Burrice direita

A coisa que mais odeio é burrice. Tanto que mesmo quando ela ajuda aquilo no que acredito, me irrita. É o caso da reação da direita brasileira aos rolezinhos. Em todo lugar onde há uma direita moderna, decente e democrática (para os padrões da direita, bem entendido), os jovens da periferia de São Paulo estariam sendo saudados com banda de música, tapete vermelho e salva de palmas ao entrarem nos shoppings. Aqui no Bananão, porém, levam é gás lacrimogêneo e cacetada da polícia.

Há uma lenda, espalhada pelos direitistas mais espertos pouquinha coisa, de que não existe mais direita e esquerda no mundo. Tremenda malandragem. Direita e esquerda são frutos da sociedade burguesa capitalista, que leva à luta de classes, e só sumiriam se (quando) esse tipo de sociedade for superada historicamente. O que há hoje é que tanto a direita moderna, quanto a esquerda idem parecem ter entendido isso e, nos países com maior experiência democrática, a diferença se tornou mais sutil. Os dois lados concordam que o ideal é harmonizar o individualismo com o coletivismo, que, em outras épocas,  nos levou a sobreviver em tempos não tão amenos do planeta Terra.

A separação se faz pelas respostas que cada um dos lados dá ao inevitável e frequente confronto entre o coletivo e o individual. A direita acredita que, nesses choques, o individual deve prevalecer, pois, lá na frente, a intervenção de um ser “ex-machina” (Deus, mão invisível do mercado etc) se encarrega de restaurar a harmonia. A esquerda acredita que o coletivo deve ser privilegiado e que essa harmonização deve ser realizada pelo Estado, pois não acredita em Deus (ou acha que Ele tem mais coisas a fazer no Universo do que cuidar de nós) e já viu vezes demais que a tal “mão invisível” puxa a sardinha para um lado só.

Assim, em países em que a direita não tem como seus principais ideólogos rodrigos azevedos e constantinos, os jovens da periferia paulista seriam muito bem recebidos nos shoppings. Estes espaços são verdadeiras catedrais em honra ao deus consumo, cujas hóstias são retangulares, de plástico colorido e medem, em geral, 8,5cm x 5,5cm. A cada vez que um jovem desses saísse satisfeito de uma loja, mais um tijolo seria colocado na construção de sua consciência individualista, levando mais água para o moinho da direita.

Mas o que faz a direita do Bananão? Impede os garotos e garotas de entrar na “igreja do consumo satisfeito” e se eles tentarem vencer a barreira, a ordem é baixar o cassetete com vontade. A reação é óbvia: eles e elas se unem em movimentos coletivos como forma de fazer valer aquilo que consideram ser o melhor para eles, o que acham de seu direito (e é mesmo). Ou seja, procuram uma solução coletiva, típica da esquerda. No início, movimentos desse tipo não costumam apresentar a chamada “consciência social”, mas, como descobriram ao longo do tempo os direitistas dos países civilizados, é só deixar um grupo de pobres junto tempo suficiente, pensando e trocando ideias sobre a realidade em que vivem, para que comece a brotar a tal consciência social e, logo em cima, a de classe. Para evitar isso é que a ordem é fazê-los consumir mais e mais rápido, a fim de que o “eu-tenho-você-não-tem” impeça a aproximação natural de seres humanos que passam pelas mesmas vicissitudes.

Assim, a reação hidrófoba da direita brasileira tão bem expressa pelo senador tucano paulista Aloysio Nunes – em frase registrada pela Folha, chamou os jovens de abusados e cavalões – acaba sendo contraproducente para ela mesma. Também não vai funcionar, embora seja uma abordagem melhor, a variante de só olhar o lado consumista dos rolezinhos, sem levar em consideração o “apartheid” social de que são resultado, e nem aquela outra vertente, mais liberal ainda, de cobrar dos garotos a “consciência social” de pedir educação e saúde melhores do Estado – uma ideia boa, mas que expõe a contradição de exigir uma consciência de classe que os próprios liberais negam que os rolezeiros possuam.

Enfim, a direita brasileira está prestes a novamente bomba (no caso, metaforicamente) em mais um teste de civilidade que a História lhe propõe. Para o próximo, aconselha-se que estudem em livros-textos melhores do que a Veja, O Globo, o Estadão e outros que-tais.