Ok, o assunto é Copa

Como não dá para escapar do clima de Copa, publico abaixo quatro posts de pus no FB e que talvez não tenham sido lidos por quem só acompanha a Coleguinhas. São análises sobre a seleção e seus adversários. Vão aqui porque não há o que comentar sobre a imprensa nesta semana (vamos combinar que os coleguinhas dizerem que a economia está à beira do abismo e o país vai à breca em seis meses não é mais novidade, após 12 anos falando isso). Os posts vão em ordem cronológica para facilitar o entendimento dos raciocínios.

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26 de junho

Vou escrever agora, antes do primeiro jogo do mata-mata, para não parecer “engenheiro de obra pronta” quando acontecer: não creio que sejamos campeões esse ano. A base para minha afirmação é um fato muito conhecido nos esportes olímpicos, mas que, com nossa profusão de jogadores, passa despercebido no futebol, embora ocorra nesse esporte também: o ciclo de oito anos necessários para formar-se um campeão.

O chamado “ciclo olímpico” começa no ano em que está sendo disputada uma edição dos Jogos e termina duas edições de depois – assim, o “ciclo olímpico” de 2016 começou após os Jogos de Pequim, em 2008. A ideia é que um atleta talentoso necessita muito tempo para firmar-se como um realmente maduro. Assim, o rapaz/a moça que começou a treinar em 2008, teve seu primeiro marco em 2012. Em Londres, ele/ela mediu-se com os melhores da modalidade na competição maior do seu esporte e sentiu na pele o que é isso. Assim, nos quatro anos seguintes, vai se aperfeiçoar não só tecnicamente, mas, principalmente, no aspecto psicológico, vai fortalecer-se mentalmente para enfrentar a pressão.

Isso também ocorre no futebol, mas a gente não nota. Veja o quadro abaixo:

54/58 – Djalma Santos, Mauro, Nílton Santos, Didi e Castilho (3ª Copa).
58/62 – Gilmar, Castilho, Djalma, Mauro, Belini, Zito, Didi, Garrincha, Pelé, Vavá e Zagalo.
66/70 – Brito, Gérson, Jairzinho, Tostão, Pelé e Edu.
90/94– Taffarel, Jorginho, Aldair, Branco (3ª Copa), Dunga, Romário, Bebeto, Müller (3ª Copa), Mazinho.
1998/2002 – Cafu, Roberto Carlos, Rivaldo, Ronaldo e Dida.
10/14 – Júlio César, Maicon, Daniel Alves, Thiago Silva, Ramires (Fred, 2006).

Os anos após a barra são aqueles em que fomos campeões. Você vai notar que, em quatro dos cinco títulos, os jogadores decisivos tinham estado na Copa anterior. A exceção foi o período 54/58, quando dois gênios – Pelé e Garrincha – apareceram ao mesmo tempo, evento único até hoje E, ainda assim, eles só tiveram a chance de mostrar sua genialidade porque Nílton Santos e Didi, egressos de 54, impuseram a escalação de ambos a Feola, após o empate de 0 a 0 (o primeiro na história das Copas), contra a Inglaterra. Nossos atuais jogadores decisivos – Neymar e Oscar – estão em sua primeira Copa.

Você vai notar também que, quando fomos campeões, quase sempre havia, pelo menos, um veterano na defesa, um no meio e dois no ataque (exceção é, novamente, 58, pelo motivo apontado acima, e 2002, quando tínhamos apenas Ronaldo na frente, num time que jogava num 3-6-1). Na atual seleção, temos um bom número de remanescentes da última Copa na defesa, mas nenhum no meio (Ramires é reserva) e apenas um no ataque – e Fred jogou uma Copa há oito anos.

Assim, infelizmente, não creio que tenhamos condições de superar a Alemanha, que cumpre à perfeição a cartilha da experiência de, pelo menos, duas Copas, nas três linhas. Mesmo a Argentina e a Holanda, que não atendem à exigência em suas defesas, têm vantagem sobre nós – a primeira pela genialidade experiente de Messi (em sua terceira Copa); a segunda pela força e experiência de seu trio ofensivo (Sneijder, Robben e Van Persie estão também em sua terceira Copa).

Espero estar errado e que a gente conquiste a taça, mas acho que não estou.
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27 de junho
A consequência lógica do post abaixo – que provocou mais comentários do que eu imaginava – é: como formaremos o time para sermos campeões em 2018, na Rússia?

Para começar, vamos ter que superar a tentação muito brasileira de dizer que, se um objetivo não foi atingido em sua plenitude, nada presta, e deve-se começar de novo, do zero. Portanto, nada dizer que Neymar é presepeiro; Oscar, um zero à esquerda, e David Luiz só um cabelo legal. Os três – e mais Thiago Silva, Marcelo, Luiz Gustavo e, talvez, Paulinho – poderão ser a base do time em 2018. Vamos por posição:

Goleiro – Victor terá 35, assim como Jefferson, enquanto Diego Cavalieri contará 36. Embora goleiros possam jogar em em alto nível até uma idade mais avançada do que outros jogadores, não podemos realmente contar com nenhum deles. Assim, os favoritos jogam hoje na Itália: Neto (Fiorentina, com 29 anos em 2018) e Rafael (Napoli, 28 daqui a quatro anos) . Ambos, no entanto, sem experiência em Copa. Fora eles, francamente, não vejo ninguém.

