Cascata requentada

Este ano eleitoral já começa a colocar desafios metodológicos aos organizadores do King of the Kings-2014 (ou seja, eu): uma cascata do ano anterior pode ser reapresentada, requentada, numa edição posterior do KofK? A questão se deve à cascata publicada semana passada – de modo mais descarado, pelo Estadão do sábado, 8: a de que estamos passando perigo de racionamento de energia elétrica.

Você deve lembrar que essa mesma cascata concorreu ao KofK-2013, ficando em terceiro lugar (aqui o texto de apresentação). Como em 2013, não há esse ano perigo de racionamento de energia, mas ainda assim, os coleguinhas voltaram cascatear sobre o tema e, da maneira que ocorre muitas vezes, esgrimindo números. Agora, o Estadão diz que “Dados do ONS apontam para o racionamento”, ação esta que se concentraria no Sudeste, que deveria cortar 5% de seu consumo. Tremenda cascata. Os tais números do ONS vêm da operação de um software que calcula o preço da energia elétrica – isso mesmo, nada a ver com perigo ou necessidade de racionamento. O programa funciona assim:

1. O usário diz pra ele: “software, para a “oferta O” e “demanda D”, qual o mix de fontes de energia que preciso para manter o preço na faixa de (digamos) R$ 500 a R$ 600?”.
2.Em cima de um monte de variáveis (entre as quais, a capacidade média de geração de todo tipo de usina que se encontra em sua base de dados e a “curva de aversão ao risco”, que mostra exatamente o mínimo de vazão nas hidrelétricas capaz de afastar o perigo de racionamento), o programa responde: “Precisa de H de geração de hidrelétricas, T de térmicas, N de nucleares e F de alternativas”.
3. Aí o usuário pergunta: “software, tenho menos H’ de hidrelétricas, mas tenho sobra de T’ de térmicas, sendo T’1 a gás, T’2 a óleo e T’3 a carvão. Acionando todas T’1, metade das T’2 e um terço das T’3, qual será o preço e em quanto ele superará o teto da faixa?”.
4.Após novos cálculos, o programa responde: “O novo preço será de R$ 630,00, 5% acima do preço teto”.

Sacou? O que o programa diz é que o preço da energia excederá o teto em 5%, assim, para que ele voltasse à faixa desejada, a demanda deveria ser cortada naquele percentual, dadas aquelas variáveis – se aumentar o H das hidrelétricas, reduzindo a diferença H’, por exemplo, o percentual cai ou até some. Como dá para notar, esse é um número extremamente volátil – é só chover o suficiente em algumas das bacias hidrográficas corretas ou esfriar uns três graus em Rio e São Paulo que ele muda. Na verdade, é alterado de semana em semana e os coleguinhas sabem disso.

Segundo ponto. Como acontecem racionamentos? De qualquer coisa – comida, combustível, bonequinhos de Pokémon…? Quando a demanda supera a oferta e não há perspectiva de equilíbrio no curto prazo, certo? O preço dispara e o governo, para evitar o colapso de produtos essenciais (minha sobrinha mais velha acha bonequinhos de Pokémon itens de primeira necessidade), decreta racionamento – e, automaticamente, cria um mercado negro do produto com preços escorchantes –no caso da energia elétrica, no Brasil, não se chama “negro”, mas “livre”, e está previsto em lei.

Só que, em termos de energia, temos é excesso. Como o país não cresceu os 5% ao ano que se esperava nos anos pré-crise de 2008 (construindo-se um monte de térmicas para esperar a carga), hoje há energia suficiente para passar pelos apertos de dois verões pouco chuvosos, como os que vivemos. Vamos pagar os olhos de cara – porque esse excesso é proveniente de térmicas e não de hidrelétricas, bombardeadas pelo Ministério Público e por ambientalistas – mas energia vai haver. E os coleguinhas sabem disso tanto quanto eu, mas escrevem matérias com essa do Estadão assim mesmo. Sobre o que eles deveriam escrever é a respeito da falta de campanha permanente – e não só no momento de aperto – em favor do uso racional de energia, algo útil em qualquer época, país ou planeta. Mas eficiência energética não é assunto que influencie em campanha eleitoral, daí…

