Os coleguinhas e a queda do eX-império

Em meados de 2010, voltava para casa, acompanhado da Amanda, minha professora de pilates na época, que morava aqui perto, antes de dar um “cavalo de pau” na vida: casou, foi para a Tijuca, largou o estúdio e mudou de profissão. Não me lembro por que o assunto acabou em Eike Batista, dando oportunidade a ela de externar toda a sua admiração ao, àquela altura, oitavo homem mais rico do mundo. Eu não partilhava do sentimento e argumentei que era muito estranho que ele se metesse em tantos negócios diferentes, da mineração a hotelaria, do petróleo a produção de shows. “Acho que nem conglomerado coreano faz isso”, recordo de ter dito, sem qualquer efeito sobre o assombro da minha amiga pelo empresário.

Se Amanda, excelente fisioterapeuta, mas completamente leiga em negócios, tinha razões para não duvidar da semidivina capacidade de Eike de fazer dinheiro, o mesmo não se pode dizer dos coleguinhas que cobrem economia. Por dever de ofício e experiência, eles deveriam, até mais do que eu, que só acompanho economia de maneira limitada, duvidar dela. Não o fizeram até quando já era muito tarde e o ex-marido da Luma de Oliveira estar às portas da bancarrota.

A falta de uma crítica ao comportamento dos coleguinhas é o único senão que aponto no, de resto, ótimo livro “Ascensão e queda do império X” (Ed. Nova Fronteira, 263 páginas), de Sergio Leo, colunista do Valor. Como o nome indica, a trajetória de Eike Batista é contada, desde o início como vendedor na Alemanha, especializado em encantar senhorinhas, sua passagem pelo Olimpo dos bilionários, até chegar à atualidade menos glamourosa, mas ainda muito rica. Com estilo divertido, irônico, bem diferente da sisudez do colunista de jornal especializado em economia, Sergio Leo mostra que Eike nada mais foi (é) do que o fantástico vendedor de um único produto – ele mesmo – que nasceu na época certa e, principalmente, na casa certa, no caso a de Eliezer Batista, o mitológico criador e modelador da Vale (e que também teve boa participação na criação da Petrobras) e tido e havido como o maior estrategista empresarial já nascido no país.

O coleguinha narra como essa conjunção de fatores levou de roldão empresários – daqui e de fora –, governo, investidores (grandes e pequenos), analistas e um sem-número de especuladores, sem que ninguém se desse conta dos pés de barro do ídolo. Crítica corretíssima, mas que deveria se estender aos jornalistas, que também deveriam ter olhado para baixo – talvez tivessem até mais obrigação de fazê-lo do que os outros, pois o ceticismo é conduta de praxe na profissão, mas que, por algum motivo, é aplicado com muita parcimônia contra empresas privadas (quando não completamente ignorado, como caso). Mesmo com esse senão, o “Ascensão e queda do império X” é livro para ser lido com atenção, até por que as idas e vindas de “empresas X” não são fáceis de serem seguidas, por formarem um emaranhado digno de um malandro megalô como o personagem principal da saga.

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