Lateral-direito: Rafinha, do Bayern, que chegou a ser cogitado para este ano, terá 32, tarde para ir à primeira Copa. Opções a serem observadas me parecem poucas (com a idade que terão daqui a quatro anos): Fábio (Mônaco, 25), Mayke (Cruzeiro, 26) e Gilberto (Botafogo, atualmente no Internacional, 25).

Zaga: Estamos bem aqui. Thiago (32) e David (31) ainda terão lenha para queimar e deverão estar jogando juntos por quatro anos no PSG, clube que também conta com Marquinhos, que chegou a ser cogitado para a seleção atual, apesar de ter apenas 19 anos. E Dante também já está na área (Henrique é meio mais ou menos).

Lateral-esquerdo: Posição que pode ficar complicada. Marcelo, que terá 30, vai depender de como estiver na época, e Maxwell já tem 32 hoje – não vai dar. Abner, do Coritiba, terá 22, mas se tiver boa recuperação de uma contusão séria no joelho, precisa ir, nem que seja para ser reserva, pois é excepcional – tanto que quase foi levado pelo Roma no início deste ano, aos 18 anos. Douglas, do Udinese, que terá 24, também pode ser uma opção.

Volantes – Luiz Gustavo terá 31, uma Copa nas costas e tudo para ser dos componentes da espinha dorsal, assim como Paulinho, que terá 29. Lucas Silva, do Cruzeiro, terá 25 e se evoluir como vem fazendo, pode ser um ótimo reserva, assim como Casemiro, hoje no Real, com 26 em 2018, ou Rodrigo Caio (São Paulo), com 25, à época Estamos bem, portanto.

Meias – Oscar é esperança hoje e, esperamos, uma realidade em 2018. Se continuar evoluindo, será uma dos principais vértebras da espinha dorsal, junto com Neymar. E é bom que seja mesmo, pois Willian ainda vai ter que confirmar, assim como Everton Ribeiro (Cruzeiro) e Phillipe Coutinho (Liverpool). Ganso? Só se mudar, visceralmente, a maneira de jogar e de encarar a profissão. E vamos ver como irá Giuliano, que chegou agora ao Grêmio, retornando da Ucrânia.

Atacantes – Partindo do pressuposto que teremos Neymar, faltam mais três ou quatro. Haverá Lucas, com 25 anos e umas cinco temporadas de Europa, e Bernard, se sobreviver aos choques europeus com seu físico franzino, com 25 e já experiente em Copas. O problema é que não vejo o chamado homem-gol, o cara especializado em botar a bola nas redes. Há várias promessas – Mosquito e Bruno Mendes (Atlético-PR), Ademílson (São Paulo, mais de lado de campo), Gabriel (Santos), Michael (Fluminense), Yuri Mamute (Grêmio, recém-emprestado ao Botafogo), Vinícius (Cruzeiro) -, mas jovens demais para usar a 9 canarinho, mesmo em 2018 (todos terão entre 23 e 25 anos naquele ano).

Haverá uma boa base, portanto, mas com carências e dúvidas em posições fundamentais (gol e meio de ataque), Deve-se, porém, atentar para um detalhe: no meio do caminho até a Rússia tem uma parada nos Jogos Olímpicos do Rio. Poderá ser uma oportunidade de encontrar algumas soluções.

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28 de junho

Outra que vou falar antes para não parecer engenheiro de obra feita.

O Wilmots, técnico da Bélgica, explicou o mau desempenho dos europeus na Copa pelo fato de eles estarem em fim de temporada e pelo calor. O segundo ponto pode até valer como explicação, mas o primeiro nem tanto. É que todos os principais jogadores de seleções sul-americanas jogam na Europa, seguem o calendário de lá e, assim, também em fim de temporada.

No entanto, ela vale para dois times – Brasil e Espanha. É que ambas as seleções jogaram a Copa das Confederações até o fim e seus jogadores praticamente não tiveram férias, emendando as temporadas europeias 2012/2013 e 2013/2014. Os caras ainda ganharam uma semana, dez dias, de descanso, mas aquelas férias de desligar o celular e ir para uma praia com a família e esquecer do mundo (como o Messi fez, por exemplo), não tiveram. Os italianos também estavam na Confederações e, assim como os espanhóis, dançaram cedo – e os uruguaios também quase foram. Já a maioria dos jogadores mexicanos e japoneses, que também estiveram aqui em junho passado, não segue o calendário europeu por atuarem em seus países, além de terem saído rápido da CC e tido mais tempo de descanso.

