O fantasma das Copas futuras

Quando, logo mais, no Maracanã, os times da Alemanha e da Argentina estiverem alinhados para iniciar o jogo que decidirá a Copa do Mundo, não estará sozinho. Qual um fantasma de Dickens, o futuro do futebol brasileiro estará junto dos 22 jogadores, árbitro e bandeirinhas.

Esta tese não é minha, mas do meu amigo e colega de trabalho Rafael Maia, um cara legal e inteligente, apesar de torcer pelo time que não-deve-ser-nomeado. Nessa semana, após o chocolate alemão que nos enfiaram pela goela e a definição da presença da Argentina na final, Rafa disse o resultado da partida de daqui a pouco é o choque entre dois conceitos de ver o futebol. De um lado, o estilo alemão, calcado no planejamento de médio/longo prazos e no jogo coletivo; de outro, o argentino, que joga tudo na individualidade cercada por escudeiros, de uma maneira muito próxima a nossa. Muito bem observado, creio.

É precisamente na bifurcação de qual caminho escolher que estamos agora. No momento, após tomarmos 10 gols nas duas partidas finais de uma Copa realizada em casa, fazendo apenas um, nos inclinamos ao estilo germânico. No entanto, nós, brasileiros, tendemos a analisar as situações pelos seus resultados e não no que levou a eles e suas consequências.

No futebol, essa maneira de raciocinar levou a renegarmos, por anos, a seleção de 82 por ter perdido para o “futebol de resultados” da Itália, o que nos levou à Era Dunga, da qual Felipão é um digno representante – assim como seus possíveis sucessores, Tite e Muricy. Dessa forma se, daqui a pouco, der Argentina, não importa que apenas por 1 a 0, aqueles que defendem que o futebol é o reino da individualidade natural, de onde brotam messis, neymares, maradonas e pelés sem que se precise adubar o terreno, ganharão muitos pontos.

Essa maneira de pensar botou o futebol argentino num ponto perigosíssimo, apesar do sucesso deste ano. Aconteça o que acontecer daqui a pouco, os “hermanos”, quase certamente, voltarão a gramar mais algumas décadas sem qualquer brilho nas Copas. Não é uma situação incomum para eles – apesar de ser uma escola reconhecidamente forte, só ganhou duas Copas – a primeira praticamente botando uma arma na cabeça dos adversários e outra graças a um gênio, o que pode repetir-se hoje à tarde. De lá para cá, houve um título, um vice (ambos na Era Maradona) e seis Copas sem nem ir à semifinal.

O problema deles é que essa geração, montada por Jose Pekerman para o Mundial de 2005, vai dar adeus na Rússia e a que vem aí é tão ruim que não conseguiu uma das quatro vagas para o Mundial Sub-20 de 2013 mesmo jogando em casa (o melhor jogador da geração, Alan Ruiz, não arrumou contrato na Europa e contenta-se hoje em brigar por uma vaga no time do Grêmio). Não passamos por esse drama ainda, pois, como já escrevi em outros lugares, essa geração que temos pode fazer boa figura daqui a quatro anos, desde que bem treinada, evidentemente. Só que esse sufoco não está tão longe assim de nós – a nossa Sub-20 também não obteve uma daquelas quatro vagas.

Assim mesmo que exista o perigo oposto – tudo se tornar planejamento, negligenciando-se a qualidade técnica do jogador brasileiro, ainda muito valorizada lá fora, a ponto de garotos de 15, 16 anos serem comprados por fortunas -, a vitória alemã é melhor para nós, numa perspectiva de futuro (e não só de curto prazo).

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