Valor estratégico

Há muito não tenho menor prazer em ler veículo impresso brasileiro, fazendo-o apenas por obrigação profissional (televisão, então, não levo a sério há décadas). Pautas previsíveis, apuradas de qualquer jeito, matérias mal escritas e quase sempre enviesadas, jornais e revistas hoje não passam de papel pintado para mim. Pelo Valor, porém, tenho ainda certa consideração e o leio com mais atenção. Por isso, acabei por notar um fato bem interessante.

De há muito me acostumei a ver as mesmas matérias repetidas “ad nauseam” pelos veículos impressos, que as repetem, mas em rodízio, numa tática parecida com a de certos times que mandam bater no craque adversário, mas trocando de agressor, para evitar – ou ao menos retardar – o cartão amarelo. Assim, uma hora O Globo bate na Petrobras e, passando alguns meses, é avez da Folha, depois do Estado. Ou uma hora, a Veja faz uma denúncia contra um programa do governo, que é repercutida no dia seguinte pelo Globo, esquecida após alguns dias e ressuscitada meses depois pelo Estadão…Por aí vai.

Nos últimos tempos, porém, passei a observar outro tipo de pauta, mais inteligente, que não são do grosseiro tipo denúncia. Elas visam mais criar um clima, uma atmosfera de crise e descontrole – como no caso do tal racionamento e, recentemente, do vexame na realização da Copa. Fiquei intrigado por muito tempo – não havia, em nenhuma redação, massa cinzenta suficiente para implementar uma estratégia como essa (concebê-la então…). Foi só ao ler o Valor é que entendi: é desse jornal que vem o tema e o tom desse tipo de matéria.

É realmente muito bem feito. O Valor, que não custa lembrar, é uma empresa dividida meio e a meio pelo Grupo Folha e Organizações Globo, possui uma circulação de pouco mais de 60 mil exemplares, ficando aí pelo 18º, 20º lugar na lista dos mais vendidos. Não é um veículo de massa, quem o lê, dificilmente o terá como primeiro jornal, menos ainda como único. Ele é plenamente visível, mas é com se vivesse na sombra. Perfeito para ser a fonte difusora da estratégia do 1% do Brasil para barra (ou ao menos retardar) o avanço dos outros 99%.

A estratégia do Valor é mais bem urdida do que a dos jornais de massa. Bate no governo, claro, e duro, mas o faz, em geral, apenas nas matérias, deixando um pouco de fora de os colunistas, entre os quais há até quem defensa posições contrárias (ou seja, a favor do governo), havendo poucos “militantes” (com destaque para Cristiano Romero e Rosângela Bittar, essa chefe da sucursal de Brasília e a mais agressiva). Pode ser assim porque sua posição na estratégia geral é de fornecer teses, argumentos e fontes para que os outros desenvolvam de maneira mais grosseira. É como se fosse o lado oposto da Veja. Esta fornece material para mentes de direitistas primários, enquanto o Valor o faz para aqueles com um cérebro mais bem formado. No meio campo, ficam Folha, Estadão . Globo e o resto, que reproduzem o primeiro material mais ou menos como o recebem da Veja e reduzem o recebido do Valor para o nível mental de seus leitores habituais.
Assim, caso você se interesse em saber como a parte inteligente da oposição pensa e pretende agir, esqueça Veja, Época, Folha, Estadão ou Globo fique de olho no Valor.

4 comentários sobre “Valor estratégico

  1. Eu estou acompanhando algumas publicações desse jornal também e, o acho bem eficiente e completo; na sua opinião, como posso criar um jornal completo, a nível universitário ou, o que é preciso para que um jornal seja tido por excelente? Grato.

    • Breno, vai depender do seu público. Vc precisa saber dados sobre ele – faixa etária, localização geográfica, nível econômico, interesses… Quanto mais informações, melhor.
      Sobre como um jornal ser excelente? Bem, vai depender dos dados acima – ele será tanto melhor quanto mais útil for para seu público, o que nem sempre significa dizer apenas aquilo que ele quer ouvir, como é o caso do Valor e de todos os jornais brasileiros.
      Agora, minha vez: esse jornal que você pensa criar seris impresso?

  2. Inicialmente, online.
    A ideia de fazê-lo impresso levaria em questão verbas, o que por enquanto não temos ….mas obrigado pelos apontamentos.
    Eu já tentei criar esse jornal um tempo atrás e todo que estava dentro pulou fora, ficou só uma menina e aí acabamos indo fazer outras coisas. Contudo, até hoje esse trabalho me atrai.

    • Creio que você deveria esquecer a ideia de fazer impresso, Breno. Será um custo alto e, provavelmente, descencessário.

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