Estava quieto no meu cantinho…

…quando dois conselheiros me escreveram pedindo uma posição minha sobre o atual arranca-rabo no Sindicato. O primeiro até diz que sentiu falta do que eu achava do assunto. Embora muito envaidecido, fiquei me perguntando o quê minha posição sobre qualquer coisa tem de importante. Enfim, agradeço a consideração e, em nome dela, segue o comentário, que, como acontece em oito de cada 10 vezes, vai desagradar todo mundo, mas antes de me xingar, lembre-se: eu estava quieto, cuidando da minha vida.

Bem, vou começar do modo padrão: recordando algumas coisas esquecidas (ou quase). No caso, que essa é segunda tentativa de “impeachment” de uma diretoria no Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro em 20 anos (aquele é o nome oficial – guarde-o, pois vai ser importante no desenvolvimento do raciocínio escalafobético que desenvolverei) . Em 1996, a diretoria liderada por Paulo César Rodrigues foi destituída por seus membros, incluindo o presidente, estarem usando a estrutura sindical para obter certidões que atestavam que tinham sido perseguidos políticos e, com isso, ganharem aposentadoria vitalícia.

Participei desse movimento, dentro das minhas possiblidade de momento, porque acredito que, num sistema presidencialista como o que vigora no sindicato (e no país), só há dois motivos para um presidente ( e sua diretoria) ser destituído: 1) Ir ao cofre da entidade ou usá-la para locupletar-se de qualquer maneira; 2) Atentar contra a missão institucional da entidade, a defesa da categoria. Fora dessas duas precondições, tentativa de impeachment nada mais é do que procurar dar uma volta no resultado das urnas, ou, em termo mais cru, golpe.

No caso em tela (como dizem os advogados), a acusação, segundo me chegou, é a de que a diretoria atual teria insuflado manifestantes a atacar os jornalistas como forma de demonstrar a insatisfação com a cobertura tendenciosa das manifestações por parte da imprensa. Assim sendo, na minha modestíssima opinião, a tentativa de impeachment teria razão de ser por estar incluída no segundo ponto listado no parágrafo acima. No entanto, tendo razão ou não (e provas insofismáveis deveriam ser a base de todo o processo de impedimento), creio que o impeachment acontecerá devido à fraqueza institucional do sindicato. E é a partir desse ponto que todo mundo vai ficar irritado comigo.

A tal fraqueza do sindicato foi o principal motivo pelo qual a atual diretoria venceu as eleições realizadas há um ano. A chapa vencedora obteve 143 votos dos 429 sufrágios (33%) contra 95 da segunda colocada; 94 da terceira, e 90 da última colocada – detalhe: as três chapas derrotadas ostentavam nomes da diretoria em fim de mandato, que se despedaçara. O que chama a atenção é que, de uma categoria com milhares de profissionais, menos de 500 se mobilizaram para votar, mesmo com as urnas indo aos locais de trabalho. Essa é a carência institucional de que falo e que faz com que qualquer diretoria que tome posse corra o risco de sofrer um processo de impeachment nem bem descobriu o caminho para o banheiro.

Assim, o problema real do sindicato dos jornalistas cariocas não é bem as práticas da diretoria de plantão – embora estas possam agravá-lo -, mas saber a quem realmente a instituição está representando, uma questão que, diga-se de passagem, deve estar atingindo, em maior ou menor grau, outras instâncias de representação da categoria. Dito de outra maneira: o sindicato do Rio tem que saber que “jornalistas profissionais” são esses que lhe emprestam o nome.

Agora você entendeu porque escrevi lá que ia desagradar todo mundo? Se não entendeu, vou ser mais explícito: a questão não é quem está na diretoria, mas quem esta realmente representa. Se essa questão não for resolvida – ou pelo menos pensada, o que não tem acontecido ao longo das últimas duas décadas -, não adianta: os jornalistas vão continuar apanhando nas ruas (eles começaram a sofrer violências antes do suposto apoio a elas por parte da diretoria do Sindicato), as notas de repúdio vão se suceder (com retórica melhor ou pior, dependendo do ponto de vista) e vamos todos nos preparar para o próximo processo de impeachment daqui a 20 anos. Isto é, se houver sindicato digno de nos preocuparmos com ele até lá.

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