A abstenção vem aí

Mais uma prova da preguiça dos coleguinhas? Pois não. Semana passada houve a divulgação de mais uma das pesquisas da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), uma tradição na política brasileira há mais de uma década. Como vem acontecendo há tempos, o levantamento mostrou Dilmão à frente, ganhando no primeiro turno de todos – fácil contra Aécio e Dudu Campos, mais duramente quando Marina substitui Dudu -, o mesmo acontecendo no segundo.

No Datafolha, também tradicional instituto de pesquisa da Folha, que divulgou hoje (domingo, 23) um levantamento, Dilmão dispara com 47% das intenções de voto, quando enfrenta Aécio (18%) e Dudu (12%), e fica com 43%, contra Marina (23%) e Aécio (15%). Não vou botar o Lula e nem o Joaquinzão na roda, como fez o Datafolha, porque se desconfio que estatística desse tipo é ficção (aqui), botar quem nem está no páreo vira, para mim, ficção científica, tipo universo paralelo.

Os levantamentos da Folha e da CNT trazem um dado que foi tratado com ligeireza por todos – um pouco menos pelo jornal dos Frias -, mas que me parece essencial: a rejeição aos candidatos. Só que há discrepância significativa entre os números.

No Datafolha, os três principais candidatos – Dilmão, Aécio e Dudu – estão com índice de 30%, com Marina em 20%. Na pesquisa da CNT, porém, Dilmão, aparece com 37%, Aécio apenas com 1% a menos de rejeição, Marina apresenta 35,5%, e Dudu, 34%. Ou seja, estão tecnicamente empatados, como no Datafolha, mas com rejeição fora das margens de erro entre as duas pesquisas (a pesquisa CNT tem índice de erro de +/- 2,2%, enquanto a da Folha é +/2%, informação que você só encontra com lupa ao lado dos gráficos).

Problemas de metodologia à parte, mesmo com todos os candidatos da oposição fora da função de vidraça – no Executivo – há um tempão (Marina nunca o foi, na verdade), seus índices de rejeição são praticamente os mesmos de Dilma, que sofre bombardeio 24×7 de todos os grandes meios de comunicação do país.

O que isso indica? Na minha modesta opinião é um aviso de que a abstenção na próxima eleição geral vai bater todos os recordes e de longe. Já no segundo turno de 2010, ela chegou a 21% (dado do TSE), patamar jamais atingido antes. Aliás, uma definição: abstenção é o cara que não vai à seção eleitoral, não comparece mesmo, não o que vota nulo ou em branco. Assim, 1 em cada 5 eleitores simplesmente não se deu ao trabalho de sair de casa para ir “exercer seu dever cívico”, como de dizia lá nos antigamente, há quatro anos.

Uma parada aqui:

Há algum risco em não votar (veja aqui), mas nada que uma justificativa esfarrapada  e o pagamento de uma multinha não resolva (ano passado, essa multa foi de R$ 3,50, mas se o juiz eleitoral não for com sua cara, pode aumentá-la até…R$ 35,00!)

Voltando…

Como mostram os percentuais de rejeição obtidos pelas pesquisas CNT (principalmente) e Folha, a próxima eleição tem tudo para deixar aqueles 21% de 2010 comendo poeira. Afinal, se cerca de um terço do eleitorado rejeita um dos candidatos, a possibilidade de o total de abstenção avançar em direção a esse número – embora sem atingi-lo – é bem grande. Tão grande que valeria a pena, CNT e Folha botarem a possibilidade clara de abstenção nas futuras pesquisas e analisá-las em separado, detalhadamente (mas acho que não vão).

Seria um horror? Bem, sim e não. Sim, porque se, digamos, 1 em cada 4 brasileiros achar que não tem nada a fazer numa seção eleitoral, o/a presidente eleito em outubro/novembro próximos começa com um problema sério de representatividade – não será ilegítimo/a (nunca será, mesmo com um único eleitor comparecendo para votar, por ter concorrido a um pleito aberto), mas já começaria com a desconfiança absoluta de 25% dos cidadãos em idade de voto – ou seja, mais de 30 milhões de pessoas.

Não, porque o problema não será só dele/dela – é do mundo inteiro. No Chile, a abstenção na eleição geral, realizada ano passado, chegou a 60% (foi a primeira sem a obrigatoriedade do voto). Na França, em 2012, chegou a 20,5% (e tinha um monte gente querendo chutar o Sarkozy para fora do Eliseu). Nos EUA, no mesmo ano, o Obama só foi eleito por 25% dos americanos com direito a voto (lá, só vota quem quer mesmo, quem se registra para isso, e, entre esses, só 50% apareceram). Já na terra de Elizabeth 2ª, a abstenção, em 2010, atingiu 35%. Tirei esses números desse interessante artigo aqui, que aponta para o tamanho do buraco que está aberto bem no meio da representatividade política.

Importante, né? Valeria um intenso debate, certo? Várias matérias sobre o assunto, positivo? Pois é melhor pegar uma cadeira confortável para esperar – há uma grande possibilidade de matérias com essa abordagem simplesmente não rolarem. Pelo menos não no que depender da vontade de trabalhar dos coleguinhas.

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