Terceiro ponto. Os coleguinhas sabem, pois foi informado, que os níveis de água nas hidrelétricas está, em média, cinco pontos percentuais acima do que havia na mesma época ano passado, quando, como eu tinha previsto, não houve racionamento. Os coleguinhas, obviamente, não noticiaram o fato, ou o fizeram o mais discretamente que puderam, visando sustentar a cascata do racionamento.

O motivo? Bem, no texto do ano passado, eu já explico e o que aconteceu semana passada corrobora a hipótese – depois da interrupção de terça passada, na quarta veio o primeiro boato de racionamento (lançado pela Fitch, via Valor) e as ações das elétricas caíram 4% na Bolsa. No dia seguinte, sem que nada houvesse mudado, subiram 2%. Imagine quanto se ganhou só nessas 24 horas. Para quem foi o dinheiro? Acredito que para os analistas malandros, mas, nessa altura do campeonato, já começo a duvidar do que escrevi no texto de 2013: sim, pode ser que tenha coleguinha se dando bem em cima desse cascatol.

Ah, sim…Essa cascata do Estadão vai disputar o KofK-2014.

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4 comentários sobre “Cascata requentada

  1. Não conhecia o blog. Gostei muito. Só não vi informações (procurei) sobre o seu redator.

  2. poxa, ivson, curto seu trampo e seu blog, e acho que tão pesando sim a mão nessa questão de risco de racionamento. mas você trabalha na eletrobras e qualquer um do setor elétrico sabe que risco hoje existe, sim, e eu acho difícil não concordar com um mário veiga falando em uma chance de 20%. e, poxa, ver o que o governo está fazendo com a eletrobras pra conseguir bancar a tarifa mais barata é triste. por que será que nenhuma empresa privada participou do leilão de três irmãos? se for assim ano que vem essas ciladas vão cair todas pra eletrobras, que assume sempre todos os micos do setor. pobre costinha….

    • Bem, vamos lá:
      1. Se existe 23% (não 20%) de chance de racionamento é que há 77% de não haver. Se fosse você e sabendo dessas probabilidades apostaria que vai haver ou não? O que, provavelmente, vai ter são apagões pontuais e, assim mesmo, se o inverno for quente também. Se a temperatura descer, cai também o uso de ar condicionado e aí até esse perigo diminui muito.
      2. Aliás, você notou como a palavra racionamento já não é tão popular no noticiário, de duas semanas para cá? Creio que a explicação é que se houve mesmo racionamento, o primeiro – talvez único – seja o de água em São Paulo. E São Paulo é governado por qual partido mesmo?
      3. Sobre a Eletrobras, vamos convir que ela passou anos ganhando dinheiro a custa da população – as usinas todas já tinham se pago pelo menos duas vezes e a empresa continuava recebendo como se elas ainda não tivessem sido totalmente quitadas. Essa mamata gerou desperdícios monstruosos nos processos internos e uma leniência imensa com eles. São décadas disso e agora estão tendo que fazer em dois anos o que não fizeram nesse tempo todo. Daí o sofrimento.
      4. Não houve participação no leilão da Cesp porque os tucanos entraram na Justiça e as privadas não vão entrar em divididas dessas. O TCU parou, mas foi só política – o ministro que paralisou o processo foi o José Jorge. Lembra dele? Não? Foi o “ministro do apagão” do FHC.
      5. As usinas que serão leiloadas ano que vem não terão problemas na Justiça porque está na lei, há 20 anos, que elas voltariam à União para nova licitação. Não vai dar pra fazer chicana. E se elas fossem ruins, o governo de São Paulo não teria brigado para ficar com elas mais dois anos, certo?

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