Ficção, mas não muito: surge o rolezinho

Deve ter sido mais ou menos assim (com as devidas mudanças de linguajar e de gírias cariocas para paulistas):

Três jovens conversam na porta de um bar na periferia de São Paulo. Um quarto se aproxima, com cara de poucos amigos:

– O que foi, mano? Que cara é essa?

– Tô bolado!

Os outros ficam quietos, esperando a história. O outro desabafa:

– Tava no (cita o nome do shopping mais bacana da região) com a mina. Aí ela viu uma roupa numa loja e entrou. Eu fui atrás. A puta da vendedora ficou olhando esquisito pra mina. Já não gostei, mas a mina não ligou, acho que nem viu Ficou olhando as roupas. Aí eu vi o segurança da loja ficando perto da porta. Aí logo veio um outro, do shopping. Pôrra! Eles estavam achando que a gente ia roubar! Pôrra, a mina tem dinheiro pra comprar aquela merda de roupa! Eu também tenho pra dar pra ela! Fiquei encarando os caras, ficou tenso. Aí a mina viu e resolveu ir embora, acho que pra não dar confusão. Fiquei bolado!

– Eles olha assim pra todo mundo daqui. Um tempo eu estava com fulano lá no (cita o segundo shopping mais legal) e entramo numa loja de informática. Peguei um troço lá e fiquei olhando. Aí o fulano me cutucou e fez assim com a cabeça (movimento de apontar com o queixo). Um vendedor tinha ficado na porta e um segurança perto, olhando pela vitrina. Também fiquei bolado e falei pro vendedor: “qual é, mano? Tá olhando o quê? Acha que vou roubar?”. Ele ficou quieto e o segurança veio ficar perto dele. Fiquei mais bolado! Aí o fulano disse” “vamo embora. Esses caras são muito mané e essa loja é uma merda”. Aí a gente foi embora, mas eu queria era dar umas porradas nele.

O primeiro volta:

– Eles acha que a gente é tudo ladrão. Porra, todo mundo estuda e trabalha e a eles ficam olhando como se a gente está no caminho errado!

Um terceiro, que estivera calado:

– Aê, vamo fazê? Nóis junta mais uns dez e umas mina e vai lá no (cita o shopping mais bacana) dar um rolê, zoar eles. Vai tudo junto. Quero ver eles encarar nóis tudo junto. Vamo fazê?

– Já é!

– Demorô!

– Vambora!

Esses garotos e garotas, mais do que qualquer coisa, creio, estão dando um aviso, um salve-geral, para certa parte significativa da sociedade brasileira: “Hoje, sozinho, sou fraco e não tenho dinheiro, por isso venho em bando só pra zoar. Mas daqui a uns 15 anos, vou vir com meu filho e aí se algum segurança olhar feio pra ele, vai dar uma tremenda merda!”.

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