A guinada digital d’ O Globo

Não parece haver dúvidas que as modificações ocorridas no jornal na semana passada (aqui) demonstram que O Globo entendeu que a sua situação empresarial, como proeminente membro das OG, estava se deteriorando a olhos vistos, conforme se pôde ver com clareza na reação indignada – desdobrada no tsunami de cancelamentos de assinaturas – após a desastrosa “capa de bandido” de 17 de outubro, que chegou a ter forte repercussão interna, (aqui), algo antes impensável numa estrutura rígida, que preza a hierarquia às raias do militar. Como resposta, começou a ser implementada, agora, um avanço rumo do digital, como consta do email assinado pelo diretor de redação, Ascânio Seleme.

O que não ficou claro, pelo menos para mim, é de onde partiu a constatação e o plano de salvamento. Pode ter sido do lado da família Marinho, por parte de seu representante na redação, Aluísio Maranhão, ou de Pedro Dória, ideólogo do regime que hoje impera no segundo andar da Irineu Marinho 35 (há pouca dúvida de que a origem não é Seleme, profissional que teria certa dificuldade em lidar com questões de fundo estratégico). Saber de onde veio a ideia é importante para compreender a que ponto a liderança da redação apoia realmente as mudanças que se anunciam profundas a ponto de tocar na própria cultura de rígida hierarquia acima citada.

A profunda mudança dessa cultura me parece ser ponto crítico de sucesso para que o avanço no mundo digital. Pela própria estrutura deste mundo, pautada na descentralização da produção, da difusão e da gestão de conteúdos – descentralização essa que, há anos, várias instâncias de poder de todo mundo tentam modificar, até agora com poucos resultados -, a flexibilidade é mais que um valor, mas a própria maneira de atuar em rede.

Rigidez e flexibilidade, como se sabe, são antônimos, mas a transmutação de uma em outra na cultura interna da redação é fundamental para o sucesso dessa virada rumo ao digital de O Globo. No entanto, como pode ser lido em centenas de livros sobre administração, mudança de cultura organizacional não é algo simples de ser obtido, demandando um intenso e prolongado esforço de todos os envolvidos no processo, a começar pelas lideranças – e não só as altas, mas, muito importante, as médias, entre as quais, em geral, encontram-se as maiores resistências.

Por isso é fundamental saber de onde partiu a constatação de que O Globo, para sobreviver, precisa mudar. Por estranho que possa parecer, acredito que quanto mais próximo da redação tiver partido a ideia de mudança, melhor seria para que o objetivo fosse alcançado. Esse raciocínio tem a ver com os pressupostos do parágrafo acima – se a ideia veio da alta direção das OG, sem a participação dos quadros diretivos da redação, estes tendem a não empregar-se de todo o coração na busca da flexibilidade, que é precondição para o projeto dar certo. Se foi Dória ou mesmo Maranhão, haverá maior determinação na perseguição do resultado. No entanto, parece ser pouco provável que a ideia da guinada tenha saído da cabeça de Dória. O apoio do ideólogo do comando da redação à capa da edição de 17 de outubro (aqui e aqui) indicam que flexibilidade não é uma característica de sua personalidade.

Enfim, fiquemos atentos ao desenrolar do projeto que pretende transformar O Globo numa espécie de HufPro impresso, mas que, para atingir, esse objetivo precisará alterar, de forma radical, a sedimentada cultura de rígida hierarquia do jornal, a começar das próprias crenças e modo de trabalhar do comando da redação.
P.S.: A fim de esclarecer que a flexibilidade a que me refiro não é o mesmo que democracia –que pressupõe o comando da maioria -, mas tão-somente ouvir opiniões dissonantes, uma história contada pelo extraordinário Luiz Mário Gazzaneo sobre a edição do JB, na noite em que foi noticiada a explosão da bomba do Riocentro, dia 1º de maio 1981.

Gazza queria pôr na primeira a foto do Puma, com o corpo arrebentado do sargento Guilherme Pereira do Rosário. O diretor de redação Evandro Carlos de Andrade O chefe de reportagem do jornal, Paulo Henrique Amorim era terminantemente contra:

– Isso é um presunto , Gazzaneo! – afirmava ECA PHA, peremptório, sem precisar dizer que O Globo JB não publicava cadáveres na primeira página.

– Isso não é um presunto, Evandro. É o Aldo Moro! – argumentou, com a veemência característica, o velho comunista descendente de calabreses.

A foto saiu.

Para os jovens: o assassinato do ex-primeiro-ministro italiano Aldo Moro foi o fato politico que determinou o isolamento político das Brigadas Vermelhas e o início de seu fim. Para a comparação das fotos, a de Moro é esta e a do Puma do Riocentro, esta.

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2 comentários sobre “A guinada digital d’ O Globo

  1. a história do Gazzaneo vale por uma aula na faculdade. Uma, não. Dez.

    • Com ele, João Rath, Lutero Soares, Cristina Konder, Marcos de Castro e outros fiz a pós e ainda ganhei salário, Cris. 🙂
      Bjs e saudades, querida.

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