Movimentos

Na repercussão da lamentável situação que envolveu a colega Bette Lucchese (alguns posts abaixo) e dois transeuntes em Copacabana, uma atitude me preocupou: a de que o casal que esculachou a repórter da TV Globo era formado por dois lunáticos, que, por isso, nada representavam em termos de população brasileira. Para quem pensa assim, o jornalismo brasileiro precisa de umas reformas aqui e ali, mas que, em geral, vai bem, obrigado.

As pessoas que assim pensam tendem a esquecer que esse tipo de manifestação contra a TV Globo está longe de ser algo novo e sequer esporádico. Tem uma linhagem antiga que remonta à década de 80, quando a guerra das OG era travada contra Leonel Brizola e a Brizolândia vivia gritando “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” (para quem não é do Rio e/ou jovem demais para saber/lembrar, Brizolândia era uma reunião de, esses sim, fanáticos correligionários de Brizola que se reuniam na Cinelândia), e teve momentos como a da greve dos metalúrgicos da CSN, em Volta Redonda, em 88, quando três operários foram assassinados pelo Exército e os grevistas, apoiados pela população, atacaram carros da TV Globo, cujos profissionais foram salvos pelos colegas de O Dia (sobre a greve, aqui, aqui,  aqui e aqui). Há ainda registros menos dramáticos, como a, na época, inédita união das torcidas do Cruzeiro e do Atlético Mineiro mandando Galvão Bueno tomar caju, evento que passou a repetir-se regularmente em diversos estádios brasileiros até hoje – o último que assisti/ouvi ocorreu no dia 19 passado, na partida entre Flamengo e Goiás, em Brasília, e foi contra a Globo, pois Galvão não estava presente, versão esta que andou até chegando ao samba (aqui)

A malquerença com as Organizações Globo não é toda a população brasileira, obviamente. Boa parte dela continua vendo as novelas e até acreditando em uma parte significativa do que é realizado pelo seu jornalismo. Esses fatos, porém, não autorizam dizer que nada mudou. Se assim fosse, a audiência das novelas, por exemplo, não estaria caindo paulatinamente (aqui), forçando que outros programas da Estrela da Morte, e mesmo outros veículos do conglomerado, usem uma parte cada vez maior de seus recursos de tempo/espaço e dinheiro para promovê-las (entrevistas de atores e atrizes em programas da emissora e em veículos das OGs são o caso mais flagrante, mas “calhaus audiovisuais” na grade de anúncios também). Quanto ao jornalismo, a queda da audiência em um terço do Jornal Nacional em 10 anos (aqui) fala por si. Com os dois pilares da audiência sofrendo baques diretos, a situação geral se tornou delicada de maneira impensável há 10 anos.

Esse período de uma década marcou movimentos na estrutura da sociedade brasileira que afloraram com força em junho passado. Embora extremamente significativa, a já conhecida mudança econômica foi apenas o início – a social será mais profunda, se tiver tempo de cristalizar-se, o que ainda está a ocorrer, podendo, portanto, ser revertida, dependendo do que fizerem os próximos governos eleitos no fim do ano. Se essa reversão ocorrer – ou pelo menos se a evolução social do país avançar de maneira mais lenta – será bom para as Organizações Globo – pela volta ao “status quo ante” – e por isso ela tem lutado com tanto denodo para que isso aconteça. Obviamente, a crescente parte da sociedade beneficiada com essa evolução (e aquela outra que com ela se identifica por questões ideológicas ou simplesmente humanitárias) resistirá com igual determinação a qualquer involução social ou retirada de direitos, inclusive com ataques a instituições que representam essa tentativa de involução, entre as quais as Organizações Globo – em especial o seu principal veículo – está longe de ser a menos relevante.

Alguns coleguinhas de outros veículos podem achar que isso não os afeta, mas, é claro, não se pode considerar assim. Para todos os efeitos, por décadas, a Globo foi “O” veículo de comunicação do país (incluindo o jornalismo) – e ainda o é. Assim, os ataques que recebe são dirigidos não somente a ela, mas a todos os veículos de comunicação, a maneira como o trabalho jornalístico vem sendo feito no país, até porque o conglomerado dos Marinho não é o único que tem tentado manter as coisas como estão no Brasil (e, se possível, recuá-las um pouco). Essa crítica – ainda implícita, mas cada vez mais evidente – detona, na base, o argumento tradicional “mas o repórter estava apenas trabalhando”. Esse é o ponto: a parte mais educada da população brasileira – que vem crescendo e vai crescer ainda mais, se quem quer manter o “status quo” não conseguir evitar – não concorda como esse trabalho está sendo feito. Não concorda e, agora sem a inibição que o fato de não ter um diploma de curso superior sempre impõe neste país de bacharéis, acredita que pode fazê-lo tão bem ou melhor, e alguns mais ousados resolveram provar isso na prática.

Dessa forma, o constrangimento pelo qual passou Bette e seus colegas, e mesmo o assassinato de Sérgio Andrade (que fim levou mesmo?) – da Band e não da Globo, observe-se -, são episódios que apontam para um movimento mais profundo na relação dos brasileiros com os meios de comunicação. E os profissionais do setor estão bem no meio dessa mudança – é bom abrir o olho, pois enfiar a cabeça na terra não parece ser uma boa atitude nem para avestruz.

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