“Fora do ar”

A moda entre os coleguinhas é escrever reportagens usando técnicas de romance. É exatamente isso, só que o contrário, que fez Dimmi Amora em seu “Fora do ar” (ed. Simplíssimo) – escreveu um romance fingindo que era uma reportagem. Mais estranho ainda: uma inacabada, um fracasso confessado pelo próprio personagem repórter. Se você é, ou conhece um, jornalista sabe que, em geral, um/a coleguinha prefere ser capado/a a reconhecer que fracassou ou mesmo que errou.

A história começa com um coleguinha recebendo uma caixa, dentro da qual estão arrumados com esmero alguns itens – recortes de jornais, CDs, um minicassete, um diário, folha de inquérito policial… Não se sabe quem deixou, claro. No conteúdo dos recortes, o coleguinha lê matérias sobre o “salve geral” ocorrido no Rio de Janeiro, pouco antes das eleições de 2002, e o assassinato de um deputado em Santa Tereza. Nas mídias gravadas, conversas do rádio da polícia e um desabafo; no inquérito, a apuração da morte de um deputado; no diário, o estranho Ano Novo de um jovem de um morro carioca. Com base nessas pistas, o nosso herói vai tentando levantar as relações entre as informações e as pessoas, reconstruindo os fatos de uma “lenda urbana”. Mais do que isso você só vai saber lendo o livro, que a Coleguinhas odeia “spoiler”.

Porém, além da aventura do repórter em busca de sua grande matéria, o leitor pode ter a sua própria. É que “Fora do ar” é o primeiro livro que leio a usar, de maneira consciente, a possibilidade de leitura não-linear proporcionada pelo hiperlink. Como? Bom, não contei um fato essencial sobre a obra de Dimmi: ela só pode ser usufruída em ebook. Não tem edição analógica, em papel. Esse fato fornece-lhe uma dimensão fundamental. O escritor deixa a cargo do leitor a escolha de como ler – pode seguir uma ordem criada pelo repórter com as mídias que recebeu na caixa ou ir descobrindo os seus conteúdos na ordem em que o coleguinha foi desdobrando-os ao longo da investigação. Como se pode depreender, a segunda forma é bem mais complexa, difícil e, portanto, muito mais interessante (foi a que escolhi, óbvio). A cada fim de capítulo, porém, o leitor tem a opção de pular de uma forma de leitura para outra. (Serviço: “Fora do ar” pode ser encontrado na Amazon e no iTunes).

O sistema leva a um dos dois senões do livro. No fim da obra, há um problema de edição, que faz com que uma parte seja repetida, um problema, porém mais facilmente superado do que o outro: o último capítulo. Terminar bem uma obra, assim como uma reportagem, não é fácil. É preciso uma “chave-de-ouro”, algo que faça o leitor ficar com aquele sabor gostoso na alma de que leu algo lhe acrescentou uma dimensão na vida. Dimmi poderia ter obtido isso se tivesse parado antes do último capítulo. Este não prejudica o resto do livro, mas fica nele como se fosse uma anomalia, um aleijão sem explicação. Pior. Desconfio (talvez pelo fato de o autor tê-lo dito explicitamente…) que ele foi escrito para homenagear a mim, Sua Excelência, o Leitor – e eu não me senti nem um pouco homenageado. Fiquei foi chateado.

O fim de “Fora do ar”, porém, não prejudica em nada restante do livro – sua crítica ao estado de semianarquia em que vive o Rio de Janeiro e a experiência de permitir ao Leitor uma nova maneira de abordar a obra, o que, em si, já é homenagem suficiente a ele, por respeitar a sua inteligência.

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