Ressentimento

Um colega da mais alta consideração publicou um post no FB contando a história de que, numa festa, um conviva, descobrindo que ele trabalhava na sucursal de uma importante publicação, perguntou se estava credenciado para o desfile das escolas de samba. Ele disse que sim. O outro perguntou se iria e o coleguinha disse que não. O outro duvidou e o meu amigo confirmou – se não fosse escalado, não iria nem amarrado. O outro, com inveja: “se tivesse uma credencial assim iria de qualquer maneira”.

Desse diálogo, o coleguinha concluiu que o atual ressentimento que nota em parte da sociedade contra a imprensa – a parte que lê jornais e revistas, presta atenção em telejornais e ouve a CBN, bem entendido – é fruto da percepção de que jornalista é bicão e se aproveita para divertir-se a valer.

Respeitosamente discordo.

Não há dúvida de que há, na suposta elite citada, a que realmente presta atenção nos jornalistas, gente que considere que os coleguinhas são mais ou menos como o de “La dolce vita”, vivendo num eterno clima de festa (mesmo sem Fontana di Trevi e Anita Ekberg). No entanto, me parece, o próprio diálogo aponta para algo diferente deste entendimento. O conviva do coleguinha se mostra com inveja da possibilidade de frequentar o desfile sem pagar (ele não tem ideia de como desfile de escola de samba é chaaato). Sem dúvida que inveja por supostos ou reais privilégios pode causar ressentimento, mas também causa admiração, dada a cultura nacional de considerar o malandro como heroi, especialmente no caso do carnaval.

A origem do ressentimento, sob o meu ponto de vista, deve ser buscada em outro lugar. A maior parte das pessoas tem uma visão da imprensa calcada na ideologia dos EUA que diz que a imprensa é o “quarto poder”, que fica fora do jogo político-partidário, não apoia partidos para ser independente e apoiar o cidadão comum. Ilusão, sabemos, mas uma bem legal, custa abrir mão dela em nome da realidade – até porque, como dizia Elliot, o ser humano não suporta muita realidade.

Parece-me que está aí a fonte do ressentimento, inclusive a explicação para o fato de ele ser difuso. O pessoal que ataca jornalistas em manifestações tem bem claro o problema, mas a maior parte das pessoas apenas resmunga a sua irritação, por exemplo, com matérias como a da Folha sobre o crescimento do PIB brasileiro em 2013 (aqui), na qual o jornal cita vários cruzamentos que realizou, comparando PIBs de países, mas não cita o do IBGE, informado pelo insuspeito Estadão (aqui).

E não estou nem falando de gente como um ex-estagiário, hoje numa agência de notícias internacional especializada em economia, que considera, com razão, que não se pode comparar PIBs, já que esses números agregam tal número de variáveis locais que faz de qualquer comparação um chute, quando não uma rematada besteira (exemplos concretos e simples: como comparar o PIB de um país asiático com 1,3 bilhão de habitantes com outro, latino-americano, de 190 milhões? Ou um com 8,5 milhões de quilômetros quadrados, localizado na América do Sul, com outro de 500 mil da mesma Ásia?). Estou falando do cara comum que lê jornal e sente que está sendo enrolado em sua boa-fé , embora não possa definir exatamente como.

Essa sensação de que se está sendo enganado por alguém em quem se confiava, embora não se possa confirmar definitivamente a traição – na linha Bentinho, de “Dom Casmurro” – é capaz de formar ressentimentos, como esses que estamos vendo – e os coleguinhas que vão às ruas sentindo na pele, às vezes literalmente.