Santiago, Dilma e a Copa

O assassinato do colega Santiago Andrade deu uma mão para Dilma Rousseff manter seu emprego no Palácio do Planalto. Eu sei…Essa afirmação é completamente escrota, do tipo que os detratores de um certo florentino chamariam de maquiavélica. Mas fazer o quê? Como dizia Ari de Estagira, o homem é um animal político, e, dependendo de como partiu, não escapa dessa sina nem após a morte.

Talvez não precisasse ser assim se houvesse uma oposição que se desse ao respeito no Bananão. Sabe como é…Um grupo de pessoas que defendesse ideias próprias, com argumentos racionais (não muito falaciosos já seria aceitável) e que procurasse convencer os eleitores do quê e de como fariam diferente do governo ao qual se opõem. Mas o que temos por aqui? Grupos que falam praticamente a mesma coisa (aqui e aqui) e não dizem claramente como governariam, ficando, assim, em relação ao governo, que nem time pequeno em jogo contra grande: esperando um erro da defesa adversária para ver se faz um gol e sai com a vitória.

Dessa forma, Dilmão tem apenas um adversário de peso na briga por sua reeleição: a Copa do Mundo. Claro que não o evento em si, que as pessoas vão curtir como sempre, mas as manifestações que virão junto. Ah, sim, pois elas estão tão garantidas quanto o pontapé inicial de Brasil x Croácia, às 17h, no Itaquerão, no dia 12 de junho – até já sabemos que haverá pancadaria. A questão é de como elas serão e qual o seu significado.

Em junho passado, um número nunca bem calculado de pessoas, mas uns milhões foram às ruas para protestar “contra tudo o que esta aí”. Como disse à época (aqui), esse tipo de brado dificilmente leva a grandes alterações políticas, mas, ao menos, alerta os poderes que eles precisam se mexer, nem que seja para dar uma acalmada na galera. Já em setembro, nas manifestações que começaram (e praticamente terminaram) em 7 de Setembro – já sem as câmeras internacionais posicionadas para a disputa da Copa das Confederações -, a situação foi um pouco diferente: claramente movidas por grupos políticos partidários e/ou profissionais, elas não tiveram lá grande repercussão, exceto alguns bens públicos arrebentados e uns crânios quebrados. Politicamente, seu saldo foi nulo.

A dúvida que paira na cabeça de Dilmão – e de seus adversários – é qual dos dois tipos de manifestação ocorrerá durante a Copa. Em favor da ocorrência do primeiro tipo, há o fato da presença da mídia estrangeira, sempre ávida de mostrar o Brasil como um país exótico, habitado por uns tipos alegres, porém esquisitos – e que sempre suscita, entre os nativos, o gosto pela exibição – e do fato de que foi gasta uma grana considerável com obras que pouco acrescentarão à vida das cidades em que foram realizadas. Em favor do segundo tipo, há o fato de que a maior parte das pessoas estará muito a fim de curtir uma Copa no Brasil e de não “fazer feio” dentro ou fora de campo, além da já espraiada desconfiança-quase-certeza de que, por trás das manifestações, há interesses políticos, ainda mais evidentes pelo fato de que a Copa será realizada três meses antes das eleições.

É nesse ponto que a morte de Santiago Andrade ajuda Dilma e um exemplo dá bem a medida disso. Pouco antes da manifestação em que se desenrolou a tragédia, Marina Silva havia conclamado a população a tomar as ruas com novas manifestações. A virtual candidata a vice de Dudu Campos procurava manter vivo, e na rua, o inconformismo contra o governo federal, exatamente por identificar nele a melhor plataforma de lançamento da sua candidatura. O assassinato do cinegrafista da Band, porém, fez com que Marina, imediatamente, lançasse mão de seu melhor truque político – o desaparecimento de cena. Por dias não se soube dela, até que ressurgiu com um estranho e extemporâneo artigo sobre o pacifismo, publicado na edição da Folha, na edição de sexta (14).

O homicídio de Santiago forçou a candidata sonhática a, pelo menos por enquanto, refluir de seu apoio ostensivo às manifestações como a marcar uma posição de distância em relação àqueles que apelam para a violência durante sua realização. Esse último ponto poderá ser um problema sério lá na frente, pois a ala mais violenta era majoritária nas manifestações de setembro e se continuar assim nas que virão com a Copa, Marina não poderá apoiá-las com a estridência que seria necessária para alavancar sua ida para o Palácio do Jaburu.

Esse refluxo da oposição já teve um primeiro reflexo nas duas manifestações ocorridas após o assassinato de Santiago. Em ambas, apesar do mote mobilizador contra o aumento das passagens de ônibus no Rio, menos de mil pessoas foram às ruas e, como não apelaram para a violência, foram solenemente ignoradas pelos cariocas. Não é crível que, em junho, as manifestações sejam tão tranquilas, mas, ainda assim, a maneira como transcorreram as que ocorreram na semana a após a morte do cinejornalista, aumenta a esperança de Dilmão de manter seu emprego até 2018.