A oitava vítima

Ao baixar o túmulo hoje, no Cemitério de Santo Amaro, no Recife, Eduardo Campos levará junto, em seu caixão , o PSB, pelo menos esse a que existe hoje (a reencarnação pode ser teoria na religião, mas na política é fato há milênios). É muito difícil que o partido se reerga do baque que sofreu, pelo menos nas próximas décadas, isso se não for para o beleléu de vez já em 2015.

Com a escolha de Marina para suceder Eduardo na corrida ao Planalto decidida, o PSB engoliu uma pílula de veneno. A nova candidata titular, como se sabe e ela mesma já disse publicamente várias vezes, entrara no partido apenas para usar a candidatura de Eduardo Campos como “barriga de aluguel” com o objetivo de criar do seu partido, o Rede, o mais rápido possível. Nunca teve compromissos com o projeto político do PSB e não é agora que terá, diga o que disser e assine quantos documentos assinar. Quando Eduardo vivia, o partido tinha nele um líder com estatura para segurar a avidez de Marina em fazer crescer o seu Rede o mais possível. Com a morte do meu conterrâneo, nada mais a deterá.

Assim, no curso do processo eleitoral, os candidatos pessebistas verão suas campanhas perderem todas das divididas para as dos redistas. Não é preciso ser um grande conhecedor de como se passam as coisas nas ruas durante as eleições no Brasil para ver que os candidatos da Rede explorarão ao máximo a sua ligação com a candidata à Presidência que estiver na TV. O pessoal do PSB vai tentar fazer o mesmo, claro, mas, na hora do vamos ver, quem vai conseguir aquela fotinho para botar no santinho ou a imagem para passar no programa eleitoral? E não adianta dizer que o candidato a vice vai ser do PSB – vice no Brasil é nada já em condições normais e, nesse caso, é menos do que isso, já que o postulante à Vice-Presidência da República pela chapa marinista será um zé-ninguém em termos nacionais pertencente aos quadros pessebista.

Nesse cenário, Marina certamente vai jogar a Rede para fazer a maior base possível na Câmara e no Senado, de modo a depender o menos que puder do próprio PSB, do PSDB e do indefectível PMDB visando ter a base necessária para poder governar (“nova política” é conversa mole eleitoral, não é para valer, todos sabem). Quanto mais deputados e senadores eleger, mais à vontade ela ficará para dirigir o país no seu estilo personalista e messiânico, este certamente aguçado pela trágica morte do companheiro de chapa.

Marina está, pois, com a faca e o queijo nas mãos e a tábua de cortar frios em cima da mesa, mas também corre um perigo. Pelo menos em São Paulo e em Minas, estados em que a coligação PSB-Rede já ostenta uma fratura exposta, a morte de Eduardo e o desenrolar da eleição poderá fazer a situação degenerar em gangrena e ela ser “cristianizada” em prol do PSDB, que têm longas e profundas ligações com os diretórios locais do PSB. Se a coisa seguir por este caminho, até o PT poderá tirar uma casquinha do partido moribundo, já que, especialmente na cúpula, há mais sintonia com o projeto político petista, mais à esquerda, do que com o dos tucanos, à direita.

“Mas e se Marina não ganhar?”, perguntará você. Não muda muito. Ela sairá com o seu Rede formado e PT ou PSDB, quem estiver no Planalto, atrairá o que houver no PSB, graças a atração que exerce o poder. No partido, sobrará os que tiverem apoiado o derrotado, já que se é para ir para um partido que perdeu, melhor ficar no que se está. O PSB se tornará, assim, mais um resto de sigla, como é o PPS e ameaça ser – se já não o é – o DEM.

Assim, de qualquer ponto que se olhe, ao cair sobre Santos não levou apenas Eduardo Campos, mas todo o PSB para aquele grande Palácio do Planalto lá do Céu.

P.S.: Por falar na morte de Eduardo Campos, notável  a rapidez com que a grande mídia partiu para entronizar rapidamente Marina como sucessora do pernambucano na corrida presidencial. As vozes dissidentes do PSB foram caladas rapidamente e só uma possibilidade passou a ser aventada como “natural”. Uma pequena joia de fabricação de consenso, montada em grande velocidade, mostrando toda a valia da internet para operações desse tipo.

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