Dessa forma, há mais essa vantagem para Alemanha, Holanda e Argentina, cujos jogadores estão no fim de uma temporada apenas, e não duas, como os nossos.

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29 de junho

No banheiro do Maracanã, logo após Colômbia x Uruguai, um brasileiro disse para outro que preferia ter de enfrentar o Uruguai à Colômbia. O outro respondeu que o Uruguai seria pior por ter mais tradição. Me meti na conversa (sou metido, você sabe) e concordei com o segundo. “É melhor a Colômbia. A camisa do Uruguai tem peso, tem história. A Colômbia é um time muito melhor, mas o Uruguai ia ser mais chato de vencer”.

Minha opinião estava fortemente impactada pelo que vira mais cedo, no nosso jogo contra o Chile. Não tenho a menor dúvida de que vencemos e nos classificamos para as quartas-de-final graças à nossa camisa. Se fosse pelo futebol apresentado, teríamos tomado um chocolate de qualquer time com “camisa pesada” – Alemanha, Argentina, França, Itália, o próprio Uruguai. Por nossa sorte, tivemos pela frente o Chile, cuja equipe claramente não teve peito para vencer uma partida que estava completamente à sua feição.

Após terem achado seu gol, que àquela altura da partida não mereciam, os chilenos tiveram pela frente um time completamente batido moralmente. A seleção brasileira – com duas ou três exceções – simplesmente sucumbiu à responsabilidade do jogo. Abateu-se com o gol e, no segundo tempo, foi totalmente dominada técnica e taticamente pela equipe chilena. Esta, no entanto, mesmo com um adversário moralmente acabado diante de si, não foi capaz de dar o passo final e, partindo para frente com decisão, provocar o “Minerazzo”.

Por que não fez isso? Por não acreditar que poderia fazê-lo. Temeu a camisa amarela, mesmo quando ela estava sendo envergada por jogadores com a moral no chão. Preferiu arriscar-se nos pênaltis, mas mostrou que não estava preparada nem para isso, perdendo três em cinco penalidades, e chegando ao ridículo de, na hora da última cobrança, haver dúvidas de quem iria encarar Júlio César. O Chile jogou como nunca e perdeu como sempre por ter tremido, respeitado demais a história e o peso da camisa amarela. Para sexta-feira, essa é também, no momento, minha esperança porque, no futebol, creio que não vai dar, a não ser que Felipão deixe de ser Felipão e mude radicalmente de ideia nos próximos cinco dias.

A Colômbia é um time que gosta de ter a bola no pé e sabe bem o que fazer com ela. No jogo contra o Uruguai, Jose Pekerman surpreendeu ao deslocar o excelente Cuadrado da lateral direita para o meio campo, com a missão de dar uma opção de armação para o time, além do excepcional James Rodriguez. Com os dois se alternando nas meias, o volante Aguilar e o lateral Armero tinham sempre com quem dialogar, e os atacantes Gutierrez e Martinez, especialmente este, apoio.

Jogando desse modo, com toques rápidos, para a frente, girando a bola de um lado para o outro, sob a batuta de James e Cuadrado, a Colômbia dominou o Uruguai a ponto de ter, pouco antes do golaço de James que abriu o caminho para a vitória, 70% de posse de bola. E não abriu mão desse domínio nem depois de fazer o primeiro gol. Ao contrário do que fizemos diante do Chile, os colombianos não recuaram após inaugurar o placar, mantendo a pressão, que continuou no início da etapa final e mesmo por alguns minutos depois do segundo gol.

Depois dos 15, porém, houve o recuo e a Colômbia mostrou duas deficiências: na defesa, apresentou dificuldades quando o adversário tocou a bola com mais velocidade – o balanço defensivo falhou diversas vezes, deixando espaços nas laterais e até na entrada da área; no ataque, a equipe não conseguiu um contra-ataque veloz, até porque Martinez e Gutierrez são um tanto lentos, especialmente o segundo.

Assim, se quisermos vencer os colombianos não podemos lhes dar a bola em nenhum momento, como fizemos hoje com os chilenos. Temos que tomar cuidado também em não ficar trocando bola no meio, pois eles têm uma “blitz” defensiva com quatro ou cinco jogadores partindo para cima de quem está com a bola, quando o adversário está saindo para o ataque de maneira lenta. Para facilitar a saída de bola, Felipão terá que pôr Maicon no lugar de Daniel Alves, que fecha muito para o meio, facilitando a marcação (Marcelo faz isso também e dois laterais atuando assim não dá).

Além de Maicon aberto, é essencial que Oscar não seja isolado nas beiradas do campo, onde seu potencial é desperdiçado. Ele e Neymar devem atuar mais centralizados, para contrabalançar a dupla James e Cuadrado e também para encostar mais em Fred ou Jô. Hulk também deve atuar mais pela esquerda, já que Marcelo fecha mesmo pelo meio.
Resumindo: Felipão precisa surpreender Pekerman, pois a seleção está previsível e, assim, fica a depender exclusivamente da mística da camisa amarela.

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