quais são suas estratégias para encarar o vagalhão cujas primeiras ondas já chegam às praias de Pindorama: concentrar informações da audiência de cada jornal, perfil dos leitores, formatos básicos, tabela comercial e o contato direto para a publicação e facilitar a compra de mídia. E também fornecer uma rede de sites dos jornais para vender alguns espaços publicitários de forma unificada. É como se os caras tivessem lido uma tradução ruim do relatório do NYT…

Mas, otimista como sempre, ainda tenho esperança de que nem tudo esteja perdido. Nos dias 15 e 16 de novembro, em São Paulo, a revista de João Moreira Salles promoverá o Festival Piauí de Jornalismo, cuja pergunta básica é “Onde isso vai parar?” . Foi no blog do evento – assinado pela jovem e competente Luiza Miguez – que descobri a dica para a análise do Nieman Lab sobre o documento do NYT e, nele, o relatório completo, que segue aqui (atenção, não pode ser impresso– tem que ser lido em digital, mas dá para fazê-lo pelo tablet, baixando o app do Scribd, ou em pdf Alto Conselheiro fez a gentileza de baixar o pdf para facilitar a vida de todos).

Aliás, no mesmo blog, já se pode ler (aqui) uma primeira consequência do Innovation Report (e da queda de Jill Abramson), o qual defende, explicitamente,  a abertura de buracos no muro que afasta a redação do “business side”, sempre encarada como tão necessária quanto a da Igreja do Estado, seguindo os passos do seu mais notório concorrente tradicional, o Washinbgton Post (aqui), mas, por enquanto, só no on line.  Como se pode ver nessa matéria, a “publicidade nativa” é um passo adiante dos nossos conhecidos “publieditoriais”, por ser, em teoria, matérias verdadeiras, só que pautadas para buscar anunciantes.  O próximo passo, como teme John Oliver no vídeo que consta da matéria da Luiza, é tornar evanescente – para dizer o mínimo – o que é matéria real do  que é anúncio. E aí sim, será decretada, de vez, a morte do jornalismo como conhecemos há pouco mais de 100 anos.

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2 comentários sobre “Jornais tentam manter a cabeça fora d´água

  1. Mas acabou de rolar um Congresso Brasileiro de Jornais que, em resumo, concluiu que os jornalões vão de vento em popa! Que estranho… 😉

    • Parecer ser coisa para profissional estudar. Profissional da área psi…

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